As eleições de 2022 e a intensificação das farsas na Internet – Por João Cassino

A melhor forma de se prevenir para não cair em armadilhas é a mesma para se livrar das fake news “tradicionais”: Verifique sempre a origem da informação e, na dúvida, não compartilhe

Por João Cassino *

Se você acha que nas eleições presidenciais de 2018 houve abuso na divulgação de notícias falsas (fake news), prepare-se para o pior: no ano que vem, para além de memes mal feitos e textos pessimamente escritos, as mentiras serão veiculadas em vídeos produzidos por deepfake (ou farsa profunda, em português).

Trata-se de uma técnica que utiliza algoritmos de Inteligência Artificial para alterar vídeos e sons. Com deepfake, pode-se modificar declarações e comportamentos de candidatas e candidatos, registrando em pequenos filmes coisas que nunca disseram ou nunca fizeram.

O fato não é novo em si. Edição de vídeo para prejudicar adversários políticos é coisa antiga. O que assusta agora é a facilidade de se criar mentiras. Para se ter uma ideia, na versão original do filme Liga da Justiça, cujo lançamento ocorreu em 2017, a Warner Bros afirmou ter gasto US$ 25 milhões com computação gráfica para retirar digitalmente o bigode de Henry Cavill, que interpretou o Superman. O ator foi chamado para cenas adicionais não previstas no cronograma inicial, mas precisava manter os pelos faciais para um personagem que fazia em outro filme na mesma época. O resultado ficou bem ruim, deformando a cara do ator e tornando a superprodução um motivo de piadas.

Cerca de dois anos depois, alguns youtubers (de canais como Jarkan ou Shamook) refizeram a cena do kryptoniano utilizando a técnica de deepfake e computadores ordinários. O resultado caseiro é impressionantemente melhor do que o realizado por um dos maiores estúdios da indústria cinematográfica de Hollywood.

Gal Gadot, a Mulher Maravilha, também foi alvo de deepfake, mas de uma maneira criminosa e covarde. Colocaram seu rosto, como uma espécie de “máscara digital”, sobre a face de atrizes de produções pornográficas, fazendo com que ela estivesse em cenas de sexo explícito. Várias outras mulheres famosas foram vítimas desse tipo de perversidade condenável.

Na política, apesar do tsunami de notícias falsas, a deepfake não foi usada de maneira significativa nas eleições brasileiras de 2018, provavelmente porque a técnica ainda não estava popularizada. Porém, naquele mesmo ano, pesquisadores da Universidade de Washington produziram um modelo digital de Barack Obama. Seu maxilar e o restante de seu rosto poderiam se mexer como quando ele profere um discurso, o que permitia colocar absolutamente qualquer palavra na boca sintética do ex-presidente dos Estados Unidos.

Recentemente, virou febre nas redes sociais o compartilhamento de vídeos feitos com aplicativos de deepfake, como Wombo AI, que pode ser baixado em qualquer aparelho celular e dá resultados incríveis na animação de fotos comuns. Com o app, uma fotografia simples de rosto, tipo selfie, começa a cantar e a dançar, como se fosse um filme. Dependendo da foto, fica melhor ou pior, mas alguns vídeos são quase perfeitos.

Em março de 2021, no dia em que o Supremo Tribunal Federal tornou Luiz Inácio Lula da Silva novamente elegível, grupos direitistas circularam um vídeo alterado em que o ex-presidente brasileiro parecia estar bêbado. Mentira! A velocidade de reprodução do vídeo havia sido reduzida, deixando a fala um pouco mais lenta.

Até o início do pleito de 2022, sejam quem forem os candidatos, o uso de deepfake deve se tornar mais comum e ainda mais avançado. Portanto, a melhor forma de se prevenir de cair em armadilhas é a mesma para se livrar das fake news “tradicionais”. Verifique sempre a origem da informação, qual a sua procedência, pesquise sempre em mais de uma fonte, confira se grandes veículos de comunicação repercutiram a história. E mais importante de tudo: na dúvida, não compartilhe.

*João Cassino é jornalista, doutorando e mestre em Ciências Sociais.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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João Cassino

Jornalista, doutorando e mestre em Ciências Sociais.