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24 de setembro de 2019, 23h27

O mundo agora sabe, por Ademir Assunção

O discurso de Bolsonaro na ONU poderia ser encarado como simples bizarrice se fosse proferido num grupo de terapia infantil; se boa parte dos brasileiros, incluindo os "arrependidos", já sabia quem é Bolsonaro, nesta terça-feira o mundo inteiro soube

Foto: Alan Santos/PR

Por Ademir Assunção* 

Estudo da empresa inglesa Ipsos Mori, divulgado em 2017, afirma que os brasileiros têm baixa percepção da realidade.

Correto ou incorreto, o estudo não previu seus efeitos colaterais: mais cedo ou mais tarde a baixa percepção da realidade chegaria à Presidência da República.

O discurso de Bolsonaro na ONU mostrou ao mundo um Brasil que só existe na cabeça dele – e dos seus seguidores.

Para ele – e eles – o Foro de São Paulo é uma organização criminosa encabeçada por Cuba; aquela segunda-feira em que o fumacê das queimadas na Amazônia escureceu os céus de diversas cidades – inclusive São Paulo – jamais existiu; igrejas e sinagogas são atacadas no país, resultado de uma perseguição implacável aos cristãos; os médicos cubanos eram submetidos ao trabalho escravo, com apoio da própria ONU; o Cacique Raoni é “peça de manobra” de governos estrangeiros e, a pior de todas as afirmações, “nossos nativos são seres humanos, exatamente como qualquer um de nós”.

É evidente que Bolsonaro não percebe o ridículo de suas inversões. Talvez não passe pela sua cabeça inverter a frase e dizer aos “nativos”: “Sou ser humano exatamente como vocês”. Talvez passasse, se estivesse subitamente em apuros, sozinho, no meio de uma tribo indígena ou no meio do Complexo do Alemão.

O discurso de Bolsonaro na ONU poderia ser encarado como simples bizarrice se fosse proferido num grupo de terapia infantil. Sendo ele presidente da 8ª economia do mundo (se é que o Brasil ainda mantém essa posição) é uma temeridade.

Suponho que a maioria dos líderes mundiais – independente de espectro ideológico – percebeu isso.

Se boa parte dos brasileiros, incluindo os “arrependidos”, já sabia quem é Bolsonaro, nesta terça-feira o mundo inteiro soube.

E certamente pressentiu o perigo.

Delirantes medíocres, que acreditam em suas próprias mentiras e fantasias, costumam trazer discórdia, destruição e calamidade quando assumem o poder.

*Ademir Assunção é poeta e jornalista, autor dos livros A Voz do Ventríloquo, Faróis no Caos e Ninguém na Praia Brava, entre outros

 

Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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