O que o brasileiro pensa?
16 de julho de 2020, 12h46

Credo, foi horrível! O dia em que fui obrigado a defender Gilmar Mendes

A atmosfera insalubre e o ar irrespirável da insanidade bolsonarista têm parido uma solidariedade insólita. Ver Gilmar Mendes atochar nesses gorilas o carimbo de genocidas trouxe satisfação. Vê-lo ser ameaçado pela sinistra máquina autoritária de ares pinochetista nos fez solidários

Foto: Portal STF e Presidência da República (Divulgação)

Por Henrique Rodrigues*

Nunca vou perdoar Jair Bolsonaro por ter colocado Gilmar Mendes do lado de cá da fronteira. Embrulha o estômago só de lembrar o caso do banqueiro Daniel Dantas, na Operação Satiagraha, que teve seu auge em 2008.

Todos os absurdos cometidos pelo então presidente do STF, que moveu o mundo para aliviar a situação de Dantas, fazendo malabarismos chocantes, ao arrepio da Constituição, resultaram numa infinidade de injustiças e arbitrariedades, como a proibição dos delegados e procuradores de investigarem o caso, o impedimento de juízes para julgá-lo, um habeas corpus coringa que permitiu a liberdade irrevogável do banqueiro chefe do esquema e até o surgimento de uma bizarra jurisprudência apelidada de “Lei da Algema”, que criou um impedimento legal para as polícias utilizarem o temido acessório na hora de deter criminosos do colarinho branco.

Numa entrevista à ‘Carta Capital’ publicada em janeiro de 2014, o jornalista Rubens Valente, autor do livro ‘Operação Banqueiro’, disse o seguinte sobre a participação de Gilmar Mendes nas manobras que livraram a cara de Daniel Dantas:

“No livro procurei descrever as relações de amizade e acadêmicas de advogados de Dantas e do Banco Opportunity com o ministro do Supremo Gilmar Mendes.”

O premiado repórter ainda completou, explicando o protagonismo assumido pelo magistrado da Suprema Corte na tarefa de enterrar definitivamente o caso:

“Sem Mendes na presidência do Supremo, nem todo o prestígio de Dantas teria sido capaz de reverter o jogo de forma tão espetacular. A alteração de regramentos se deveu ao empenho pessoal de Mendes, que chegou a convocar um ‘pacto social’ (…)”

Pois é… Não vou me estender por outros casos e celeumas em que esteve metido o mais caricato ministro do STF na atualidade, nem me ater à verborragia e à prepotência usadas quando fala com os pobres mortais que não usam uma toga do Supremo.

A situação aqui é outra.

Ao lado de Alexandre de Moraes, o poderoso Gilmar Mendes é a face do STF que passou a enfrentar a camarilha psiquiátrica que tomou o poder no Brasil e que se esconde, como criança medrosa, atrás das baionetas das Forças Armadas, que por sua vez parecem ter aceitado o papel de leão de chácara do governo que não governa.

Por esses dias, Mendes disse durante uma entrevista que “é preciso dizer isso de maneira muito clara: o Exército está se associando a esse genocídio, não é razoável. É preciso pôr fim a isso”, referindo-se à estratégia criminosa de Bolsonaro de manter o Ministério da Saúde inerte, sem mover um dedo, sem ter sequer um ministro da área científica, já que o atual chefe da pasta é um general da ativa do Exército, para assim jogar a culpa do morticínio da pandemia no colo de governadores e prefeitos adversários.

E foi bem assim que Mendes disparou, na lata! Colou o rótulo de colaboradores do genocídio numa instituição que já carrega um passado funesto por conta de sua participação em eventos com muitas mortes, como a Guerra de Canudos e a Ditadura Militar pós-Golpe de 64.

A reação foi imediata e, de certa forma, até ridícula. O Ministério da Defesa correu para rebater a declaração e o vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, também colocou a cabeça para fora da toca. Ambos queriam refutar as palavras de Gilmar Mendes e zelar pela ilibada imagem do Exército Brasileiro.

O vice até recomendou que Mendes “retirasse o que disse se tiver grandeza moral”.

É curioso como ninguém na babel bolsonarista mostra qualquer preocupação com os brasileiros lançados para a morte na peste, tampouco toma alguma medida para conter a tragédia. No entanto, ofender as Forças Armadas é uma heresia inaceitável, pois desde 1° de janeiro de 2019 vivemos num sistema militar onde os cidadãos civis são tratados como gente de segunda classe.

Somos pobres coitados que não usam fardas e medalhinhas. Pode ser cientista com experiência em vários países, escritor laureado com o Prêmio Camões, artista reverenciado no mundo inteiro. É militar? Se não é, só fala bobagem, é irrelevante, comunista e deve ficar quietinho.

Dias depois de acionar sua metralhadora sem rodeios, o chefe da Defesa instou a Procuradoria-Geral da República a enquadrar Gilmar Mendes na mofada e autoritária Lei de Segurança Nacional e, pasmem, no Código Penal Militar.

Daria para rir, se não fosse o caso de estarmos todos chorando.

A atmosfera insalubre e o ar irrespirável da insanidade bolsonarista têm parido uma solidariedade insólita. Ver Gilmar Mendes atochar nesses gorilas o carimbo de genocidas trouxe satisfação. Vê-lo ser ameaçado pela sinistra máquina autoritária de ares pinochetista nos fez solidários.

Os esforços palacianos e da cúria militar que cerca Bolsonaro para atacar Mendes e as tentativas de intimidá-lo, com recursos jurídicos que são resquícios de nosso antigo regime de exceção, parecem ter se tornado um novo ponto de atrito entre o pesadelo político em que vivemos e os pêndulos do Judiciário que, por interesses próprios, esforça-se para garantir algum grau de democracia no país.

No meio dessa confusão, o que mais temos ouvido em todos os cantos é sobre a dolorosa tarefa de permanecer solidário e ao lado de Gilmar Mendes, o que durante muito tempo era impensável.

Nesse caso, aconselho a fazer o mesmo que na hora de tomar uma colherada de óleo de rícino.

Tape o nariz e engula de uma vez. É melhor fazer isso com nojo de Mendes do que aturar uma prisão de ventre prolongada com Bolsonaro.

*Henrique Rodrigues é jornalista e professor de Literatura Brasileira


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