quarta-feira, 30 set 2020
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Já pensou a Justiça do Witzel atrás de Bolsonaro? Então, não vai rolar…

A pandemia ainda não completou seis meses no Brasil e isso foi tempo suficiente para o STJ afastar Wilson Witzel do governo do Rio, sob acusação de corrupção. Se a mesma rigidez valesse para Bolsonaro e sua prole ociosa, já estaríamos livres desse atoleiro há mais de um ano

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, é o que a gente pode chamar de homem azarado. No país que tem a Justiça mais teatral e lerda do ocidente, ele conseguiu ser afastado do poderoso cargo de chefe do Executivo fluminense por uma decisão relâmpago do STJ, dada primeiramente em caráter monocrático, para dois dias depois ser referendada pelo plenário da corte.

As acusações contra ele são de corrupção em fatos ligados à gestão da crise sanitária desencadeada pela pandemia do novo coronavírus, que começou há menos de seis meses no Brasil.

É, meus caros… Como vocês podem ver, Witzel é um caso único na História do Brasil de governador de Estado, com um ano e meio de mandato, removido judicialmente do cargo por alegações que teriam ocorrido no semestre corrente.

Logo ele, que governa o Estado onde está a base eleitoral do clã Bolsonaro, de quem foi aliado na última eleição para se projetar, mesmo que depois de eleito tenha se afastado da família presidencial e se tornado o desafeto número um da mítica dinastia dos desocupados.

Acho que não preciso explicar que Bolsonaro e seus filhos vêm aparelhando de forma descarada não só as instituições federais, mas também os órgãos de seu Estado-base. As tentativas claras e abertas de interferir na Polícia Civil, no Ministério Público e no Judiciário do Rio de Janeiro são escandalosas e estão nas páginas dos jornais diariamente, já que são esses organismos que investigam as maracutaias do passado tenebroso do presidente e de seus familiares.

Pelo amor do Cristo Redentor (de braços abertos sobre a Guanabara), longe de mim fazer defesa de Witzel aqui. Os fatos atribuídos a ele, com robustas provas, são gravíssimos e merecem todo o rigor da lei. Só que não é aí que mora o problema.

Se compararmos os recentes acontecimentos atribuídos a Witzel e pensarmos nas inúmeras e duradouras picaretagens do consórcio criminoso Bolsonaro & Filhos, não conseguimos entender como essa gente ainda se mantém no poder.

Jair Bolsonaro está enrolado com Fabrício Queiroz até o pescoço. O ex-assessor deposita dinheiro para a primeira-dama e para a gurizada do chefe há muitos anos. Só no último levantamento apareceram 27 cheques na conta de Michelle Bolsonaro, totalizando mais de 89 mil reais.

E tem mais. O irmão do presidente, Renato Antônio Bolsonaro, uns quatro anos atrás, foi desligado da Assembleia Legislativa de São Paulo por exercer cargo fantasma e receber um poupudo salário sem nunca ter pisado no local. Ele permanecia vendendo móveis em Miracatu, na região do Vale do Ribeira, enquanto mamava nas nutritivas tetas do Estado.

Todos devem lembrar também do episódio da Wal do Açaí, uma senhora que vendia a iguaria amazônica em Angra dos Reis e que era lotada no gabinete do então deputado federal Jair Bolsonaro, em Brasília. O marido dela era o caseiro do agora presidente. Enfim, um chafariz de dinheiro público jorrando sem parar.

Houve também o caso de Márcio Gerbatim, assessor de Carlos Bolsonaro na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Embora nunca tenha aparecido para trabalhar, levava mais de 93 mil reais por ano em salários e retirava tudo em espécie, na boca do caixa, no dia do pagamento. O Ministério Público do Rio de Janeiro inclusive identificou uma transação de 2010 em que Jair Bolsonaro, pai de Carlos, depositava 10 mil reais na conta de Gerbatim.

Por fim, as estrepolias de Flavinho, que dispensam comentários. Com uma penca de laranjas e fantasmas em seu gabinete na ALERJ, tinha sua vida financeira organizada por Queiroz, que recebia dinheiro de todo lado e depositava nas contas do então deputado estadual, que hoje é senador da República. O primogênito de Jair Bolsonaro tem até uma franquia de loja de chocolates que vende mais que água no deserto. Depósitos e mais depósitos, em valores redondos, entram nas contas da chocolateria que, segundo membros do MP, é uma lavanderia.

No entanto, nada acontece. Jair Bolsonaro colocou Augusto Aras como procurador-geral da República e este vem realizando um trabalho fantástico para o presidente. Como chefe do MPF, Aras é uma figura assumidamente submissa a Bolsonaro e age de forma vergonhosa, como se fosse seu advogado particular.

Na Justiça, Bolsonaro atua como os personagens de desenho animado que oferecem iscas apetitosas para suas vítimas, que, encantadas, flutuam atrás da comida cheirosa, hipnotizadas. A isca dele são as vagas que abrirão no STF em breve. Ninguém no mundo jurídico e nos tribunais superiores quer contrariar o presidente, porque se agirem direitinho, a cadeira no Supremo pode vir como prêmio.

Agora, voltemos ao azarado governador removido do Palácio Laranjeiras e pensemos no quão sortuda é a família Bolsonaro.

A pandemia ainda não completou seis meses no Brasil e isso foi tempo suficiente para o STJ afastar Wilson Witzel do governo do Rio, sob acusação de corrupção. Se a mesma rigidez valesse para Bolsonaro e sua prole ociosa, já estaríamos livres desse atoleiro há mais de um ano.

Imaginem se todo esse empenho de nosso Judiciário, veloz como um lince na neve, preciso como um relógio suíço, fosse estendido ao presidente Jair Bolsonaro e sua descendência. Hein? Seria muito lindo, né?

Mas por ora, o que devemos manter em mente é que tudo isso não é obra do acaso. Witzel está sob escrutínio de inúmeros órgãos e poderes da República justamente porque todo esse pessoal foi aparelhado até o último fio de cabelo por Bolsonaro.

Com o presidente é o inverso. O aparelhamento grotesco, que fez nossas instituições hoje serem tão sólidas quanto as da Líbia, protege e permite que ele e o bando operem impunemente, sem serem incomodados.

Witzel é usado como boi de piranha, para dar a sensação de Justiça eficiente e célere, enquanto Bolsonaro e seus Bolsonarinhos seguem com a fanfarra.

O que resta a dizer, diante da discrepância e dos dois pesos e duas medidas do MP e do Judiciário?

Perdeu, Witzel.

Henrique Rodrigues
Henrique Rodrigues
Jornalista e professor de Literatura Brasileira.