Paulo Galo, Borba Gato e as alegorias do terror – Por Mônica Francisco

É inadmissível que ainda hoje tenhamos estátuas de genocidas, racistas, eugenistas, senhores de escravos e abusadores de mulheres sendo glorificadas em praça pública como heróis do povo brasileiro

Por Mônica Francisco*

Queremos nossos jovens negros revolucionários livres! Liberdade para Paulo Galo e Géssica! É extremamente violenta e distópica a realidade brasileira e fica aqui o meu total repúdio ao mandado de prisão ao companheiro Paulo Galo, uma das lideranças do movimento entregadores antifascistas, Géssica, sua companheira, e Danilo Oliveira (Biu), pela queima da estátua de Borba Gato ocorrida durante o ato Fora Bolsonaro do último sábado, 24 de julho de 2021.

É inadmissível que ainda hoje tenhamos estátuas de genocidas, racistas, eugenistas, senhores de escravos e abusadores de mulheres sendo glorificadas em praça pública como heróis do povo brasileiro. Em cada pedra e em cada tijolo desse país há sangue negro e indígena, fruto da violência colonial e racista. 

Da mesma forma, é inaceitável escolas públicas carregarem o nome de ditadores e racistas. Como se ensina a defesa da democracia, da justiça social e da liberdade sob essas alegorias do terror? Pela cidade são placas, retratos, estátuas e bustos que enaltecem os marcos do suplício que a história oficial apaga. São marcos construídos a partir da tortura, do genocídio, do sequestro, do estupro e do assassinato.

Como é possível aceitar que a ponte que cruza a baía de Guanabara ligando o município do Rio de Janeiro a Niterói seja nomeada com o nome do militar, ditador e presidente Costa e Silva? 

Em 2020, juntamente com as companheiras de bancada e deputadas estaduais Dani Monteiro e Renata Souza, protocolamos o Projeto de Lei de nº 2806, que dispõe sobre a proibição de homenagens a escravocratas e eventos históricos que prestem homenagens às práticas escravagistas no âmbito da administração pública direta e indireta e até hoje não obtivemos resposta. Estamos em 2021 e ainda não existe parecer. O silêncio também é silenciamento de nossos corpos e narrativas. O que aconteceu com os homens que quebraram a placa de Marielle Franco em praça pública? Queremos reparação histórica pela nossa memória e ancestralidade.

É uma discussão urgente! Precisamos fortalecer esse debate que, bravamente, Galo traz à baila. Quem são as figuras imortalizadas nessas enormes estátuas? Quais imagens são perpetuadas pela colonialidade? A intelectual e feminista negra Patricia Hill Collins conceitua como imagens de controle que podem ser histórias ou mitos, que irão incidir, principalmente, na leitura racista sobre os corpos de mulheres negras. E não permitiremos que rasguem nossos nomes, que quebrem nossas placas.

Estas estátuas não deveriam existir em via pública. Deveríamos insistir para que estes nomes e estas imagens sejam reescritos na história oficial, responsabilizando-os por seus atos genocidas, racistas e de violação de direitos humanos. 

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É preciso, sim, derrubar todos esses mitos. São essas alegorias do terror que ameaçam diariamente a nossa existência e também reforçam as narrativas de genocídio da população negra e indígena. Menos Costa e Silva e mais Vladimir Herzog. Menos Borba Gato e mais Tereza de Benguela. Mais Lélia Gonzalez. Mais Luiza Mahin. Mais Marielle Franco. Mais Dalva de Oliveira. Mais Ivanir Mendes. Mais Solano Trindade.

Como diz o samba da Mangueira, “desde 1.500 tem mais invasão do que descobrimento. Tem sangue retinto pisado atrás do herói emoldurado. Mulheres, tamoios, mulatos, eu quero um país que não está no retrato”.

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*Mônica Francisco é deputada estadual, vice-líder da bancada do PSOL e presidente da Comissão do Trabalho da Alerj.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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