O que o brasileiro pensa?
30 de abril de 2020, 22h21

O Brasil precisa fazer uma autocrítica, por Denis Carvalho

"A reflexão de olhar mais para si e qual seu papel no meio disso tudo pode ser muito mais positiva"

Foto: Agência Brasil

Por Denis Carvalho*

“O inferno são os outros”. A clássica citação de Jean-Paul Sartre exemplifica muito bem o movimento da busca de se culpabilizar sempre terceiros, isentando-se de qualquer responsabilidade. Raul Seixas também cantava que “é sempre mais fácil achar que a culpa é do outro, evita o aperto de mão de um possível aliado”, pois “nunca se vence uma guerra lutando sozinho”.

Isso não quer dizer que devemos nos responsabilizar mais do que é a real responsabilidade de cada um, mas virar o disco e, ao invés de gastar tanta energia comprando o discurso fácil e muitas vezes conveniente de apontar o dedo para uns e outros, a reflexão de olhar mais para si e qual seu papel no meio disso tudo pode ser muito mais positiva.

Se chegamos à atual conjuntura política, econômica e social no país, precisamos refletir onde falhamos como nação, saindo de uma potência emergente, o tal país do futuro, para um desastre completo, considerando as individualidades e exceções para um análise mais precisa.

É lógico que devemos dar muito crédito a mais de 500 anos de exploração capitalista e dívidas históricas a serem pagas, além da utilização do capital de forma criminosa para romper um processo democrático, que acabou colocando um fascista no mais alto cargo da nação. Porém, assim como aconteceu em outros países, como nos EUA, na eleição de Donald Trump, através da mesma equipe encabeçada por Steve Bannon e a Cambridge Analytica, a estratégia nazista de espalhar notícias falsas para manipular o processo quase não teve êxito. Isso significa que nem tudo está perdido.

Sim, esse período será de grandes perdas, como já está sendo. Mas, seria muito importante que, ao invés de gastarmos todo o tempo e energia sofrendo a cada notícia calamitosa que chega hoje, reservássemos um pouco também dessa energia para construir o amanhã, olhando para o horizonte sem deixar se perder as necessidades que estão logo a nossa frente.

O romancista Hermann Hesse diz que “alguns acham que persistir nos faz fortes, mas, às vezes, é deixar ir”. Desta forma, é praticamente inquestionável que a sensação de estar certo é muito mais prazerosa do que a de estar errado. Mas, e se essa sensação estiver massageando o nosso ego tão fortemente, que se torna quase como um vício para nos distanciarmos das dores que ainda existem e da contribuição que podemos realmente oferecer a quem mais necessita?

Num cenário como esse, é possível sentir facilmente uma sensação de dever cumprido, de “fiz a minha parte”, em não ter votado no Bolsonaro, de não ter ajudado em sua eleição, de ter sido resistência no processo eleitoral de 2018. Só que é preciso lembrar que aquela foi apenas uma batalha, não a guerra. A guerra continua. Manter-se no ritmo de “eu avisei” não é a melhor estratégia para a esquerda avançar no cenário político e social brasileiro.
Da mesma forma que Sergio Moro e Jair Bolsonaro travam um histórico embate público, resultando em um rompimento com consequências que deixarão cicatrizes nos dois lados, baseado na disputa pelo poder, dos interesses próprios, do ego; não podemos cometer o mesmo erro mais uma vez.

Sergio Moro e o Judiciário brasileiro fizeram e ainda fazem vistas grossas para o caixa 2 de Bolsonaro durante o processo eleitoral, financiado por diversos empresários, para disseminar fake news pelo Whatsapp. Em contraponto, a esquerda organizou uma grande campanha “vira-voto” no segundo turno, que levou Fernando Haddad a se aproximar perigosamente de Bolsonaro e, mesmo com tudo muito bem orquestrado para tirar Lula da disputa e prejudicar a candidatura petista, muitos dizem ainda que, se houvesse mais uma semana de campanha, talvez o resultado pudesse ter sido diferente.

E é esse espírito que precisamos resgatar. Por que deixamos de disputar a consciência da classe trabalhadora que foi e ainda está sendo manipulada, com a mesma consistência do processo eleitoral? Viemos de um período de ascensão e investimentos na área da Educação, durante os governos de Lula e Dilma, que nunca aconteceu antes na história do Brasil. É preciso saber filtrar quem foi manipulado e está se sentindo perdido, com medo, e fazer a acolhida. Bolsonaro tem 30% da população com ele de forma consistente, da mesma forma que a esquerda também possui seus 30%. Isso quer dizer que existem 40% que os dois lados disputam para ampliar seu quadro. Da mesma forma como aprendemos a ocupar o espaço institucional, que tradicionalmente era (e ainda é) ocupado de forma majoritária pelo campo da direita, eles também aprenderam a ocupar as ruas, que eram quase completamente da esquerda no último período.

Culpa não existe. Culpa você pode imputar o que você quiser a quem quiser. O torcedor pode se culpabilizar da derrota do seu time porque ele não usou a meia da sorte, se quiser. A culpa pode ser do Lula e do PT, a quem quiser. Mas essa narrativa atende aos interesses de quem?

É difícil acreditar em uma revolução tão cedo, afinal, com tudo o que já aconteceu em nossa história recente, falta algum motivo para termos uma revolução? Também não vamos contar com a ideia de que todos os brasileiros e brasileiras que saíram às ruas com a camisa da CBF, especialmente da elite capitalista e conservadora, além dos atores externos (que são os principais responsáveis por Bolsonaro e o cenário atual e quem mais precisa fazer uma autocrítica), farão estas reflexões. Mas a pergunta não está em quem não vai fazer, mas sim, em como podemos fazer a nossa parte hoje para construir o amanhã.

*Denis Carvalho é jornalista

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum


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