Censura: A arte limitada e imposta pela moral e os bons costumes – Por Danilo Nunes

A arte, expressão simbólica da cultura dos povos e da existência e experiência humanas, sempre foi alvo principal dos moralistas e censores de plantão, mesmo nos momentos em que não detêm poderes estatais.

Por Danilo Nunes *

Não é de hoje que artistas dos mais diversos segmentos da arte enfrentam censuras que limitam o processo de criação, decorrentes de repressões, opressões e atentados contra suas próprias vidas. Podemos observar no decorrer da História diversos momentos em que isso aconteceu, seja de forma aberta e descarada, aplicando a repressão em massa, ou nas formas mais brandas e individuais camufladas pela tal “democracia” que nos permite uma falsa liberdade de expressão.

A história da formação do mundo ocidental, que é marcada por conquistas, colonizações, escravidão, massacre, guerras pelo poder e instituições religiosas pregando e impondo suas verdades nos deixou cicatrizes profundas e inesquecíveis para cada ação de injustiça social e opressão aos povos.

O curioso é que nos diversos períodos a instituição religiosa se colocou dentro do Estado para ser detentora de poder sobre a humanidade. Digo instituição religiosa e não religiosidade e fé, pois quando temos instituição, temos regras impostas por seres humanos que se colocam acima dos fiéis para determinar e influenciar suas vidas e ações. Acontece que a ambição monoteísta, que ignora toda a pluralidade cultural e religiosa presente no mundo, não se contentou em reinar em suas próprias instituições, gerando conflitos e guerras por colocarem-se dentro do próprio Estado, governando não para todos, mas para poucos doutrinados por práticas impostas por seus respectivos templos.

O poder torna-se nessa história cada vez mais o objeto de desejo desenfreado dos bajuladores de um único Deus e através Dele justificam suas atrocidades e crimes contra a humanidade. Assim foi com Jesus, ou não?

Decorrente dessas ações, destacamos a censura que vem a cada instante se ressignificando e se justificando nos bons costumes determinados por uma minoria detentora do poder do Estado. A moralidade e ética se separam de todos os pensamentos filosóficos e históricos em que foram desenvolvidas para tornarem-se ferramentas de limitações e censuras de uma classe pensante, que por meio da arte e intelecto, criticam e desconstroem a ideia do sistema imposto.

Na Idade Média, por exemplo, aquelas ou aqueles que se opunham ao cristianismo, e consequentemente à condução política da coroa, eram tratados como seres pagãos, levando-os (as) a queimarem brutalmente em fogueiras, conduzidos(as) à forca e/ou a serem decapitados(as) em guilhotinas.

A instituição religiosa cristã teve papel fundamental nos processos de colonização. E aqui peço que nos atentemos à colonização da América Latina, onde se faziam presentes povos nativos com hábitos, costumes e crenças muito mais antigas do que os europeus cristãos que desembarcaram em terras americanas e dizimaram de forma brutal e impiedosa, em nome de um Deus, os povos e culturas que aqui já se encontravam.

Bem, não é novidade que o Brasil também foi alvo. Principalmente da coroa portuguesa, que carrega em sua história as memórias das imposições e censuras aqui cometidas, além dos crimes que marcaram nosso solo com sangue de inocentes.

A censura é uma ação decorrente da busca pelo poder e soberania de um grupo sobre outro.

A arte, expressão simbólica da cultura dos povos e da existência e experiência humana com seus conflitos e anseios, sempre foi alvo principal dos moralistas e censores de plantão, que mesmo nos momentos em que não detêm poderes estatais, descarregam em seus discursos “pseudomoralistas” todo o ódio e preconceito pré-estabelecidos do sistema patriarcal e das desigualdades sociais. Hoje no Brasil, são representados pela bancada evangélica no Congresso, que foi base eleitoral para o presidente genocida, além de seus personagens midiáticos denominados pastores e bispos modernos, que vendem para a população um lugar no paraíso. Através dos recursos financeiros que são constantemente doados por gente crente nos discursos infalíveis dos vendedores das moradas, constroem-se templos gigantescos e um império religioso que serve como atrativo aos fiéis que se tornaram frutos das desigualdades sociais, da falta de políticas públicas, da falta de emprego, falta de educação, ausência da capacidade de pensamentos crítico, formando os reinos sagrados de hoje que buscam censurar toda e qualquer ação que estimule e desperte a consciência de classe, política e/ou social, como por exemplo a arte.

Estando no mês de abril, marcado por um dos piores golpes que o Brasil já sofreu, é que nos lembraremos de um segmento artístico que possui uma das maiores capacidades de diálogo com o povo e que foi duramente censurado a partir do Golpe de 64, que nos colocou num regime militar ditatorial: A música.

Não esquecendo que uma das grandes ações que colocou o poder na mão daqueles repressores foi a marcha da Família com Deus pela Liberdade.

O Golpe de 64, que levou ao tão conhecido 13 de dezembro de 1968 e o ato institucional de número 5 (AI-5), intensificou o processo de censura com artistas, obras e canções. Nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Taiguara, Zé Ketti, Geraldo Vandré, Geraldo Azevedo, entre tantos(as) outros(as), eram frequentemente alvos do Regime Militar e da censura. No morro e nas áreas periféricas, os artistas já sofriam censuras e todo o tipo de crueldade, portanto a ditadura apenas intensificou a repressão.

Escolhi quatro canções que foram compostas e gravadas entre os anos de 1972 e 1973 e foram vítimas da censura nacional.

Comecemos por falar de uma música que nos empolga até hoje quando escutamos: Eu Quero Botar meu Bloco na Rua, do capixaba Sérgio Moraes Sampaio, que nos deixou em 1994 e que no mês de abril completaria seus 74 anos. A canção foi apresentada no VII Festival Internacional da Canção, palco de muitas letras de protesto da época.

Após o álbum da Sociedade da Ordem Grã-Kavernista, apresenta Sessão das Dez, junto com os artistas Raul Seixas, Edy Star e Miriam Batucada, o anti-herói Sérgio Sampaio, crítico do Regime Militar, protagonizou um dos grandes momentos da música brasileira, compondo e lançando, de forma performática em pleno Festival, a canção Eu Quero Botar meu Bloco na Rua. Na música, como que convocando o povo para botar o bloco na rua e derrubar um regime autoritário, Sérgio canta por meio de simbologias as críticas destinadas ao regime e ao sistema, citando o personagem Durango Kid, um tipo de Robin Hood. A marcha Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua sofreu forte censura na época, mas tornou-se hino em passeatas e manifestações até os dias atuais e foi gravada por diversos(as) artistas, tornando-se inclusive trilha sonora para novelas e filmes que retratam o período, como em Cabra Cega, dirigido por Toni Venturi.

Hoje é Dia de El-Rey, canção que Milton Nascimento e Dorival Caymmi gravariam juntos, como uma conversa entre pai e filho, foi composta para o disco Milagres dos Peixes, o primeiro de Milton depois do sucesso de Clube da Esquina. A canção, mesmo cheia de simbologia para driblar a censura, mas com forte conteúdo político, foi censurada por Marina de Almeida Brum Duarte, impedindo o maravilhoso dueto entre Milton e Caymmi.

O cantor e compositor Taiguara, o artista mais censurado do Brasil, constantemente perseguido pela Ditadura Militar, nos brindou com Que as Crianças Cantem Livres, canção censurada com forte crítica ao regime, trazendo a esperança por liberdade para as gerações que viriam. “E que as crianças cantem livres sobre os muros e ensinem sonho ao que não pode amar sem dor e que o passado abra os presentes pro futuro que não dormiu e preparou o amanhecer”, disse o poeta em sua obra.

O nosso Chico Buarque, após lançamento da canção Apesar de Você, passou a ser um dos principais alvos da censura dos militares. Chico começou então a utilizar-se do pseudônimo Julinho da Adelaide e lançou, sob ele, Jorge Maravilha. No começo a canção foi aprovada. O artista então foi denunciado pelo Jornal do Brasil e a música foi censurada. Muitos viram como provocação ao então presidente Ernesto Geisel, pois sua filha Amália Lucy havia declarado publicamente gostar muito do artista. Chico conta uma história da vez que foi preso e levado ao DOPS e um policial pediu um autógrafo para a filha. O que seria a verdade?

Pois bem… O que sabemos é que a censura do Regime Militar era rígida, embora despreparada para interpretação das simbologias a ponto de deixar passar diversas obras que faziam a críticas à própria ditadura. Censura a partir da moral e dos bons costumes como temos hoje. Quantas cantoras trans, quantos rappers, quantas performances teatrais, enfim, quantas obras ainda são vítimas de censura na atualidade? Essa é a tal forma de repressão fantasiada de democracia e que, a todo instante, nos enxerga como ameaça a moral e ao bem estar, deixando-nos sempre com uma pulga atrás da orelha: Vai ter golpe?

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*Danilo Nunes é músico, ator, historiador e pesquisador de Cultura Popular Brasileira e Latino-americana.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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