O documentário “O Dilema das Redes” escondeu parte da verdade? – Por Deivi Kuhn

Tenho recebido muitos comentários de leitores comparando meus argumentos com “O Dilema das Redes”. No entanto, o documentário esconde aspectos centrais, o que compromete o entendimento do problema e principalmente as possíveis soluções.

Por Deivi Kuhn *

Desde que iniciei esta coluna acerca de Tecnologia da Informação, focando em privacidade, tenho recebido muitos comentários de leitores comparando meus argumentos com “O Dilema das Redes”, lançado há mais de um ano pela Netflix. Este documentário aborda temas importantes para o público em geral, principalmente para os que não conheciam nosso papel de produto nesse mercado. No entanto, ele esconde, na sua narrativa, aspectos centrais, o que compromete o entendimento do problema e principalmente as possíveis soluções.

O documentário apresenta como as redes sociais e seus algoritmos funcionam, como nossos dados são coletados massivamente e como são capazes de predizer e influenciar nossos comportamentos. Também aborda o efeito nocivo, sobretudo para os mais jovens, das funcionalidades utilizadas para manter os usuários conectados por mais tempo, gerando ansiedade e problemas psicológicos.

A maior parte dos convidados do documentário são antigos funcionários das Big Techs, exatamente os que se adequam a esses modelos injustos e que acabaram exibindo uma visão parcial, diria até romântica, do que aconteceu. Eles afirmam que os problemas não foram planejados, mas surgiram espontaneamente. Há ainda o reforço da importância da tecnologia no mundo atual, como se esse formato de negócio fosse algo “inevitável”.

A obra possui algumas virtudes importantes. Apresentou como os algoritmos funcionam de uma maneira simples e acessível. Acertou ao convidar Jaron Lanier e sobretudo Shoshana Zuboff, a autora do termo “Capitalismo de Vigilância”, e, inclusive, indico a leitura do seu livro “The Age of Surveillance Capitalism”. Descreveram bem como as redes acabaram aumentando posições extremas, fake news e os conflitos na nossa sociedade.

Contudo, a coleta massiva de dados e o estudo das nossas personalidades não são exclusividade das redes sociais. Cada vez mais observamos o mercado financeiro, grandes redes de varejo, jogos e governos utilizando esse tipo de abordagem para lucrar ainda mais.

Há uma explicação didática de como os algoritmos de inteligência artificial funcionam e como levam à segmentação da informação, à falta do contraditório e a posições extremistas. E atribuem corretamente sua influência em processos eleitorais em vários países.

Ocultam, porém, o que realmente aconteceu nos últimos anos e que tentam nos esconder por ser prejudicial ao modelo de negócio. Um algoritmo de inteligência artificial pode ser estudado e seu resultado modificado por outro algoritmo especializado. Há fortes indícios de que esta estratégia foi utilizada de forma muito semelhante em vários países para reforçar posições de extrema direita. Isto é, a partir de contas criadas com essa finalidade, de aplicativos que solicitam permissão para publicar em nome do usuário e até por falhas de segurança, essas organizações alteraram os resultados de acordo com o seu interesse político em inúmeras partes do globo.

Pode parecer teoria da conspiração, mas eu mesmo passei pela situação de ter minha conta utilizada, mesmo sem eu ter dado qualquer permissão a aplicativos e sem constar no meu histórico de publicações de uma rede social. Ela foi usada para comentar posições favoráveis à direita em uma postagem política de uma pessoa conectada na minha rede. Como ela me conhecia profundamente, me alertou na mesma hora que havia algo errado.

Proteger nossa vida privada tem sido um grande desafio, principalmente porque estamos sofrendo os efeitos da extrema concentração de poder em um número muito pequeno de corporações. O capitalismo segue se movendo no sentido de concentração das riquezas, e os Estados falham ao não criar mercados verdadeiramente competitivos. E nisto reside o principal problema não abordado no documentário: nossa falta de opção enquanto consumidores.

A indústria de software possui algumas características típicas de negócios que devem ser regulados para haver competição. Um aplicativo possui alto custo de construção, mas pode ser distribuído e replicado infinitamente sem nenhum gasto adicional. Na economia costumam chamar esse consumo de não-rival. Outra característica é a chamada economia de rede, que aumenta o valor que atribuímos a uma tecnologia a quanto mais pessoas a acessam. Estes dois aspectos levam a uma inevitável concentração do mercado.

Nós, da comunidade de Software Livre, alertamos há muitos anos sobre os perigos que o modelo proprietário e não competitivo da indústria de tecnologia estava trazendo para nossa sociedade. A estratégia das grandes companhias foi explorar um mecanismo conhecido como “vendor lock-in” ou “aprisionamento”’, que consiste em criar entraves e dificuldades para que não haja possibilidade de substituir ou modificar uma tecnologia. 

Enquanto você pensa, por exemplo, que é dono de um aparelho de videogame, telefone ou televisão, na verdade é somente usuário destes equipamentos, apenas até o momento em que a empresa decide que está na hora de você comprar um novo modelo. Por meio de atualizações ou softwares adicionais, os produtos vão se tornando lentos e novas funcionalidades não são implementadas, acarretando no fenômeno “obsolescência programada”.

Ao não permitir a substituição do software controlado remotamente pela empresa, uma corporação pode deixar seu consumidor completamente sem opção de alterar o equipamento, sem poder desenvolver novos conhecimentos, proteger sua privacidade ou gastar menos aplicando otimizações. Todos os dispositivos inteligentes são, na verdade, computadores construídos para que executem e funcionem exatamente conforme o interesse das grandes corporações.

Esse método de funcionamento resulta em falta de eficiência, competição e sustentabilidade e, principalmente, concentra o conhecimento tecnológico que poderia ser produzido pelos consumidores e especialistas determinados em realizar mudanças nesses equipamentos. Inclusive, essa perigosa associação entre hardware e software foi o que culminou na criação do movimento de Software Livre[1].

A própria Netflix é parte dessa prática de aprisionamento. A gigante de streaming, em conjunto com Google e Microsoft, aprovou uma proposta para a versão 5 HTML[2], usado para acessar páginas na Internet, como a que você está lendo neste momento, para que o padrão aceite que softwares criptografados possam ser executados no seu computador sem a sua autorização, viabilizando o controle das empresas sobre o acesso realizado a sites na internet. Conhecemos o mecanismo como Digital Restrictions Management – DRM[3], que infelizmente está sendo utilizado para controlar os equipamentos que você pensa que são seus.

Dessa forma, o documentário ignora o problema central: a falta de alternativa tecnológica ao que estamos submetidos e que nos deixa desprotegidos nesse nicho extremamente concentrado. Como sempre, o objetivo de uma corporação não é o capitalismo, mas o monopólio para si e a concorrência para os outros.

Precisamos de uma profunda alteração de como nossa sociedade acessa a tecnologia. Não podemos ficar à mercê de algumas poucas organizações que nos obrigam a ser apenas usuários dos seus produtos. O caminho é lutarmos pela criação e devida popularização de soluções que garantam as nossas liberdade e privacidade, como a adoção de padrões tecnológicos interoperáveis, hardwares e softwares livres e liberdade para que sejamos realmente donos dos equipamentos que compramos.

*Deivi Kuhn é analista de sistemas, ativista por um mundo com conhecimento e tecnologias livres e compartilhadas.

Colaboração

Cristiane Edna Camboim

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.


[1]     https://www.gnu.org/gnu/thegnuproject.en.html

[2]     https://www.eff.org/deeplinks/2013/05/eff-joins-w3c-fight-drm

[3]     https://www.defectivebydesign.org/no-drm-in-html5