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13 de setembro de 2019, 22h55

Invisibilidade Social, até quando?, por Sol Massari

Quando há uma normalização e uma falta de indignação por uma parcela da sociedade, a desigualdade social se faz presente e a violência cresce

São Paulo - Pessoas em situação de rua na Praça da Sé, região central (Foto: Rsvena Rosa/Agência Brasil)

Por Sol Massari*

Falar de invisibilidade social é falar sobre a fixação de determinados setores da sociedade na busca de mecanismos para discriminar pessoas até que fiquem invisíveis. Tais mecanismos implicam na precarização da sobrevivência, o que envolve preconceitos estéticos, culturais, sociais e econômicos.

Quem nunca cruzou com pessoas simplesmente vagando pelas ruas sem rumo? Ou de manhã, indo para o trabalho, deparou-se com dezenas de pessoas num pequeno espaço, recolhendo cobertores e alguns pertences? Ou com homens puxando carroças com materiais recicláveis e seus cães ao lado? Esses são os invisíveis sociais, que por muitos não são vistos e para outros apenas atrapalham ou sujam a paisagem.

O sofrimento na invisibilidade social é cruel: o frio intenso das noites geladas nas calçadas, o calor sufocante nas praças, a fome que bate cedo todos os dias, o corpo que clama por um banho quente e o olhar que procura apenas um sorriso. Tudo tão simples e normal para uma grande parcela da sociedade e contraditoriamente sofrível para uma população de mais de 100 mil pessoas em todo o Brasil, segundo levantamento divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com base em dados de 2015.

O invisível social ocupa um lugar na sociedade que o priva de tudo porque o coloca em situação de vulnerabilidade, haja vista a fragilidade e a incapacidade de se defender das adversidades do cotidiano. Quando o faz, é rotulado de “marginal”, “bandido”, alcoólatra”, “vagabundo” ou “sujo e fedorento”. Portanto, ao se tornar visível, é transformado em pessoa selvagem e sem condições de conviver em sociedade, a mesma que o empurra para essa situação.

A vida de um ser social invisível vale quanto? Para muitos, não há valor algum, nem quando vive, nem quando morre. Matar uma pessoa nessa situação geralmente implica uma segunda morte, a morte física, visto que sua humanidade já havia sido morta para a sociedade.

Quem não se lembra do índio Galdino, que foi assassinado em 20 de abril de 1997 por cinco jovens de classe média. Eles atearam fogo no cacique do povo pataxó-hã-hã-hãe, que dormia no banco da parada de ônibus da 704 Sul, em Brasília, sob a justificativa da frase “pensávamos que era um mendigo”. Pergunto: se fosse um morador de rua não haveria problema?

Em maio de 2019, uma jovem é morta na região da Luz conhecida como Cracolândia, com um tiro na boca. Primeiro seu corpo pereceu – ela tombou às 14h30 do dia 9 de maio. Depois, sua reputação sofre ataque – ela foi morta moralmente dois dias depois, quando um jornal a acusou de ser chefe de uma facção criminosa. Que alívio, muitos pensam, uma a menos.

Na cidade de Santo André, no dia 11 de maio de 2019, também dois dias após o assassinato da jovem na Cracolândia, um homem é morto a tiros. Um carroceiro, assassinado por alguém que dirigia uma Mercedes.

Em Agosto de 2019, é a vez de acordamos com vídeo nas mídias, que traz um adolescente negro da periferia, amarrado, não antes tamparem sua boca, para receber chibatadas a partir de um chicote feito de fios de energia entrelaçados. Um adolescente de 17 anos, que não sabe ler e nem escrever, esquecido pelo Estado, ignorado pela sociedade e torturado por algoz que nutre o ódio pelo que representa: preto, pobre da periferia.

Quando há uma normalização e uma falta de indignação por uma parcela da sociedade, a desigualdade social se faz presente e a violência cresce. Se observarmos atentamente no nosso caminhar cotidiano, se nos despirmos por alguns minutos dos celulares, veremos um contingente enorme de pessoas perambulando pelas ruas, sem rumo, sem projetos de vida, sem perspectivas, apenas esperando uma mísera esmola de alguém que o faz de maneira muitas vezes automática, sem olhar nos olhos, sem desejar uma boa alimentação ou boa sorte. O estigma social é forte contra essa massa populacional, por isso mantê-la na invisibilidade é confortante para muitos.

No entanto, há uma parcela da sociedade que enxerga as pessoas em situação de rua para além dos corpos maltrapilhos e tem como proposta compreender a representação destes seres invisíveis na organização social capitalista, que busca a todo instante isentar a sociedade da produção e da reprodução da desigualdade social.

Essa parcela da sociedade, que faz essa leitura e compreende a complexidade social no seu âmago, é aquela que se coloca como defensora dos direitos humanos, buscando não fragmentar as estratégias de enfrentamento e tão pouco legitimar a repressão policial como mecanismo de combate aos pobres, mas possibilitar meios que os tornem visíveis, que suas vozes sejam audíveis e suas memórias preservadas de um segundo assassinato.

O direito de existir é um direito humano. Quando cresce num meio hostil, uma criança também se torna um adulto privado das condições básicas para o exercício da cidadania e a fruição de direitos como moradia, educação, saúde, lazer e cultura. Embora a omissão do Estado seja a principal causa dessa situação de vulnerabilidade, nós também precisamos assumir a nossa parcela de responsabilidade. Assim, mudanças estruturais precisam ser efetivadas, de modo que os invisíveis sociais saltem aos olhos de todos e a sociedade compreenda que direitos humanos são para todos os humanos.

*Sol Massari é assistente social, mestre em serviço social, especialista em psicopedagogia, integrante do Fórum Municipal de Educação de Santo André e da Frente Regional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres e ativista dos Direitos Humanos

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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