O que o brasileiro pensa?
29 de abril de 2020, 17h26

Até quando?, por Jorge Solla

"Por que tanta relutância do governo Bolsonaro em fazer valer a lei e realizar o exame do Revalida, para que os 15 mil médicos formados no exterior possam conquistar seus registros e ajudar nessa guerra? Que interesse corporativo é mais importante?"

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom (Agência Brasil)

Por Jorge Solla*

A guerra contra o coronavírus nas salas de emergência dos hospitais pode ser melhor comparada a uma corrida de revezamento. Não de metros, mas quilômetros, longas e cansativas maratonas, mais do que as pernas podem aguentar. O suicídio da médica Lorna Breen, 49 anos, em Nova York, uma das intensivistas que estava na linha de frente do tratamento de pacientes com COVID-19, é um sonoro alerta para um problema silencioso: uma grande parte dos profissionais de saúde que não forem afastados por contágio do vírus não aguentará seguir nessa rotina insana por longos meses sem apresentar graves quadros de transtorno mental, que lhes incapacitará para seguir no trabalho.

Até que tenhamos uma vacina, o que deve durar mais um ano, só um improvável lockdown impediria de as emergências permanecerem lotadas por todo esse período. No Brasil, em que as medidas de isolamento social ainda possuem baixa adesão e o presidente da República age para boicotá-las, cogitar esse cenário é impossível. Mesmo nos países que controlaram a transmissão e caminham para uma reabertura gradual, o termômetro para novas restrições de circulação é a curva de contágio, levando sempre em conta a capacidade de atendimento dos casos graves: a emergência próxima do limite é o alerta.

No Brasil, somente no Rio de Janeiro, 11 médicos já morreram devido ao coronavírus. Na Espanha foram mais de 25 mil infectados. Números que assustam. Soma-se à falta de EPIs e à dolorosa missão de, dia a dia, decidir quem terá a chance de tentar sobreviver e quem morrerá sem atendimento, e o resultado é a já real falta de médicos no chamamento para contratação nos hospitais de campanha. Muito em breve o governo terá de recorrer à convocação desses profissionais na forma da lei.

Mesmo com esse cenário, por que tanta relutância do governo Bolsonaro em fazer valer a Lei 13.958/2019 e realizar o exame do Revalida, para que os 15 mil médicos formados no exterior possam conquistar seus registros e ajudar nessa guerra? Que interesse corporativo é mais importante? Os EUA neste momento recruta médicos do exterior. No Reino Unido, Boris Johnson agradece os profissionais que vieram de fora para trabalhar no NHS e salvaram sua vida.

Apresentei na Câmara o Projeto de Lei 1780/20, que prevê a realização de um revalida emergencial, em 30 dias. A proposta já conta com apoio de líderes partidários num requerimento de pedido de urgência, estamos em diálogo com o presidente Rodrigo Maia (DEM) para pauta-lo no Plenário o quanto antes. Do governo, todavia, o silêncio é total. Essa é mais uma das medidas emergenciais mais importantes, mas está engavetada. Até quando?

O Consórcio Nordeste declarou apoio à realização do exame para já, mas não esperou, criou sua Brigada Emergencial de Saúde do Nordeste (Brigada SUS|NE), que institui uma revalidação de diplomas via universidades públicas, com um formato de internato complementar sob supervisão, com uma bolsa para estes profissionais atuarem durante o processo de revalidação no estágio supervisionado, contribuindo para o enfrentamento da pandemia. Os governadores acertaram. Querem ter recurso humano para planejar escalas, descanso e reserva para preservar a saúde dos profissionais e garantir o atendimento.

*Jorge Solla é deputado federal (PT-BA)

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum


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