Fernanda, assessora que estava no carro com Marielle no dia do seu assassinato, escreve uma carta pra ela

"Ontem, me perguntaram: 'Como seria uma carta sua neste momento para Marielle'? Pronto. Insônia. Eu teria o que escrever"

De Fernanda Chaves para Marielle Franco

Ah, Maricota… sempre achei meio doido essa coisa de escrever pra quem já se foi. Não é exatamente doido, super respeito quem o faz. Mas nunca me vi nessa ação. Não é pela questão de conexão, porque não deixo de ¨falar¨ com você mentalmente. Mas porque, justamente, diante dessas conversas mentais, escrever pra ti poderia soar cabotino, ou, simplesmente, algo que seria meio fora da minha praia.

Aí, ontem, me perguntaram: “Como seria uma carta sua neste momento para Marielle”? Pronto. Insônia. Eu teria o que escrever – posto que me entendo muitas vezes como sua interlocutora mental e que você sabe tudo o que eu penso e o que se passa por aqui nessa sansara-babilon?
Então, me lembrei das inúmeras vezes que você virava do nada, num contexto qualquer, em que precisasse formular uma opinião ou mesmo um pensamento sobre qualquer coisa, e me dava um bote com aquela voz alta: ¨Fala pra mim!¨. E o melhor era quando você chegava depois, como uma criança que implora pra repetir a sobremesa, e pedia com cara de anjo, rindo com as palavras saindo entre os dentes: ¨Me conta tudo de novo pra eu organizar meu pensamento?¨.

Não que eu fosse uma mentora, ou uma formuladora que influenciasse suas decisões. Longe, mas muito longe disso, “pelamordedeus”! Aliás, ninguém na vida ocupou esse lugar. A questão ali era o processo tão delicioso da escuta, da fala e de chegarmos ao final do papo respirando na mesma velocidade. Eu gostava de falar, você de ouvir. E vice e versa. Você gostava de dar broncas e eu de tomar. E vice e versa.

Lá vai.

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Mari, querida.

Não existe um dia sequer que eu não pense em você. Não estou falando da covardia que fizeram naquele 14 de março. Isso também. Sim, aquele momento de pânico naquele carro até hoje me atordoa. Faz exatamente 2 anos e 8 meses que arrancaram você de nós. A família ficou meio destroçada com tantas mudanças e limitações. Não existe normalidade depois do que fizeram com você. Existe vida, alegrias, projetos, sim – até porque você não aceitaria o contrário! Mas normalidade é impossível.

E nem é pra ter: te atingiram fatalmente em pleno Centro da Cidade, ao lado da prefeitura de uma das cidades mais conhecidas do mundo. Você, uma autoridade, saindo do trabalho, com uma atuação política impecável e uma trajetória incrível de vida.

Você certamente perguntaria pra eu dizer r-e-s-u-m-i-d-a-m-e-n-t-e, como gostava de quase soletrar quando tava com pressa, a minha opinião. Mari, isso aconteceu porque o Brasil não acertou as contas com seu passado, não completou a transição da ditadura para a democracia. É um país forjado na violência, fruto de 340 anos de escravidão, de uma “mestiçagem” muitas vezes oriunda da violência contra as mulheres negras, de duas ditaduras sangrentas, de instituições de força militar criadas para proteger os interesses de ricos e poderosos e que assim permanecem. E tanta coisa. Mas resumindo mesmo muito resumidamente, o resultado é que criminosos se sentem encorajados, e quem tenta fazer política para o bem comum é alvejado.

Ah, Mari, como seria bom se você ainda estivesse por aqui… Todo mundo fala da mulher furacão que era você. Mas eu guardei mesmo comigo a sua calma, sua sabedoria, sua generosidade, seu afeto, seu colo… Sua capacidade de mediar e acolher. Eu cheguei à conclusão de que os mais fortes, os verdadeiros líderes, eles têm a capacidade especial da escuta. Não há líderes sem essa característica, já percebeu?

Tem muita gente por aí falando muita besteira a seu respeito. Gente que nem te conheceu, que nunca esteve com você. Tem gente até que já tomou “umas cervejas”, sendo que você não bebia. Geralmente eu rio dessas, ou daquelas homenagens te reproduzindo em desenhos que, com todo respeito aos artistas, sei que você teria um treco ao ver.

Quando chega época de eleição, minha amiga, “o bagulho é insano”: sobram mentiras e falta caráter às pessoas. Aparentemente não há limites para quem não tem compromisso com sua história e seu legado, Mari.

[Nota mental, afinal eu sempre abria uns apostos enormes quando a gente conversava: Nesses rebosteios (você adorava quando eu falava essa palavra, lembra?) da vida, eu sigo, pelo menos tento a todo momento, pelo trilho da coerência. Aliás, coerência, pra mim, você sabe, é quase uma questão um TOC. Enfim, na hora em que a porca torce o rabo, eu paro (sempre, pro seu desespero), respiro, penso e concluo: estarei sempre do lado de quem Marielle escolheu andar. E ponto.]

Isso posto.

Então, tenho boas notícias, Maricota. A Monica, que num primeiro momento adoeceu, perdeu 14 quilos porque quase não comia de tanto que sentia sua falta, agora topou o duro desafio de disputar uma vaga na Câmara dos Vereadores. Ela é candidata! Candigata, como brincamos. Sua companheira, esposa, amiga, uma das pessoas que mais lutou pela sua memória, sobretudo pelo respeito à sua memória, pode ser eleita amanhã vereadora da cidade do Rio de Janeiro. Aquela figura apavorada de timidez, ela mesmo, correu o mundo em busca de justiça pra você e para o Anderson, e, dessa forma, pra mim também.

Ah, Mari, eu me lembro de quando trocávamos conselhos sobre o que fazer em nossos casamentos, no meio da feira da rua do valão, reclamávamos muito…hahaha, depois sentávamos prum café, o seu com leite e açúcar. E, com os corações adoçados, concluíamos que a vida era boa. Porque nossas relações eram fortaleza e companheirismo na saúde e na tristeza, nas coisas boas e difíceis. E ríamos do que minutos antes estávamos xingando. O número de candidata dela você ia achar engraçado: 50333, tipo um trava-língua daqueles bem cabeludos. Eu até imagino a sua gargalhada vendo isso.

Como você bem sabe, campanhas políticas são duras, difíceis, e para nós mulheres ainda mais complicadas, tendo em vista que vivemos num país machista, violento, racista e preconceituoso. Nossa sociedade nunca aceitou bem a sua relação com Monica. O século é o 21, mas a mentalidade é medieval. [Nota mental: na idade média pelo menos foram fundadas as primeiras universidades, agora tem Bolsonaro e terra plana]. Mas uma coisa interessante é que ela foi sim reconhecida como viúva, digo, chamada assim, pela grande mídia e pelas autoridades. Historicamente sempre ouve um apagamento desse lugar de viúva ou viúvo das relações homoafetivas das narrativas oficiais. E a história de vocês subverteu esse lógica.

Mas amor entre duas mulheres ainda é questão. O ano é 2020 e ainda tem macho que acredita que uma mulher só é lésbica porque foi mal-amada por um homem. Ou até mesmo mulheres que entendem isso como ¨safadeza¨ ou ¨desvio¨. Ah, você conhece bem essa história, nem preciso dizer.

Enfim, logicamente, Monica tem sofrido bastante preconceito. Mas com relação a isso talvez ela já esteja cascuda. O mais bizarro, Mari, é que há quem ainda tente, acredite você, apagar a história que vocês duas construíram. Sim, eu sei, muitos são pobres de espírito, oportunistas, que por diversas razões espalham mentiras e meias verdades por aí. Alguns estão só adoecidos emocionalmente mesmo. Com esses tento ter a mesma paciência e resiliência que você tinha. Mas é osso, viu?

Foi muito por isso que decidi lhe escrever essa carta aberta. Difícil suportar tanta sacanagem que estão fazendo com a Monica, depois de tudo o que aconteceu. E vou te dizer. Ela é tudo aquilo que você dizia: bela, forte, sensível e muito inteligente. Não é nem tanto o mestrado em urbanismo, de que você tanto se orgulhava, mas a paixão que ela tem pela justiça, pelo bem comum, pela política com P maiúsculo. Talvez por isso a ataquem tanto. Talvez por isso tentem apagar a história de vocês duas. Monica é simplesmente boa demais, tem brilho próprio, assim como você.

Eu digo o que sinto, sabe, minha amiga? E por isso eu digo a quem quiser ouvir: Monica Benicio, 50333, é minha candidata à vereadora na cidade do Rio de Janeiro porque ela é o ser humano neste mundo que mais lutou ao seu lado contra muito rolo compressor, e também a que mais se desnudou, em todos os sentidos difíceis que essa palavra pode ter, na busca por justiça por você, minha amiga. Mas ela também é minha candidata porque, dentro daquele espaço, será uma voz dissonante na defesa intransigente dos direitos humanos e de um Rio de Janeiro mais justo, trabalhando para transformar a nossa cidade em espaço de pertencimento pro povo que mais faz a cidade acontecer e no entanto é subjugado por seus gestores.

Sim, eu voto e, mais, eu construo a campanha da Monica, junto com tantas pessoas queridas que sempre estiveram ao seu lado, Mari. Nós estamos com ela!