O que o brasileiro pensa?
01 de maio de 2020, 10h13

Brasil 2020: O que o psicopata Emilio Massera pode nos ensinar?

Massera era um exibicionista do poder e não escondia de ninguém suas falcatruas pessoais e familiares, matando, diga-se de passagem, inúmeras pessoas que por um instante tentaram impedi-lo de realizar seus feitos abjetos e absurdos

Por Henrique Rodrigues*

O almirante Emilio Eduardo Massera foi a face mais sangrenta do horror e da morte na América Latina no Século XX. Na peculiar Ditadura Militar Argentina (1.976 – 1.983), autointitulada ‘Proceso de Reorganización Nacional’ , o poder governamental foi repartido entre os três comandantes das forças armadas. Jorge Rafael Videla, chefe do Exército, ficou com a presidência da nação vizinha. No entanto, Massera, o comandante da Armada (Marinha), foi quem entrou para a História como o maior psicopata genocida de nosso continente.

Nós precisamos falar sobre Emilio Massera, inclusive para entendermos o Brasil atual.

Para além do homem que matou o marido da amante, com quem mantinha negócios escusos e suspeitava que estivesse sendo passado para trás, que nomeou um presidente do Banco Central para realizar uma transferência internacional milionária ilegal, e que também falsificou documentos, ameaçou e matou pessoas para ficar com suas propriedades, Massera foi, sobretudo, um déspota que tomou a República Argentina para si, como propriedade privada.

No Brasil, nossos últimos dias têm sido permeados pela mais absoluta incredulidade. O presidente da República nomeia para chefiar a Polícia Federal um amigo íntimo dos filhos (vetado pelo Judiciário), que são investigados em processos criminais que correm no STF. Como órgão de Estado, a Polícia Federal é responsável justamente por investigar os atos criminosos imputados ao mandatário brasileiro e à sua prole. É repugnantemente inaceitável que Bolsonaro use o Brasil como uma birosca particular, satisfazendo seus desejos mais indecorosos, aparelhando descaradamente o Estado.

No mesmo dia, à noite, Jair Bolsonaro dá entrevista na porta do Palácio da Alvorada e dispara para sua plateia, após ser questionado sobre o recorde de 5 mil mortos pela Covid-19:

“E daí? Lamento! Você quer que eu faça o quê?”

Dois dias antes, uma reportagem publicada pelo ‘The Intercept’ e pela ‘Folha de S. Paulo’ mostra que o Ministério Público do Rio de Janeiro já tinha os elos de seu filho primogênito, o senador Flávio Bolsonaro, com a milícia que controla parte da Zona Oeste da capital fluminense. Segundo as apurações do MP, Flávio teria participação financeira nas construções ilegais promovidas pela milícia na região.

Mas então, por que precisamos falar sobre Emilio Massera?

Massera ascendeu ao cargo de almirante, aos 49 anos, pelas mãos de Juan Domingo Perón, que voltava do exílio, para pouco tempo depois tornar-se um obsceno conspirador que tramaria o golpe de Estado que derrubou Isabelita Perón, instaurando uma brutal ditadura que deixou mais de 30 mil mortos e desaparecidos.

Ainda que o protagonismo político fosse de Videla (também um cruel genocida), que governava a nação e dava destaque às fileiras do Exército, convertendo-se na vitrine do regime, Emilio Massera e a Armada foram ampliando seus poderes, antes limitados às atividades de combate aos Montoneros, a mais conhecida organização da esquerda argentina à época.

De personalidade sádica, Massera orgulhava-se de ser um mau-caráter assassino e os historiadores não têm dúvidas que foram essas características demoníacas, sem qualquer limite em suas ações, que permitiram ao ‘Almirante Cero’ angariar tanto poder e passar a ser visto como o emblema mais mortal do ‘Proceso’ .

Massera era um exibicionista do poder e não escondia de ninguém suas falcatruas pessoais e familiares, matando, diga-se de passagem, inúmeras pessoas que por um instante tentaram impedi-lo de realizar seus feitos abjetos e absurdos.

O comandante da Armada argentina era um psicopata contumaz, que atuava em várias frentes, cometendo os mais variados delitos, e sequer disfarçava isso.

Foi da mente de Massera que saiu a ideia de transformar a ESMA (Escola de Mecânica da Armada) num campo de concentração e extermínio. No imponente e gigantesco imóvel da Avenida del Libertador, em Buenos Aires, hoje transformado no Museu da Memória Contra o Terrorismo de Estado, entraram mais de cinco mil presos políticos. Os levantamentos dos governos pós-ditadura estimam que apenas 5% deles saíram vivos de lá. A criação do ‘Grupo de Tareas 3.3.2’ , o terrífico órgão de tortura, assassinato e desaparecimento do regime, subordinado à Armada e sediado na ESMA, também foi obra de sua delinquência psicopática.

Quando Jair Bolsonaro defendeu, numa entrevista à TV Bandeirantes, em 1.999, o assassinato “de uns 30 mil”, que segundo ele “seria um trabalho que o regime militar brasileiro não fez”, naturalmente aludia ao morticínio encabeçado por Massera na Argentina. Na mesma entrevista, ao dizer ao jornalista “sou favorável à tortura e você sabe disso”, também brindava as atrocidades cometidas nas ditaduras sul-americanas, que tiveram seu expoente máximo nos horrores inenarráveis dos porões da ESMA, quando milhares de dissidentes políticos, estudantes, sindicalistas, autoridades não-alinhadas, ou qualquer um que fosse considerado suspeito eram torturados brutalmente e depois lançados vivos, dopados, de aviões militares sobre a foz do Rio da Prata, numa prática que ficou conhecida mundialmente como ‘voos da morte’, um asqueroso crime contra a humanidade.

Há muito mais semelhanças entre a índole e a mente de monstros como Emilio Massera e dos faraós autocratas contemporâneos. O deboche, a hipocrisia doentia, as mentiras compulsivas, o mito do homem honrado que enverga a farda da pátria e que fala o tempo todo de Deus. Tudo isso convive lado a lado com a corrupção sistemática, envolvimento com organizações criminosas, fontes ilícitas de renda, assassinatos, proteção a familiares e uso das instituições do Estado para fins privados.

Certa vez, quando abordado na rua de um bairro bucólico portenho, violando a prisão doméstica por razões de saúde, ‘El Negro’ (alusão à sua farda preta de almirante) respondeu a um jornalista, como um pobre coitado:

“Estava saindo para caminhar, minhas pernas estão muito mal… Fazendo isso (filmando) você vai me prejudicar.”

Massera já estava condenado à prisão perpétua e havia sido indultado, junto com Videla, por uma lei inconstitucional de Carlos Menem. Anos depois, Néstor Kirchner revogou o absurdo decreto e os mandou de volta ao cárcere. O líder do Exército foi, mas o marinheiro genocida não, já que havia sofrido um AVC e vivia em estado vegetativo àquela altura.

Também agiu como um crápula cínico numa entrevista a um programa de tevê argentino, em 1.995:

“Houve mortos e desaparecidos? Eu não sei do que vocês estão falando… Se ocorreu alguma coisa, eu não tomei conhecimento.”

Foram mais de 30 mil mortos e desaparecidos, mulheres grávidas barbaramente violentadas até darem à luz, 550 bebês raptados e cinco mil seres humanos lançados vivos de aviões sobre o encontro das águas do rio com o mar. Tudo documentado, processos julgados e inúmeras condenações.

Como responderia o diabólico almirante Emilio Massera a tudo isso hoje?

“E daí?”

*Henrique Rodrigues é jornalista e professor de Literatura Brasileira


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