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20 de janeiro de 2020, 19h56

Leoni: O que os homens podem fazer para ajudar a eliminar o machismo do cotidiano brasileiro?

Em "texto para os homens, pergunta para todo mundo" o músico traz uma reflexão urgente acerca das questões de gênero

Leoni (Divulgação)

Por Leoni 

Para Luciana Fregolente e Carolina Warchavsky, minhas professoras

Fiquei sabendo por um texto da Djamila Ribeiro na Folha de São Paulo de 6 de dezembro que, desde 2007, este é o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres.[1] É uma data internacional. Eu, do meu lugar de homem branco, tenho que ser estimulado a pensar nisso, já que quem tem privilégios acha que eles são algo normal. É uma situação “invisível” para quem não é atingido. Mas temos todos que pensar sobre o assunto. A democracia não pode ser a ditadura da maioria[2] sobre as minorias — ditadura é ditadura –, mas a inclusão amorosa de todas as vozes, de todos os saberes, da proteção de todos os nossos irmãos e irmãs, coproprietários (coinquilinos?) desse imenso pedaço de planeta. Olhar para os problemas de quem não é igual a nós é o exercício mais difícil para os seres humanos. A empatia é muito mais rara que o autoritarismo.

Por exemplo, o massacre de Paraisópolis, que encheu de revolta e raiva boa parte da população brasileira branca, é uma realidade dos moradores das favelas desde sempre. Essa raiva, recém-chegada aos bairros nobres das capitais, é o dia a dia da opressão de uma população enorme, especialmente de sua parte negra — alvo preferencial da repressão e da violência das políticas de segurança pública do Brasil. Os relatos absurdos, que agora chegam até nós por conta da internet, não são reflexo de algo que começou ontem, mas de um comportamento naturalizado da nossa sociedade. Sim, somos racistas e aporofóbicos (característica de quem tem medo, rejeição, hostilidade e aversão às pessoas pobres e à pobreza). Quem anda pelas ruas sem a preocupação de ser parado e agredido pela PM tem uma relação com a vida e com o espaço público inteiramente diferente dos que se sabem em perigo pela simples presença de um carro de polícia nas redondezas.

Assim é com as mulheres. Qual mulher se sente segura andando numa rua deserta? Mas o pior é que ela se sentirá ainda muito menos segura se, em sentido contrário, estiver vindo um homem. Qualquer que seja. Quando minha filha vem nos visitar e tem que voltar tarde da noite, eu a acompanho pelos três quarteirões que separam nossas casas. Apesar de ser uma vizinhança tranquila, mulheres sozinhas são sempre alvos potenciais de homens em geral. Sim, homens em geral são perigosos. Estudo sobre homicídios feito pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e publicado em 2014 aponta que 95% dos assassinos no mundo são homens. E 100% dos estupradores.

No trabalho, na escola, na academia, no transporte público, em casa, especialmente em casa, elas são sempre vítimas de diversos tipos de assédio e violência. Em muito casos, talvez na maioria, denunciar faz com que ela passe a correr mais riscos que antes. Em vários o sistema se volta contra ela, protegendo o assediador e punindo a vítima. Quantas mulheres são assassinadas depois de denunciarem seus companheiros à polícia? Quantas demitidas depois de denunciar um chefe abusador?

No documentário The Hunting Ground, disponível no Netflix, o diretor Kirby Dick mostra como as universidades americanas acobertam os casos de estupro nos campi pelos motivos mais torpes, e como a mulher fica sempre desprotegida. Em geral, admitir os casos de estupro seria prejudicial para a imagem destas universidades, que passaria a ter mais dificuldade de conseguir financiamentos e doações. Essas instituições particulares, dependentes do dinheiro da elite, defendem seus patrocinadores e seus herdeiros. A regra é que o estuprador não seja punido porque isso “acabaria com a vida dele”. Em suma, o dinheiro e a vida dos homens falam mais alto que a segurança e a saúde, tanto física quanto mental, das mulheres. Essa é uma das expressões da cultura do estupro — nesse caso, institucional–, que muitos não querem admitir existir.

Sei que para elas não estou relatando nada de novo. Imagino muitas bocejando diante desse texto tão pouco informado, outras pensando que eu não tenho lugar de fala para relatar os problemas cotidianos delas. E têm toda razão, porque, até agora, não estou falando para elas. Isso seria, como minha avó dizia, ensinar o Pai Nosso ao vigário. Nem estou falando por elas. Isso seria inteiramente desnecessário. Seus livros e testemunhos é que vêm me iluminando. Estou falando para os homens cegos aos problemas que não lhes afligem. Estou falando porque já fui totalmente cego. E não há cura definitiva até o momento. A miopia residual exige o uso de óculos de empatia feminina. Exige a informação constante. Exige aprender a ouvir — como isso é difícil! Muito do que percebo é resultado de amar duas mulheres, minha mulher (seria melhor trocar “mulher” por “companheira”?) e minha filha, feministas atuantes, que dividem comigo as muitas violências e silenciamentos cotidianos que sofrem — alguns, infelizmente, causados por mim — vários dos quais, ficam inteiramente não resolvidos e impunes.

Esse texto é um apelo a que nós — sempre que usar esse termo estarei falando de homens brancos heterossexuais cisgênero, o topo da cadeia de privilégios na nossa sociedade, mas todos os outros homens estão convidados a participar do coletivo— mudemos de atitude, que reconheçamos que o machismo e a cultura do estupro só vão se desfazer quando nós pudermos ouvir as histórias delas — por isso temos que conhecer as escritoras, as roteiristas, as cineastas, as jornalistas, as pensadoras, as compositoras –, quando pudermos aceitar que não somos, mesmo!, a maravilha que pensávamos, ou tentávamos acreditar, ser.

No seu livro — fundamental, por sinal – Memórias da Plantação, Grada Kilomba, que além de artista, filósofa e pensadora, também é formada em psicologia e psicanálise, nos dá o caminho para essa mudança. Não devemos nos martirizar pelo nosso desvio moral e cair numa inútil autodefesa ou na imobilidade da vergonha e da culpa. O que ela diz em relação ao racismo se aplica ao machismo, temos que passar por um processo psicológico que vai da negação inicial até chegar à reparação. Não se trata apenas de paliativos ou de pagar uma dívida histórica (que é inegável), trata-se basicamente de abrir mão de privilégios através da nossa participação ativa na “mudança de estruturas, agendas, espaços, posições, dinâmicas, relações subjetivas, vocabulário.”

Chego finalmente ao propósito desse texto, e aqui, as mulheres que resistiram bravamente ao longo mansplaining, estão convidadíssimas a assumir o protagonismo das suas reivindicações. O que nós homens podemos fazer para ajudar a mudar as relações entre os gêneros? Como abrir mão do poder? Como nos tornarmos companheiros e não “superiores hierárquicos”?

Manoela Miklos, Doutora em Relações Internacionais, fundadora do blog #agoraéquesãoelas, uma vez me pediu para me juntar ao movimento He for She, não aceitando participar de nenhuma mesa ou audiência pública em que não houvesse pelo menos uma mulher. Foi uma revelação. É inacreditável como homens brancos não se dão conta de que muitas vezes nossa minoria (em termos estatísticos) se acha no direito de falar por todos os outros grupos. Como se representássemos o pensamento universal e os outros tivessem um olhar periférico, parcial. A partir daí, passei a enxergar essa distorção, até então praticamente invisível para mim, como um escândalo. Obrigado, Manô! E muitos outros escândalos passaram a berrar nos meus ouvidos, não me permitindo ignorá-los mais. Claro que diversos outros ficam berrando por aí numa frequência que não capto ainda. Como ainda achamos razoável um Ministério composto quase exclusivamente de homens brancos ricos heterossexuais? Naturalizamos que esta é a cara do poder, só porque tem sido assim. E quando digo “naturalizamos”, falo de nós, que nos vemos representados nele. Os que estão afastados do centro sentem diariamente na pele nossa insensibilidade. Como temos um Congresso tão pouco representativo da heterogeneidade do nosso povo?

Aqui vão algumas poucas ideias para começarmos essa conversa de abrir mão de privilégios:

Primeiro, acho que devemos radicalizar essa demanda da Manoela, e não aceitarmos participar de mesas acadêmicas e audiências públicas em que nós sejamos maioria.

Segundo, até que nosso grupo seja minoritário no Congresso — nada dessa postura condescendente de achar que 30% de mulheres é um número razoável –, não devemos votar em nós. Nossos votos têm que ter a função de ajudar a compartilhar o poder. Nossos representantes têm que ter a cara da população representada, que é muito mais negra, feminina, pobre, jovem e plural que aquele coletivo de homens de cabelo tingido.

Terceiro, a gente tem que alertar outros homens quando estiverem no padrão “automático” de comentários e piadas preconceituosas, quando enviarem fotos e vídeos inaceitáveis nos grupos da pelada ou do trabalho, afinal o preconceito é mantido em grande parte pelo discurso. Palavras têm muito poder. Temos que comprar as brigas delas, mesmo que isso nos indisponha com amigos de longa data. Nosso silêncio é inaceitável, não dá mais para ser cúmplice por omissão. Temos que ser a voz dissonante, o alerta necessário, até que os escândalos do machismo comecem a berrar nos ouvidos de todos nós.

O que você sugeriria?

[1] Do texto da Djamila, “Pelo direito à vida das mulheres”: “Trata-se de uma data mundial criada após, em 1989, um universitário canadense de 25 anos entrar emu ma sala de aula em Montreal, ordenar que todos os homens do recinto saíssem para que ele pudesse assassinar todas as mulheres presentes, o que acabou fazendo, cometendo suicídio em seguida.”

[2] Conceito pensado em termos sociológicos e não estatísticos, já que homens brancos heterossexuais cisgênero não representam nem um quarto da população brasileira. Se acrescentarmos as categorias “cristãos” e “não pobres”, essa “maioria” não vai chegar a 10% das/os brasileiras/os.


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