Carnaval sem alegria e com 3.451 mortos: um ano para esquecer – Memórias de Fevereiro (2)

Na Fórum Folia de hoje, Estevan Mazzuia, o Tuta do Uirapuru, relembra outros 16 de fevereiro que marcaram a história e o carnaval e lamenta pela pandemia, que tirou nosso direito de ter uma terça-feira gorda

Por Estevan Mazzuia *

Hoje seria terça-feira. A chamada “terça-feira gorda” (Mardi Gras) de carnaval, por ser o último dia de comilança liberada, antes do jejum da Quaresma, para aqueles que professam o cristianismo “a ferro e fogo”. Mas, como todos sabem, nossa maior festa, o maior momento de expressão da brasilidade, foi cancelado em virtude dessa pandemia que assola o Brasil e o mundo. Como tristeza pouca é bobagem, estamos no país que pior tem lidado com a tragédia, governado pelo corrupto mais relevante de 2020, superando o racista laranja de topete. 

Mas já tivemos outros 16 de fevereiro marcantes em nossa história carnavalesca. Um deles, bem triste, inclusive. 

 Foi em 16 de fevereiro de 1958 que a Mocidade Independente de Padre Miguel desfilou, na Praça XI, com “Apoteose ao Samba”, que lhe daria o título do grupo de acesso no carnaval do Rio de Janeiro. Era apenas o segundo desfile da escola, que conquistava o direito, nunca mais perdido, de desfilar entre as principais escolas da cidade. Naquela mesma noite, na Avenida Rio Branco, não muito distante, a Portela desfilava com “Vultos e efemérides do Brasil”, que lhe daria seu 13º campeonato. 

Com “Bahia de Todos os Deuses”, de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, o Salgueiro desfilou na Candelária, em 16 de fevereiro de 1969, para conquistar seu quarto campeonato, superando Império Serrano, com “Heróis da Liberdade”, e Unidos de Vila Isabel, com “Yayá do Cais Dourado”. 

A Acadêmicos do Tucuruvi conquistou o título do grupo 3 do carnaval paulistano desfilando em 16 de fevereiro de 1980, com “Giganta das Artes”, de Horácio Baião. Fundada em 1976, a escola se firmaria entre as grandes apenas no século XXI, depois de oscilar entre o primeiro e o segundo grupo por mais de 20 anos, mas jamais retornaria ao terceiro escalão. 

Em 1985 foi a vez da Leandro de Itaquera conquistar o terceiro grupo paulistano, com “O Futuro a Deus Pertence”, de Augusto Henrique, desfilando num 16 de fevereiro. Era o terceiro título seguido da escola, fundada em 1982, o terceiro capítulo de uma ascensão meteórica que culminaria com grandes resultados entre o fim dos anos 80 e a primeira metade dos anos 90. Ao contrário da coirmã da Serra da Cantareira, o Leão da Zona Leste agoniza há muitos anos no segundo grupo, flertando com o terceiro, que desde aquele 1985 não frequenta. 

Nem só alegrias marcam nossas memórias de carnaval. O 16 de fevereiro caiu em uma sexta-feira em 1996 e a Marquês de Sapucaí foi palco para a apresentação das escolas do grupo B, o terceiro grupo. A Mocidade Unida de Jacarepaguá (hoje, da Cidade de Deus) desfilou incompleta, de luto, em virtude das enchentes que se abateram sobre a comunidade, matando mais de 36 pessoas, e que destruíram o carnaval da escola. Com um único surdo fazendo a marcação e refletindo a dor e o sofrimento de seus integrantes, a agremiação fez seu último desfile no Sambódromo carioca. A imagem das crianças chorando, de mãos dadas, é impressionante. À frente da escola, cujo enredo era “Quilombo dos Palmares, um Paraíso Negro”, de Oscar Alcântara, sobre 300 anos da morte de Zumbi dos Palmares, uma faixa dizia “Nosso Quilombo está de luto”. Logo atrás, outra dizia “Ainda estamos contando as vítimas do temporal”. Um dos momentos mais tristes da bela história da Marquês de Sapucaí. 

A Acadêmicos da Rocinha desfilou com “1999, fim de século. Recordar é viver”, na terça-feira de carnaval, 16 de fevereiro, para conquistar o título do grupo B, a terceira divisão do carnaval carioca, em 1999. Oriunda da maior comunidade do Brasil, a escola chegou por duas vezes ao grupo principal, mas jamais confirmou a expectativa gerada com o sucesso de seus primeiros anos, quando conquistou três títulos seguidos nos grupos de acesso, chegando ao grupo principal com menos de 10 anos de fundação. 

A sexta-feira de carnaval de 2007 caiu em um 16 de fevereiro. Em São Paulo, a Unidos de Vila Maria desfilou com “Vila Maria: Canta, Encanta com minha história… Cubatão Rainha das Serras”, de Wagner Santos, que lhe daria o vice-campeonato, o melhor resultado da história da tradicional agremiação paulistana. 

Caindo novamente numa terça-feira, o 16 de fevereiro de 2010 testemunhou o último título da Alegria da Zona Sul, uma das maiores escolas da zona sul carioca, com o enredo “No mundo da fantasia… Vejo as cores da Alegria”, de Lane Santana. 

A última vez que o 16 de fevereiro foi carnavalesco foi em 2015. Com o enredo “Karabá, e a lenda do menino do coração de ouro”, de Murilo Lobo, a Unidos do Peruche fez o melhor desfile no segundo grupo paulistano, e conquistaria o título e o acesso, junto com a Pérola Negra. No Rio de Janeiro, o destaque da primeira noite de desfiles foi o Salgueiro, com “Do fundo do quintal, saberes e sabores na Sapucaí”, de Renato e Márcia Lage. 

Este ano, o 16 de fevereiro seria, novamente, a terça-feira gorda de carnaval. Contudo, em virtude da pandemia causada pelo novo coronavírus, a festa mais popular do Brasil, responsável pela geração de milhares de empregos, direta e indiretamente, foi cancelada por precaução. Não ouviremos os gritos de guerra, a batida dos surdos, os repiques dos tamborins.

A única fantasia que vestiremos é a da esperança num Brasil que deixe para trás, o mais brevemente, a alegoria do obscurantismo sobre a qual tantos brasileiros resolveram desfilar seu ódio. Obscurantismo que fez com que um presidente da República irresponsável desprezasse todas as recomendações científicas para que pudéssemos evitar a disseminação de um vírus que já levou a vida de mais de 240 mil brasileiros. Sim, a doença era inevitável. Mas a prevenção e um trabalho sério do Ministério da Saúde, em conjunto com as secretarias estaduais e municipais de Saúde poderia ter poupado mais de seis milhões de casos e 170 mil vidas: se os números brasileiros seguissem a média mundial, teríamos tido cerca de 3 milhões de casos confirmados e cerca de 65 mil mortos. 

Ou seja, a equação do descaso coloca quase sete milhões de casos e mais de 170 mil cadáveres na conta da irresponsabilidade. 

Como dizia o samba da Unidos de Viradouro cantado em 16 de fevereiro de 2015, “É preciso atitude (…) pra ser muito mais Brasil”. 

Que assim seja. 

*Estevan Mazzuia, o Tuta do Uirapuru, é biólogo formado pela USP, bacharel em Direito, servidor público e compositor de sambas-enredo, um apaixonado pelo carnaval.

**Este artigo não reflete, necessariamente, opinião da Revista Fórum.

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