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06 de abril de 2020, 22h19

Educação a distância e pandemia: Oportunidade dos governos neoliberais, por Luciana de Matos Rudi

Há quem aposte que sairemos dessa pandemia com a obrigação de pensar outro modo de vida, ou outra humanidade

Foto: Divulgação/MCTIC

Por Luciana de Matos Rudi*

Estamos com as aulas suspensas nas redes estadual e municipal de São Paulo desde o dia 16 de março. Ainda que de forma gradativa na primeira semana, a maioria dos alunos não compareceu mais desde o anúncio do governador João Dória Jr. na sexta-feira, 13 de março. Desde então, a discussão de professores, diretores, coordenadores pedagógicos e muitos pais e mães, é sobre o que fazer com esses dias em que as crianças e adolescentes estão perdendo os conteúdos escolares.

A princípio, na primeira semana, havia uma orientação aos professores que fizessem roteiros de estudos. No site da Secretaria de Educação do estado, teve live com informações e instruções diversas. Esses roteiros deveriam ser encaminhados aos alunos. E aí começa o imbróglio: como esses roteiros chegariam aos alunos, se estavam dispensados das aulas? Roteiros de estudos para quantas semanas? Quem acompanharia o desenvolvimento desses roteiros? Os resultados desses roteiros de estudo seriam apresentados como e quando?

Nossa geração nunca viveu o que estamos vivendo. Nunca vivemos uma pandemia. A população que passou pela pandemia de Covid-19 antes de nós, ainda está passando, o que não nos dá nenhuma certeza quanto ao tempo que durará, aos efeitos que deixará e quem ficará para contar a história.

Nós que somos professores da rede pública de ensino, seja do município de São Paulo ou do estado, temos consciência de que a realidade das escolas, de docentes, de alunos e de pais e mães são muito diversas. Tem professor que “manja” tudo de tecnologia e tem outros que mal conseguem digitar/formatar um texto no word. Tem escolas com wi-fi e sala com computadores para os alunos, mas também tem outras que sequer fornecem papel higiênico nos banheiros para meninas e meninos.

Tem escola que tem lousa de vidro e projetor em cada sala de aula, mas tem escola que sequer possui vidros em suas janelas. Tem alun@ que dá conta de redigir ótimos textos dissertativos e resolver complicadas tarefas matemáticas, tem alun@ que não consegue interpretar um texto.

Tem crianças cuja única refeição do dia é feita na escola. Tem criança com computador e TV paga em casa. Tem pai e mãe capazes de orientar a lição de casa (que na rede municipal é uma obrigação, coisa pra lá de autoritária), tem casas que sequer tem mãe e pai… Tem criança em abrigos, tem crianças maltratadas, tem crianças doentes e com necessidades especiais, cujas famílias não tem condições de orientar sequer a lição de casa ou qualquer outra tarefa escolar. Estamos tratando de um universo de mais de 4 milhões de crianças e adolescentes com vida muito diferentes.

Mesmo com todas essas especificidades, com menos de um mês de suspensão de aulas, cogita-se ensino a distância para as crianças e adolescentes do estado todo: da educação infantil ao ensino médio; para alunos do estado, da prefeitura e das privadas.

Nas escolas privadas, os gestores têm pressionado os professores para produzirem conteúdos: videoaulas, conteúdos escritos, chats etc. Professores estes que nunca antes tiveram essa preocupação e que também têm dificuldades em operacionalizar tudo isso. Porém, nas escolas da classe média/média alta/alta, talvez o uso de tecnologia não seja nenhum problema, mas, nas de classe média baixa e nas escolas públicas, sem dúvida isso é um problema.

A Secretaria Municipal de Educação da cidade de São Paulo anunciou, em 3 de março, que está preparando material a ser entregue nas residências de cada um de seus 1 milhão de alunos e alunas nos próximos dias.

Cada ciclo receberá um material com conteúdo correspondente à sua série. Além disso, os pais e mães receberão uma carta explicando “como organizar uma rotina de estudos, que inclui as atividades, brincadeiras e jogos para que os estudantes se mantenham motivados a estudar e sigam aprendendo”. O material para o ensino fundamental, por exemplo, terá 120 páginas!!

A Secretaria Estadual também anunciou que as aulas serão transmitidas pela TV Cultura e Educação e a interação entre alunos e professores poderá ser realizada através de aplicativo a partir do dia 6 de abril, para quem acessa a internet, é claro. Vivemos um retorno ao telecurso, aquelas videoaulas que eram exibidas na TV aberta para adultos. A rede estadual atende cerca de 3,5 milhões de alunos.

E diante dessas informações, volto às perguntas colocadas no início deste texto: quanto tempo durará nosso distanciamento social? Quem acompanhará essas tarefas? E incluo outras: por que as crianças não podem, simplesmente, aprender com as tarefas diárias durante essa pandemia, brincando em casa, criando brincadeiras, lendo seus livros, assistindo seus programas favoritos ou, simplesmente, pensando a vida? Porque crianças fazem e têm o direito de fazer tudo, tudo isso! Do mesmo modo, sem uma rotina escolar, os adolescentes também podem aprender muito, também fazendo de sua rotina, um aprendizado.

Mas, por que a obrigatoriedade em fazer alguma coisa? Pois bem, no capitalismo ninguém pode não fazer alguma coisa. Temos de ser treinados em fazer algo e fazer-se obedecer, pois, nesse sistema, ninguém pode ter o direito à preguiça, ninguém pode não “fazer alguma coisa”. O corpo precisa ser disciplinado e estar em constante movimento para produzir, mesmo que no futuro.

Ou seja, ao iniciar esse processo de controlar e disciplinar desde cedo, treinamos as pessoas para o futuro, quando essa estiver em idade produtiva. E esse controle começa a partir de 4 anos – apenas 4 anos! –  com a obrigatoriedade da escola como instituição social de disciplinamento diário.

Por mais que para a educação infantil tenhamos um direcionamento que privilegia a brincadeira e o lúdico, como aqui na cidade de São Paulo, ainda assim, o que é oferecido para as crianças em termos de aprendizagem e ensino passa por um controle de corpos e mentes quando se ensina os comportamentos exigidos para sentar-se, comer e realizar as tarefas; incide sobre os pais e mães na exigência da participação escolar (desconsiderando o controle patronal e estatal sobre a vida dos trabalhadores, bem como a pauperização das condições e direitos dos trabalhadores e o aumento do índice de desemprego); na ausência de formação contínua aos professores e na reprodução de práticas autoritárias e punitivas, para ficar em alguns exemplos.

São muitas as questões sociológicas, antropológicas e filosóficas que se apresentam com a insistência de enfiar conteúdo às crianças e adolescentes, que também estão sendo privados do convívio com seus avós, amigos e colegas de escola e que, por outro lado, podem estar gostando muito desse tempo em casa com a família, ou sofrendo muito, justamente por isso.

No caso das crianças, especificamente, precisamos enxergá-las como sujeitos que são e compreender que a maioria delas também está vivendo esse momento como algo bastante diferente, de modo que, falar em manter rotina de aprendizagem ou estudo, soa como algo absolutamente descontextualizado da realidade. Mas, para além de todas essas importantes questões, temos uma outra aqui, uma questão de ordem econômica.

Desde os anos 90 do século XX que as políticas neoliberais se impõem na educação. Vivemos a proliferação das escolas privadas em todas as cidades e em todos os bairros, mesmo os periféricos. Junto a isso, um movimento de terceirização dos trabalhadores que desempenham as atividades-meio, como aqueles que trabalham nas cozinhas, refeitórios, limpeza e segurança, incluindo os agentes escolares.

E, além disso, as parcerias público-privadas alocando muitos recursos públicos para o pagamento de serviços e produtos às empresas privadas. Desde empresas de alimentação, os profissionais das atividades-meio como já citados, o material didático-pedagógico e os uniformes, tudo isso é pago a empresas, ao privado.

No que se refere às creches, são muitas as “conveniadas”: creches privadas que funcionam com recursos públicos cujos profissionais não contam com os mesmos direitos daqueles que atuam nas creches públicas. O Estado, nesse modelo neoliberal, vai se desobrigando burocraticamente de suas funções e se torna cliente do privado.

A pandemia parece que vai nos colocar no caminho do ensino a distância, que tão bem falam o ministro da Economia e o tal presidente da República, cujas ideias de um neoliberalismo radical compartilham o governador do estado de São Paulo e o prefeito da maior cidade brasileira.

A imposição de conteúdos a distância num momento de profundas incertezas pode levar muitos pais e mães, bem como docentes e gestores, à conclusão de que é importante, sim, que os alunos fiquem ocupados e continuem aprendendo os conteúdos escolares para não “perder o ano”, justamente pelas incertezas que o momento nos coloca, porque atitudes desse tipo tendem a sensibilizar as famílias.

Ao final disso tudo, não me admira se virmos gráficos demonstrando o “sucesso” do ensino a distância, escamoteado justamente pelos interesses econômicos e políticos do Estado, e como sua implantação seria vendida ao público como “positiva e necessária”. O argumento do Estado seria o de propiciar educação formal àqueles alunos que estão distantes fisicamente da escola, mas esse não é o interesse. Escolas do campo vem sendo fechadas periodicamente, escolas nas periferias, idem.

A questão é que esses grupos que hoje já estão distantes fisicamente das cidades e das escolas, também estão distantes socialmente, tais como os alunos que vivem no campo, nas comunidades quilombolas, nas periferias “mais violentas”, nas comunidades (e até mesmo, de alguns povos indígenas, dado que a questão é mais complexa), que ainda enxergam na educação formal uma possibilidade de transformação social.

O ensino a distância, mais conhecido como EaD, vai acentuar a desigualdade social e a educação dos mais pobres estará apenas nas estatísticas, como vem acontecendo desde os anos 90. O número de matriculados e de concluintes dos diversos ciclos funcionando como moeda de troca junto às organizações econômicas internacionais, que avalizam a destruição das políticas públicas.

Não à toa, o estado de São Paulo tem assistido ao fechamento de salas de aulas há algum tempo. Em 2015 o então governador Geraldo Alckmin iniciou uma “reorganização escolar” (os nomes são sempre aqueles que denotam capacidade técnica, embora as intenções sejam sempre políticas), que visava fechar muitas salas e escolas. Houve uma grande movimentação de alunos que ocuparam diversas escolas e essa reorganização foi suspensa.

No entanto, na prática, foram fechadas 2.158 salas de aulas somente naquele ano e o número não parou de subir. O atual governador de São Paulo, quando prefeito da cidade em 2017, fechou as brinquedotecas e bibliotecas em diversas creches e escolas afirmando que o “lazer” não era mais importante que “educar” e o fez em nome do aumento de vagas na rede pública.

O movimento tem sido o da destruição de pilares educacionais defendidos pelos teóricos da área e o fechamento de salas de aulas e de escolas. Se a educação a distância era um projeto futuro dos governos neoliberais, a pandemia se apresentou como a melhor oportunidade de implementação desse projeto. E ainda há a questão da empregrabilidade de professores, que pode ser discutido em outro momento.

Há quem aposte que sairemos dessa pandemia com a obrigação de pensar outro modo de vida, ou outra humanidade. Mesmo sendo essa uma outra questão, não há dúvida de que esse modelo econômico, imposto a todos nós, vem produzindo um modo de vida que desconsidera as especificidades de cada família.

*Luciana de Matos Rudi é cientista social e doutoranda em Antropologia Social pela UFSCar.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


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