Eduardo Leite é um governador gay e um gay governador, não dá pra separar – Por Gabriel Galli

Não é possível dissociar uma coisa da outra. Assim como a política que ele fez até agora, que o levou a apoiar um candidato abertamente LGBTIfóbico à Presidência

Por Gabriel Galli *

Os rumores invasivos e inadequados sobre a homossexualidade do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, já eram antigos. Parece que ele não fazia muita questão de esconder a orientação sexual, mas também não vinha a público assumir abertamente. Isso mudou na noite desta quinta-feira (1°), quando assumiu sua homossexualidade em rede nacional no programa de Pedro Bial. Bial que, aliás, não esqueçamos, ganhou atenção recentemente por abrir espaço para transfobia numa entrevista com o ex-jogador de futebol Ronaldo.

Em um trecho da entrevista divulgado nas redes sociais, Leite diz: “Eu sou gay. E sou um governador gay, não um gay governador”.

Sinceramente, fico feliz que tu tenhas assumido abertamente, Eduardo. Em um estado conservador como o nosso, a representatividade de pessoas LGBTI+ na política tem ainda mais importância. Ver que, para alguém como nós, é possível chegar lá, tem um potencial transformador principalmente para aqueles que estão se desenvolvendo e tentando entender seu lugar no mundo.

Mas tu és os dois, Eduardo. O governador gay e o gay governador. Não tem como separar. Nossa vivência interfere na política. E isso é algo bom. Não tem nada de errado. Tu sabes como é difícil ter que esconder uma parte tão importante da vida para ser aceito. Que tu uses isso como forma de combater a discriminação. Já passou o momento de se esquivar.

Continuo sendo contra o governo do Eduardo Leite pelas políticas que aplica. O fato de ser um homem gay por si só não o torna nosso aliado, muito menos alguém sensível aos direitos dos trabalhadores e dos mais oprimidos. Leite ainda é o governador que, por mais que não seja um completo reacionário e seja mais sensível que muitos de seu partido às questões envolvendo costumes, ainda continua tentando instalar uma política que ao fim e ao cabo amplifica a desigualdade e constrói miséria. Pergunto-me muito, inclusive, como deve ter sido para ele apoiar um candidato abertamente homofóbico à Presidência.

Agora, não reconhecer a importância de Leite sair do armário é esquecer da nossa história muito recente. Pra mim, seria um grande erro. Isso simplesmente não seria possível alguns anos atrás. Precisamos admitir também que o que estão fazendo com ele é atacá-lo sistematicamente pela orientação sexual, como se ser LGBTI+ tornasse alguém inapto para ser governante. Isso é inadmissível.

E lembremos que se Eduardo Leite pôde sair do armário hoje em dia é porque tivemos uma geração de LGBTI+ que deu a cara a tapa, foi humilhada e agredida, mas não desistiu de lutar. Devemos muito a elas e eles.

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*Gabriel Galli é jornalista, mestre em Comunicação e ativista pelos Direitos Humanos das pessoas LGBTI+ e vivendo com HIV/Aids. É diretor da ONG Somos – Comunicação, Saúde e Sexualidade – e assessor parlamentar.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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