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02 de janeiro de 2020, 19h24

O Brasil de Bolsonaro: estupidez, truculência e retrocesso

"Olhar no olho da tragédia é o primeiro passo para superá-la: as esquerdas e as forças progressistas do Brasil sofreram uma derrota eleitoral histórica em 2018", diz Chico Alencar

Por Chico Alencar*

Conclui-se o primeiro ano do governo Bolsonaro. Ano sombrio, de inúmeros retrocessos, de estupidez oficial, da arrogância da ignorância. A invenção do calendário ajuda a fazer balanço do experimentado e a projetar perspectivas de superação: as vidas das sociedades e dos indivíduos são, de certa forma, pautadas por marcas cronológicas.

1. Olhar no olho da tragédia é o primeiro passo para superá-la: as esquerdas e as forças progressistas do Brasil sofreram uma derrota eleitoral histórica em 2018. O quadro político mais reacionário e tosco de todos quanto a institucionalidade produziu foi eleito presidente da República. A extrema-direita também foi vitoriosa em vários estados brasileiros, a começar pelos três maiores em população e peso político: SP, MG e RJ. A parcela da nossa sociedade que é racista e escravocrata, preconceituosa, violenta, que destila ódio, venceu. Sua expressão política mais grotesca avultou, como jamais acontecera em nossa história republicana. Podemos dizer, não sem horror, que os assassinos de Marielle e Anderson triunfaram.

2. Passado mais de um ano, a caracterização do governo Bolsonaro já está plenamente formada: trata-se de um arranjo autoritário de extrema-direita, de radicalização do sistema ultraliberal do privatismo máximo, com inserção subordinada na economia capitalista mundial, desmonte do Estado e de suas políticas públicas, sem mediações sequer parlamentares, pontuado por arreganhos protofascistas – tanto na retirada de direitos e ataques a trabalhador@s, quilombolas e povos nativos quanto na “guerra cultural” ultraconservadora.

3. Ainda que socialmente trágico, nada disso surpreende. Bolsonaro sempre foi expressão da extrema-direita saudosista do regime militar e defensora da tortura, da censura e da ditadura. O inédito foi o capitão-deputado, sempre considerado irrelevante e “folclórico” até pelo “baixo clero” parlamentar do qual fez parte durante quase três décadas, tornar-se estuário da indignação popular contra o sistema. Ele é expressão da desconstituição eleitoral do “centro político” no Brasil.

4. Originário de uma coalizão improvisada, no calor da disputa e em face do crescimento de seu nome na campanha eleitoral, no qual a condição de “vítima” teve enorme peso, Bolsonaro é uma espécie de ponto fora da curva da burguesia, em seus variados setores. Os nomes preferidos das classes dominantes foram ficando pelo caminho, e o “Pacto de Anormais” que se formou em torno dele derivou de uma espécie de “não tem tu, vai tu mesmo”. Até então, a única construção política efetiva de Bolsonaro, para além das invectivas discursivas do ódio reacionário e obscurantista, foi a “filhocracia” patrimonialista e a estreita relação com “capos” da máfia miliciana – que tem ficado mais evidente depois de sua chegada ao Planalto. Na disputa eleitoral, tornou-se escolha pragmática do “mercado”, vale dizer, da burguesia financeira (bancos), agrária (agronegócio), mercantil (grandes redes atacadistas e de varejo), industrial (federações de indústrias) e midiática (dos grandes grupos controladores das grandes redes de comunicação).

5. Oficiais das FFAA deixaram sua posição discreta desde o fim da ditadura civil-militar e passaram a operar politicamente e, no governo, a ocupar postos em praticamente todos os ministérios e estatais. Transitaram do alto comando militar para a alta cúpula da campanha de Bolsonaro. Defendem, “in pectore”, o modelo pinochetista: governo militarizado (na Educação, o projeto são as escolas cívico-militares), ultraliberal e entreguista. O Brasil periférico, primário exportador e mancha consumidora de média importância, é laboratório para a reorganização do capitalismo mundial.

6. O bolsonarismo tem base popular, composta em especial pelos setores conservadores do neopentecostalismo e dos segmentos capturados pela antipolítica, cujo medo e insegurança cotidianos os conduz à preferência por “soluções” autoritárias, verticais, “do homem que resolve”. A empatia de Bolsonaro, o “mito” neopopulista, é mais narcísica do que paternal (ao contrário de Vargas, “o pai dos pobres”, por exemplo): seus eleitor@s mais convictos o perceberam como um “igual”, aquele com quem me identifico (inclusive no anti-intelectualismo). Na disputa de ideias, venceram as palavras-baús da negativação, em que tudo cabe: “comunismo”, “petismo”, “baderna”, “destruição da família”. Nossa cultura democrática revelou-se extremamente débil.

7. Deve-se analisar com muita profundidade o fenômeno evangélico, em extraordinária ascensão, a ponto de se avaliar que no final da década de 20, que se inicia, já serem os neopentecostais mais numerosos que os católicos. Seu amálgama de crescimento é a presença efetiva e solidária nos ambientes mais pobres, a rede de amparo que criam entre os mais abandonados, a negação do “mundo” com suas “tentações” (a prosperidade material não é uma delas, muito ao contrário). A inserção política é estimulada e organizada, sempre no viés direitista e meritocrático. Uma das bases mais sólidas do governo são os “bolsocrentes”, em adesão quase que de fé. Não por acaso algumas igrejas fortes estão recolhendo assinaturas para o novo (e décimo!) partido de Bolsonaro. Ressalte-se, porém, que não há unanimidade nesse meio. Os “coronéis da fé” mais conhecidos, que agora oram com Bolsonaro, já abençoaram Lula – que alguns agora demonizam. O enorme fracionismo das igrejas, que não têm estrutura vertical da católica e de algumas protestantes mais tradicionais, permite que proliferem as denominações, com também muitas sensibilidades e posicionamentos.

8. A chamada classe média, multifacetada – classificada como “baixa”, “média média” (aí compreendida a “nova”) e “alta” – mas de peso crescente na configuração de classes – majoritariamente aderiu ao bolsonarismo, não apenas por seu viés conservador: a insegurança também a fez se aproximar de quem, na sua percepção, prometesse um estado policial-punitivista, “rigoroso”, repressor. Seus setores que deixaram o aparato estatal para ocupar postos de trabalho na empresa privada convivem com outra insegurança: o risco da demissão. A inflação, que reduz seu padrão de consumo, é outro fantasma. A sua opinião política é volátil e mutante. Muitos dos que votaram em Lula e no PT migraram para Bolsonaro.

9. A economia tem um dinamismo próprio, que não está inteiramente subordinado aos governos. A chamada “retomada” de agora, que considera sobretudo as “expectativas de investimento”, desconsiderando sempre a crescente desigualdade de riqueza e renda, se dá a despeito do governo Bolsonaro, como muitos economistas do establishment reconhecem. Poder-se-ia fazer o contraponto inverso da célebre frase de Médici, no apogeu do terrorismo de estado da ditadura: “a economia vai bem, mas o governo vai mal”. Apesar do esforço da mídia grande em propalar as “boas performances” da Bolsa e do “crescimento esperado” para 2020, persistem – e ao persistirem, se agravam – o desemprego, o subemprego, a precarização do trabalho. Políticas estruturais de combate à chaga da desigualdade social não são consideradas pelo governo. A elite brasileira continua com seus vícios escravocratas e de profunda insensibilidade social.

10. Mutante não é só a classe média. Há profundas transformações tecnológicas e produtivas no mundo, e elas chegam no Brasil. As novas tecnologias empregam menos gente, a ponto de inúmeras funções de trabalho se extinguirem. Os antigos “exércitos de reserva” deram lugar os “excedentes”, “sobrantes”, “dispensáveis”, “descartáveis”. O capital, hegemônico, transita do fordismo ao toyotismo e à revolução tecnocientífica da robótica e da inteligência artificial, além da financeirização total através dos grandes fluxos do capital volátil (só a Bolsa de NY pode movimentar, em um dia, o equivalente ao PIB anual do Brasil!).

Nosso ânimo vem da compreensão de que a roda da História gira. Nada é estático, nada é definitivo. Esperança se constrói. Ainda bem que as sociedades se transformam e, no planeta inteiro, há lutas crescentes por um novo mundo possível e necessário. O Brasil não é exceção.

*Chico Alencar é professor e escritor, foi deputado federal pelo PSOL por quatro mandatos (2003 a 2018)


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