O que o brasileiro pensa?
25 de junho de 2020, 12h32

É o Cabaré Brasil! Tá pensando o quê? Mais respeito nessa zona…

Ai que delícia! O show não pode parar. E no Cabaré Brasil não para. Sob a névoa fumacenta dos cigarros, quepes e reluzentes medalhas assistem ao erótico número 'Rachadinha 01', com muito chocolate, laranja e gritaria. No caixa, é só deixar uns caraminguás em 48 pacotinhos de 2 mil

(Foto: Edição de Imagem)

Por Henrique Rodrigues*

Segue firme a epopeia da reconstrução do Brasil. Tarefa laboriosa é esta de colocar o gigante que acordou nos trilhos da moralidade. Após um dia cheio e cansativo, o cidadão de bem, espécie endêmica das altas castas da República, vai à forra nas discretas e labirínticas ruas da Luz Vermelha.

Há um lugar onde todos esses patriotas pudicos e tementes a Deus encontram-se para brindar as conquistas alcançadas em nome do povo brasileiro.

Engana-se quem imagina que o Cabaré Brasil é a imagem e semelhança de alguma maison close no sopé do Montmartre parisiense, digna de ser retratada por Balzac, com o refinamento sensual que fez Mário de Sá-Carneiro largar a vida para mergulhar na esbórnia desmedida da Cidade Luz. A boate verde-amarela é um genuíno exemplar da fuleragem autóctone do Brasil.

Logo na porta, o cartaz descascado avisa os frequentadores: negro e índio não entram. O público fiel sabe que o mimimi é inaceitável no recinto. Cada saliência e encoxada são frutos da meritocracia. “Só o trabalho liberta”, (“Arbeit macht frei”), grita um assíduo frequentador, e quem quiser os prazeres da carne há de lutar por eles.

Saracoteando, de mesa em mesa, as vedetes instigam a turma do centrão. Sussurros picantes atiçam a caterva engravatada. As propostas indecentes vêm até na língua de Flaubert. O clima Moulin Rouge toma conta do salão.

“Voulez-vous coucher avec moi, ce soir?”, canta gemendo o sequioso parlamentar, num cochicho pornográfico energizante, que se ocorresse noutro lugar diriam tratar-se de um vagido de maternidade.

Um general levanta a mão e acena para uma garçonete de coxas úmidas e roliças. “Mais uma cloroquina!”. O colega fardado, ao lado, adverte o agitado beberrão: “Vai com calma… Se esticar a corda, você já sabe, né?”.

Enfim. É um vale-tudo, um totem hedonista. Um gozo sem fim. O Brasil é uma mãe para essa gente. E um carrasco impiedoso para os que ousam divergir do bacanal.

Cobertos e assistidos pelo manto da justiça, divertem-se despreocupados para depois dormir o sono dos justos. Há até casos de senhores mais precavidos que optam pela comodidade de estabelecer residência na casa de seus advogados. É, minha gente… Casa, comida e grana lavada!

O seguro morreu de velho.

Seja como for, o fato é que nunca deixam de combater os comunistas, destruidores da santidade cristã e da caridade, que ameaçam nosso bem-sucedido estilo de viva. Somos uma democracia moral. Há moral para todos os gostos e paladares na Ilha de Vera Cruz.

Nada como o deleite da impunidade e o sossego de quem não é perturbado, porque a polícia não bate. Quer dizer, a polícia bate, e muito, mas não no Cabaré Brasil.

Na chapelaria, um distinto homem das armas pendura seu pesado casaco de pelos. É um marechal da distante e polar Catolé do Rocha, no sertão paraibano, a Lapônia da caatinga.

A noite ferve e a lascívia transborda pelos colarinhos (brancos). O transe é tão gostoso que ninguém sabe se já chegou o ponto alto da farra.

Ai que delícia! O show não pode parar. E no Cabaré Brasil não para. Sob a névoa fumacenta dos cigarros, quepes e reluzentes medalhas assistem ao erótico número ‘Rachadinha 01’, com muito chocolate, laranja e gritaria. No caixa, é só deixar uns caraminguás em 48 pacotinhos de 2 mil.

Do lado de fora, nos cavaletes que formam a fila dos clientes, os admiradores aglomeram-se. É um berreiro danado. Ali, ninguém quer perder a chegada de um só ídolo. Como um rebanho, aprochegam-se e num grito uníssono saúdam seus heróis. Um clímax histérico.

Só que o entusiasmo termina por aí. As regras e dogmas do altíssimo meretrício institucional jamais contemplariam o ingresso de uma pobre rês. Como a própria etimologia da palavra proclama, a rês alimenta o homem, não o contrário.

Enquanto isso, lá dentro o vuco-vuco corre solto, sem hora para acabar. Só gente de moral castiça, tão heterogêneos que vão dos apóstolos milagreiros aos combatentes de Forte Apache, num vaivém frenético.

Esfarrapados ao final da noite, tomam suas cartolas felpudas e saem à rua, sob aplausos do público. O Cabaré Brasil rendeu, mais uma vez, muito prazer.

Sob nova direção, as únicas coisas diferentes na casa são o descaramento dos sócios e a falta de rédeas do gerente. Sujeito de passado obscuro, parece ter um parafuso a menos e está sempre em apuros com as molecagens tardias dos filhos, uns barbados deslumbrados.

Seja como for, a patifaria ainda está acima de tudo e a safadeza acima de todos.

Vida longa ao Cabaré Brasil!

*Henrique Rodrigues é jornalista e professor de Literatura Brasileira

Este artigo não reflete necessariamente a opinião da Fórum

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