Fórum Educação
08 de abril de 2020, 22h47

Inovação, criatividade e filantropia em tempos de pandemia, por Ana Beatriz Prudente

"O mundo como conhecíamos antes da pandemia não é mais o mesmo; perceberemos conscientemente quando tentarmos voltar para uma rotina anterior, que não mais existirá"

Foto: Projetemos/Divulgação

Por Ana Beatriz Prudente*

2020 chegou abalando a todos e nos fez enfrentar um vírus poderoso que nos levou a um isolamento social sem precedentes. Uma crise social e econômica se instalou e tem desestabilizado a todos. Não há mente genial que agora não esteja perplexa com o caos em que nos encontramos. No entanto, esse também é um momento de profunda criatividade, que exige ideias novas em todos os âmbitos: político, social e privado. Todos estamos sendo desafiados a resolver, de forma diferente, questões de nossa rotina, que antes eram automáticas ou passavam desapercebidas.  Desde ir ao supermercado até pedir comida e conviver com os filhos em casa, por exemplo.

Este momento também pede inovação no mundo corporativo, toda a indústria está pensando e colocando em prática novas soluções de logística para que produtos cheguem ao consumidor. Estão ainda articulando novas formas de relacionamento, revendo processos e muito mais. Portanto, as empresas colocam-se, de maneira ainda mais acentuada, diante de seu dever previsto na Constituição de 1988: o comprometimento permanente de adotar comportamentos éticos e contribuir para o desenvolvimento econômico sustentável. E este compromisso estende-se aos funcionários, à comunidade local e à sociedade em geral, promovendo a melhora da qualidade de vida de todos.

Para realizar ações que vão ao encontro dessa responsabilidade (de empresas de qualquer porte) é necessário, sobretudo, não esquecer de outro ponto fundamental garantido na Constituição: a defesa do meio ambiente. Entende-se meio ambiente como a casa onde todos moram e na qual seus bens devem estar disponíveis a todos e utilizados por todos com respeito e equilíbrio. Desde a produção de um bem ou serviço até o seu descarte, todo esse caminho deve ser pensado de maneira a contribuir socialmente para o bem-estar geral. A pandemia mundial chega para nos provocar, para nos fazer olhar, de verdade e profundamente, para esse aspecto social.

São obstáculos que nos trazem oportunidades, ao nos depararmos com uma grande transformação que atinge o nosso modo de viver. O mundo não será mais o mesmo daqui para a frente.  Todos, a começar pelos políticos, passando pelas comunidades acadêmicas, a área da saúde, o setor privado, estão em busca de novos caminhos que, certamente, não serão passageiros. Pela primeira vez, uma pandemia desestabilizou Ocidente, África (um Ocidente diferente) e Oriente; desafiou todas as etnias, religiões, crenças. Expôs ao mundo fragilidades de grandes potências mundiais, de grandes lideranças globais e dos seres humanos. Uma doença capaz de fazer saltar aos olhos, com mais clareza ainda, as desigualdades e que, mais que nunca, destaca a necessidade de um olhar carinhoso do Estado para os menos favorecidos. Quem sabe o estado de bem-estar social enfim se concretize?

Ao enfrentar o vírus, temos que enfrentar também omissões, reforçar compromissos e/ou colocá-los em prática de fato. E se desejamos um estado de bem-estar social, devemos nos dedicar a ele, a começar pela esfera pública. Este é o momento de fazer com que a responsabilidade de União, estados e municípios seja cobrada, conforme está gravada em nossa Constituição. O poder público deve responder pelos danos sociais e omissões causados por seus agentes. Políticos e partidos têm hoje a oportunidade de desenvolver, inspirar e promover ações e políticas que olhem para os menos favorecidos, que respeitem o meio ambiente, que permitam a ampliação da economia criativa em todos os âmbitos.

Há três peças fundamentais que a pandemia nos traz: 1 – Cultura de inovação para indústria e comércio; 2 – A criatividade para todos no âmbito privado; 3 – A filantropia. E o que liga esses três pilares na busca de soluções e de um mundo mais justo? A empatia. A empatia com os todos os públicos, consumidores, colaboradores, fornecedores, acionistas, prestadores de serviços, com todos que nos cercam. Esse sentimento, tão importante, nos traz a necessidade de entender o outro e de melhoramos nossa relação com ele.

Dentre esses três pontos, a filantropia se destaca porque cria uma conexão ainda maior com os novos tempos. Agora, mais ainda, as empresas têm essa oportunidade. Organizações de diversos segmentos têm se disponibilizado a fazer produtos, doações, além de repensar sua contribuição social. A indústria de bebidas, por exemplo, tem produzido álcool em gel, outros setores têm feito máscaras para profissionais da saúde etc. No campo doméstico, também vemos essa vontade de ajudar o próximo, seu parente, seu vizinho. Em qualquer cenário, todos têm a oportunidade fazer esse exercício e torná-lo perene.

Este momento pede que pensemos em diversos aspectos: como a indústria pode facilitar a chegada do produto ao cliente; como desenvolver uma logística que não exponha funcionários e colaboradores à contaminação; como interiorizar novos hábitos de higiene; como conviver com novos hábitos sociais; uma nova economia; novos questionamentos. É, sem dúvida, um marco histórico profundo para o mundo todo. E o elo que fará com que essa mudança seja positiva e menos sofrida é a empatia.

Estamos frágeis, mas essa fragilidade nos desafia. O pintor espanhol Francisco de Goya costumava dizer: “O sono da razão produz monstros”. O que quero dizer é que, ainda que desnorteados, precisamos revelar o que há de melhor em nós, nos conscientizar para não nos tornarmos monstros. Isso é o princípio da empatia, esse sentimento é o motor necessário para a criação da inovação e para a transformação mundial.

Esta pandemia já está gerando empatia, fez com que a humanidade saísse do patamar da arrogância e nos fez perceber que precisamos viver em equilíbrio com nosso entorno. Esse, sem dúvida, é um dos grandes recados que o vírus dá para indústria e para o setor privado.

O impacto na economia criativa

Para a economia criativa é uma grande oportunidade, seja para grandes ou pequenos empreendedores. Estamos diante de um desafio cultural. Chegou o momento no qual realmente temos que colocar em prática o propósito de cada um, de cada empresa, um propósito coerente e consistente. O propósito também gera empatia e, quando alinhada ao conhecimento, à busca pelo novo e ao aprofundamento das relações sociais, pode permitir a inovação de que tanto precisamos.

Nesse ponto, há um setor crucial –  um dos que mais sofre agora –  que precisa se reinventar e deve beber ainda mais na criatividade e inovação: o segmento cultural. Articuladores culturais estão pensando em uma nova forma de exercer esse papel e levar projetos e serviços culturais até as pessoas. É necessário desenvolver novas maneiras de se ver um show ao vivo ou um espetáculo teatral, talvez eles sejam virtuais, talvez com outros formatos, mas, certamente, não serão iguais ao que experimentamos até então.

Como será que todos os setores produtivos estão vivendo agora?  Coloque–se em seu lugar, a empatia pelo outro vai nos trazer novas respostas. O choque cultural que em estamos inseridos agora revela o que, por miopia, esquecemos no dia a dia:  na nova era, precisamos de propósito e narrativas, e não produtos. Precisamos aprender a fazer isso com empatia e parceria, olhando de fato para nossa responsabilidade social. Não há como retornar nesse caminho.

*Ana Beatriz Prudente é gestora de Economia Criativa, ativista pelo Empreendedorismo Social com Design Thinking e multiplicadora de Sustentabilidade Ambiental

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum


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