Jânio, a Lava Jato e a pergunta de Brizola: “Onde está a CIA?” – Por Fernando Brito

Logo depois da prisão de Lula, o obcecado Dallagnol viajou para os Estados Unidos. “Foi à Disney.” Logo naqueles dias tumultuosos

Por Fernando Brito *

A frase nunca me saiu da cabeça, por conta das muitas vezes que a ouvi no longo convívio com Leonel Brizola:

Onde está a CIA? Parece até que ela fechou. Se foi isso, eu não entendo por que ela tem aquele orçamento, enorme, de bilhões de dólares? Será que não sobram uns trocados para ela aplicar no Brasil?

Bem, como ela não fechou, continuou atuando, espionando e interferindo por longos anos na vida brasileira, e há provas – e não só convicções – de quanto isso ocorria nos papéis da Central Inteligence Agency. “Documentos da CIA revelam que Brizola e Erico Verissimo eram monitorados pelos Estados Unidos”, diz a reportagem que o Zero Hora publicou.

“Onde está a CIA?” é pergunta que, nos tempos de hoje, o veterano daquelas e de muitas situações, Janio de Freitas, ajuda a responder em seu artigo de hoje, na Folha de S. Paulo, a partir da fala – ou ato falho – de Deltan Dallagnol, revelada nas mensagens trocadas no grupo que mantinha com os colegas de Procuradoria e com Sergio Moro.

Ainda que provada repetidamente ao longo de décadas, há gente que ainda acha que isso é pura “teoria da conspiração”. Com tantas provas, acertarão se deixarem de lado o “teoria” para ver a real e concreta conspiração.

“Habituados às delações traidoras, integrantes da Lava Jato se delataram em gravações”

– Jânio de Freitas, na Folha

“Presente da CIA.”

A frase começa por suscitar curiosidade com seu sentido dúbio e logo ascende, vertiginosa, à mais elevada das questões nacionais — a soberania. As três palavras vêm, e passaram quase despercebidas, entre as novas revelações das tramas ilícitas de Sergio Moro e Deltan Dallagnol, envoltas em abusos de poder e de antiética no grupo de procuradores.

Seca, emitida como um repente fugidio de saberes velados, a frase de Dallagnol celebrava a informação mais desejada: Sergio Moro determinara, no começo da noite daquele 5 de abril de 2018, primórdio da campanha para a Presidência, a prisão do candidato favorito Lula da Silva. Na véspera, o Supremo Tribunal Federal acovardou-se ante a ameaça golpista do comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas. Por um voto de diferença, entregou a candidatura e, para não haver dúvida, o próprio Lula à milícia judicial de Curitiba.

A frase pode dizer presente “da CIA” porque foi destinado à agência do golpismo externo dos Estados Unidos. Ou “da CIA” porque vindo da articuladora do presente. Não importa o que agora Dallagnol diga. Não será crível. O mesmo sobre quem embalou e entregou o presente, Sergio Moro.

A dubiedade cede à certeza quando se trata do pré-requisito para que Dallagnol compusesse a frase. Em qualquer dos dois sentidos, a preliminar é a mesma: o coordenador da Lava Jato tinha conhecimento da relação entre pretensões da CIA na eleição brasileira e a exclusão da candidatura de Lula. Nem lhe ocorreu falar de candidatos favorecidos, nem sequer do êxito da ideia fixa que dividia com Moro e disseminara nos companheiros. Era a CIA na sua cabeça.

Não faz muito, foi noticiado o envolvimento de agentes do FBI com a Lava Jato de Curitiba. FBI como cobertura, mas, por certo, também outras agências (NSA, Tesouro, CIA, por exemplo). Um grupo de 17 desses agentes chegou à Lava Jato em outubro de 2015, acobertado por uma providência muito suspeita: Dallagnol escondeu sua presença, descumprindo a exigência legal de consultar a respeito, com antecedência, o Ministério da Justiça. Eram policiais e agentes estrangeiros agindo com a Lava Jato, não só sem autorização, mas sem conhecimento oficial. Violação da soberania, proporcionada por procuradores da República, servidores públicos. Caso de exoneração e processo criminal.

O sigilo é tão mais suspeito quanto era certo que o governo nada oporia, como não veio a opor. Há até uma delegação permanente do FBI no Brasil, trabalhando inclusive em assuntos internos como as investigações de rotas do tráfico. O motivo real do sigilo é desconhecido, e só pode ser comprometedor.

Também interessante é outra providência do coordenador. Logo depois da prisão de Lula, o obcecado Dallagnol viajou para os Estados Unidos. “Foi à Disney.” Logo naqueles dias tumultuosos, que lhe pareceram até exigir, como recomendou, medidas especiais de segurança dos integrantes da Lava Jato.

Leia o artigo publicado originalmente no Tijolaço.

* Fernando Brito é jornalista e editor do Tijolaço.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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