O que o brasileiro pensa?
01 de julho de 2020, 23h00

Pela vida, não para o lucro: por que não acreditar na caridade do capitalismo, por Renata Sapucaí e Renato Santos

“A memória das vítimas da Covid-19 e a nítida incapacidade do Estado neoliberal em priorizar a vida não trarão, por si só, um processo de mudança da sociedade”, dizem os autores

Foto: Paulo Desana/Dabakuri/Amazônia Real

Por Renata Sapucaí* e Renato Santos**

Com mais de 10 milhões de casos confirmados e mais de 500 mil mortes (1), a crise causada pelo novo coronavírus mexeu com as estruturas econômicas e as dinâmicas sociais do mundo inteiro, mostrando as fragilidades dos sistemas de saúde ou, de maneira mais reflexiva, da própria sociedade capitalista. 

Desde a sua implementação, há mais ou menos 50 anos, não havia uma janela tão gritante de observação da incapacidade do neoliberalismo como sistema econômico, político e social. Nunca antes na história desse sistema foram tão inegáveis as perdas causadas pela diminuição do Estado e a priorização do capital e das grandes empresas, pela valorização da meritocracia, de uma cultura de individualismo, que procura tornar invisível a interdependência entre as pessoas para a vida em sociedade.

O neoliberalismo e a globalização tentaram imprimir uma lógica de constante movimento, que provoca os indivíduos a serem cada vez mais “dinâmicos” e preparados para as adaptações do mundo do trabalho e da tecnologia, a partir de uma sensação de que isso é inevitável e é normal que os que não acompanham esse ritmo sejam deixados para trás. Assim, passamos a desvalorizar o trabalho e espaços domésticos, nos acostumando com uma vida acelerada, por vezes almejando mais de um emprego, a nos endividar com educação e tentar seguir, a todo custo, a “receita” que nos levará ao sucesso.

Este aspecto individual e meritocrata é fundamental para que, no campo da macropolítica, o Estado deixe de servir às pessoas e passe a servir ao capital. O imaginário do Homo Economicus, essa figura livre, capaz e independente que a economia liberal tenta vender, é a base da legitimação de um Estado que não se responsabiliza pela garantia de direitos básicos para o conjunto da população, através de mecanismos que emancipem o conjunto das pessoas e que se proponham a erradicar as desigualdades sociais, oferecendo educação, saúde e seguridade social. É a partir dessa lógica que, aliado a estratégias de desorganização popular, o Estado liberal cria as condições necessárias para se desresponsabilizar pela vida das pessoas sem que estas se oponham coletivamente. 

Com a crise sanitária e social causada pelo coronavírus, vemos uma repentina mudança na dinâmica das pessoas em todo o mundo. As mudanças que o isolamento social trouxe são acompanhadas de uma série de questionamentos acerca da normalidade dos dias e rotinas que vivíamos antes da pandemia, caricaturando, de forma inquestionável, o conflito entre capital e a vida, e a incompatibilidade de se pensar a economia como a macropolítica têm feito.

Tudo isso apenas reitera o que os movimentos populares vêm dizendo há muito tempo, sobretudo o movimento feminista: que autonomia ou responsabilidade sobre a vida não é sinônimo de independência entre os indivíduos. Que essa economia, que se limita a números e fórmulas, não é capaz de dar conta da vida real das pessoas, no mundo real. Que todos os processos de desenvolvimento do ser humano (nascer, crescer, envelhecer) perpassa necessariamente pelo árduo trabalho de cuidado que, apesar de ser a base para a vida como a conhecemos, é invisibilizado ou tido como algo “natural” às mulheres e, portanto, algo que não merece muitas reflexões ou ser dividido por toda a sociedade. Que este ritmo de consumo dos nossos corpos e territórios cria um cenário de exploração da natureza que pode causar danos irreparáveis à vida (e já está causando). Logo, a independência sugerida pelo neoliberalismo entre as pessoas é ilusória, e isso fica ainda mais nítido com as várias manifestações caridosas que têm mobilizado indivíduos. 

Mas será o retrato da crise suficiente para que tenhamos, em um futuro próximo, dias melhores?

Assistimos diariamente que o clima de caridade tem mobilizado muitas pessoas a contribuir em campanhas de doação de alimentos e itens de higiene para as pessoas em maior vulnerabilidade socioeconômica – em um momento como este, a mobilização individual pode aliviar necessidades básicas e, justamente por isso, essenciais e urgentes.

Para além das pessoas, entretanto, grandes empresas (muitas delas, transnacionais) têm publicizado diversas doações – e não por acaso devemos nos ater a esses sujeitos e observá-los com mais atenção. Essas movimentações têm alimentado uma narrativa de cuidado com o outro a partir das ações isoladas em detrimento das ações do Estado, que ocorrem no sentido de fazê-lo obsoleto e de não contribuir com seu fortalecimento enquanto provedor de políticas públicas. 

Sendo assim, é comum ouvir dos mais otimistas que este momento ímpar forjará, por si só, caminhos para a construção de um novo mundo menos selvagem, em que a noção de responsabilidade coletiva estará mais presente. Será que é possível, no campo da individualidade, modificar as estruturas que criaram toda a desigualdade que a caridade tem tentado amenizar? 

Para materializar essas questões: apenas três empresas foram responsáveis pela doação de mais de R$ 1 bi para o combate da Covid-19 – essa considerável quantia veio do Banco Itaú (doação de R$ 1 bi) (2), Banco Safra (R$ 20 mi) (3) e Ambev (R$ 110 mi) (4).

Esses recursos, que ajudarão a salvar milhares de vidas, entretanto, são irrisórios se comparados ao lucro dessas empresas, obtido através do trabalho de inúmeras pessoas que perdem, diariamente, direitos trabalhistas e qualidade de vida devido à precariedade dos seus postos de trabalho, além de ter de se expor ao risco de contágio trabalhando fora de casa.

Em cifras: o Banco Itaú valia, em 2019, R$ 342,1 bi (5); o Banco Safra teve lucro de R$ 2,2 bi (6), em 2019; enquanto a Ambev, distribuidora de cervejas, vale cerca de R$ 228,1 bi (7). Comparando o valor das doações com o salário mínimo, é como se toda a massa de pessoas que sobrevive com R$ 1 045,00 no Brasil fizesse doações de, respectivamente, R$ 3,13, R$ 9,40 e R$ 0,41.

Sem dúvida nenhuma, as inúmeras reflexões sobre a nossa existência, o cuidado com a casa, a relação com os parentes, o ritmo que damos às nossas vidas serão positivas para nos fazer questionar sobre o padrão irresistível de consumo e esgotamento que temos vividos nos últimos tempos, mas não serão, por si só,  capazes de superar esses problemas. Não serão capazes de fazer com que as mesmas empresas que doaram milhões de reais para hospitais ou pessoas carentes deixem de apoiar e financiar politicamente aqueles e aquelas que desmontam o Estado e retiram os direitos da classe trabalhadora. 

Desse mesmo modo, a caridade entre as pessoas não conseguirá, individualmente, conter problemas de ordem coletiva de maneira permanente, a exemplo das muitas desigualdades vivenciadas no Brasil e no mundo, dentre as quais citamos as de raça, gênero e classe.

A caridade não fará cessar o genocídio das pessoas negras, tampouco diminuirá os casos de violência contra as mulheres, que apenas aumentaram nesse período da pandemia. A caridade tampouco conseguirá por si só fazer cessar a fome de quem tem fome.

E não conseguirá porque essas questões não são fatos isolados, mas peças fundamentais e estruturantes para o funcionamento do capitalismo neoliberal que, a cada dia que passa, se estrutura mais fortemente em torno das grandes transnacionais.

É preciso ir mais além: o mundo no qual estamos inseridos é o resultado de conflitos, uma síntese da nossa própria história. Isso significa que tudo o que vemos, pensamos, acreditamos e sentimos é fruto de uma série de relações antagônicas que, dado um conflito, cria um resultado. O que será do mundo, da política e da economia depende da nossa capacidade de questionar o que está posto, a partir da compreensão de que a solidariedade é, antes de mais nada, uma categoria fundamental para se pensar e politizar a economia. 

Coletivizar e politizar a solidariedade nos indicará um caminho de luta coletiva contra as desigualdades sistêmicas. É preciso reiterar: a memória das vítimas da Covid-19 e a nítida incapacidade do Estado neoliberal em priorizar a vida não trarão, por si só, um processo de mudança da sociedade.

Apenas a nossa capacidade de questionar e organizar a resistência a esse modelo de sociedade e de economia (que nitidamente não nos serve) nos garantirá dias melhores.

Nesse sentido, destaca-se ainda a importância de aprofundar reflexões sobre os movimentos antifascistas, iniciado pelas torcidas organizadas, mas capitaneado por diversos setores da sociedade, inclusive a direita liberal, que há pouco tempo defendeu o golpe na presidenta Dilma Rousseff, a aprovação das diversas reformas ultraliberais (como a trabalhista e da previdência) e estavam ao lado do governo Bolsonaro.

Que essas mobilizações possam reiterar à classe trabalhadora que a luta contra o fascismo precisa significar, necessariamente, lutar contra o neoliberalismo.

(1)Brasil ultrapassa marca de 60 mil mortes e se aproxima de 1,5 milhão de casos. Disponível em: https://revistaforum.com.br/brasil/coronavirus-brasil-ultrapassa-marca-de-60-mil-mortes-e-se-aproxima-de-15-milhao-de-casos/

(2)Ação social de empresas na pandemia deve ser habitual, dizem especialistas. Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2020/06/01/acao-social-de-empresas-na-pandemia-deve-ser-habitual-dizem-especialistas.htm. Acesso em 13 jun. 2020.

(3)Empresas investem em ações solidárias para combater a pandemia. Disponível em: https://casacor.abril.com.br/noticias/empresas-investem-em-acoes-solidarias-para-o-combate-ao-coronavirus/. Acesso em 13 jun. 2020. 

(4)Ambev: Juntos à distância. Disponível em: https://www.ambev.com.br/juntosadistancia/. Acesso em 13 jun. 2020. 

(5)Itaú desbanca Ambev como maior empresa em valor de mercado da B3. Disponível em: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2019/01/04/itau-desbanca-ambev-como-maior-empresa-em-valor-de-mercado-da-b3.ghtml. Acesso em 13 jun. 2020. 

(6)Banco Safra tem lucro 3% maior em 2019, de R$ 2,2 bilhões. Disponível em: https://valor.globo.com/financas/noticia/2020/02/06/banco-safra-tem-lucro-3percent-maior-em-2019-de-r-22-bilhoes.ghtml#:~:text=O%20Banco%20Safra%20registrou%20lucro,%2C%20a%20R%24%20111%2C070%20bilh%C3%B5es. Acesso em 13 jun. 2020.

(7)Ambev perde R$ 20,7 bilhões de valor após balanço: o que decepcionou tanto (e o que esperar para 2020). Disponível em: https://www.infomoney.com.br/mercados/queda-de-10-da-acao-por-que-o-resultado-da-ambev-decepcionou-o-mercado-e-o-que-esperar-para-2020/. Acesso em 13 jun. 2020.

*Renata Sapucaí é socióloga do Centro Feminista 8 de Março e militante da Marcha Mundial das Mulheres.

**Renato Santos é gestor de políticas públicas pela UFRN e militante do Enegrecer (Coletivo Nacional de Juventude Negra).

*Este artigo não reflete, necessariamente a opinião da Revista Fórum


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