No rastro do óleo do Nordeste
25 de setembro de 2019, 00h03

Bolsonaro envergonha o Brasil na ONU, por José Guimarães

A verdade é que o discurso assistido por milhões de pessoas fechou portas. O dólar voltou a subir, o índice iBovespa caiu e a ausência de segurança para investidores internacionais voltou a despencar

Foto: Carolina Antunes/PR

Por José Guimarães* 

Um discurso vazio, oco e movido pelo ódio destruiu um dos momentos mais importantes da projeção internacional que o Brasil tradicionalmente possui na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. O posto de destaque ocupado pelo nosso país, responsável pelo discurso de abertura do encontro, foi fortemente maculado na manhã de hoje após a fala do presidente Jair Bolsonaro.

Em pouco mais de 30 minutos, Bolsonaro perdeu a chance de apaziguar ânimos e conter conflitos diplomáticos que se sucedem nesses nove meses de governo. Era a chance que tínhamos para apresentar ao mundo o interesse em parcerias com líderes internacionais. Mas o ódio, mais uma vez, falou mais alto. A crise econômica sentida por milhões de brasileiros país afora perdeu espaço para ataques sem nexo.

Bolsonaro não falou para o mundo, muito menos para as autoridades ali presentes. Bolsonaro falou para o próprio eleitorado. Uma legião de indivíduos que, cegamente, recusam-se a enxergar que ataques rasos não constroem mandatos e não valorizam a dignidade de milhões de brasileiras e brasileiros que merecem emprego digno, saúde de qualidade e educação eficaz. Perdeu-se em críticas a uma guerra imaginária ao “socialismo” e em ataques desnecessários a países como Venezuela e Cuba. Faltou coragem para encarar a França de frente, mas coragem não é, definitivamente, atributo de quem falta com a verdade.

Seus eleitores podem até achar que tiveram seus interesses ali preservados, mas a grande verdade é que o Brasil não sai vitorioso após uma fala que não reconhece os problemas vividos por um país que enfrenta a crise econômica. A população não vê investimentos em áreas como saúde, educação e proteção ambiental. O discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU era a ocasião perfeita para “limpar a barra” do país em uma das questões mais relevantes para a validação do acordo entre União Europeia e Mercosul.

Mas não. Ao invés de anunciar investimentos em proteção florestal e reconhecer que o País falha ao recusar ajuda externa para proteger o meio ambiente, Bolsonaro impressiona negativamente o mundo com picuinhas que só colaboram com o isolamento diplomático que enfraquece as relações do Brasil com o mundo. A ausência de evidências e as palavras pautadas em achismos nos envergonha mundialmente.

A polarização como efeito de um discurso que ataca indígenas, idolatra a supremacia norte-americana e minimiza a contribuição positiva de centenas de cubanos que participaram do Mais Médicos só escurece a mancha que o Brasil carrega desde que a ultra-direita subiu ao poder. Bolsonaro é o presidente das contradições. Estufa o peito para dizer que protege indígenas, mas defende um governo com políticas que desmerecem as minorias. Ofende o programa que levou qualidade de vida à população que não tinha atenção médica, mas nada fez pela saúde pública no Brasil até agora.

Ver exagero na cobertura midiática sobre os incêndios na Amazônia e minimizar constatações de que a floresta é o “pulmão do mundo” não nos ajuda em nada. Só fortalece, entre os líderes mundiais, a certeza de que o Brasil enfrenta um dos períodos mais sombrios de sua história. Não há troféu quando o tom beligerante camufla o congelamento de bolsas que favoreceriam o desenvolvimento científico e tecnológico do País. Não há triunfo quando cerca de 13 milhões de desempregados poderiam usufruir de parcerias que poderiam nascer a partir de um discurso pacífico.

A verdade é que o discurso assistido por milhões de pessoas, hoje pela manhã, fechou portas. O dólar voltou a subir, o índice iBovespa caiu e a ausência de segurança para investidores internacionais voltou a despencar. Quando se mergulha em polêmicas desnecessárias, cria-se uma espaço para um acerto de contas irreal que desmerece as necessidades efetivas do nosso povo. Bolsonaro não manteve a boa imagem de país conciliador construída a duras penas ao longo de governos democráticos.

*José Guimarães é deputado federal (PT-CE), vice Líder da Minoria, membro da comissão de educação, CCJ e Secretário de Assuntos Institucionais do PT

 

Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum

#tags