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30 de julho de 2019, 18h58

Pequena memória para um tempo sem memória – Por Maria do Rosário

"A chaga antidemocrática encontra-se aberta novamente e está diretamente ligada a ascensão de Bolsonaro"

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Por Maria do Rosário Nunes*

O Brasil encontra-se estarrecido diante do conjunto de declarações e ações do atual ocupante do Palácio do Planalto. Não por desconhecer quem realmente é Jair Bolsonaro, mas por imaginar que poderia existir um limite para os absurdos e impropérios deste abominável personagem. Este limite, caro leitor, nunca existiu.

Em mais um episódio de sua cruzada ignóbil contra as instituições democráticas, Bolsonaro desferiu não uma crítica política, mas um ataque de cunho pessoal ao presidente da Ordem dos advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz. Causa revolta e indignação seu nível de covardia ao falar de homens e mulheres que como o pai de Felipe, Fernando Santa Cruz, foram capturados, possivelmente torturados e assassinados pela ditadura militar. Nos versos de Gonzaguinha, “Memória de um tempo em que lutar por seu direito, é um defeito que mata”.

A chaga antidemocrática encontra-se aberta novamente e está diretamente ligada a ascensão de Bolsonaro. A Câmara dos Deputados, quando deveria e poderia, não tomou as devidas providências para responsabiliza-lo por atos e palavras que não cabem na democracia. Me pergunto como é possível que um poder da república tenha permitido odes e louvores aos torturadores de mulheres grávidas, crianças e aos assassinos que comandaram este país durante 21 anos.

Enquanto escrevo este artigo, lembro-me do ex-presidente Lula ao tomar posse no Congresso Nacional, 15 após o fim da ditadura e da ausência de luz que foi imposta ao Brasil. “Hoje é o dia do reencontro do Brasil consigo mesmo”, diria Lula naquele momento. Com sua prisão política injusta, o Brasil parece cada vez mais distante de si mesmo, embrenhando-se nas tortuosas trilhas do passado.

Apenas nos últimos dias, Bolsonaro agrediu o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, insultou a memória de um desaparecido político, negou o assassinato de um cacique e vem sinalizando a intenção de cercear a liberdade de imprensa, ao atacar a jornalista Miriam Leitão, vítima de torturas durante a ditadura militar e de, recentemente,  ameaças por parte de apoiadores do governo, e também ao afirmar que o jornalista Glenn Greenwald pode ser preso.

Os fatos revelados na VazaJato são graves e o Estado está em busca de todas as provas de que a eleição de Bolsonaro é resultado de uma fraude, que envolve vazamentos político seletivos e disseminação difamatória de fakenews. Fica cada vez mais reconhecida como ilegítima sua vitória, que deve ser contabilizada como mais um dos absurdos criados pelo corvo Sérgio Moro, Dallagnol e outros, que pavimentaram a estrada de Bolsonaro até o Planalto, quando prenderam sem provas um dos maiores líderes políticos humanistas do mundo e o candidato favorito nas eleições de 2018, Lula.

Não podemos considerar presidente de um sistema constitucional, quem destrói a constituição. Como pode ser presidente do Brasil, justamente aquele que agride e divide o povo brasileiro?

Ao mesmo tempo em que este monstro emerge da lagoa, atordoados assistimos ao desmoronamento da soberania e das políticas públicas construídas nos períodos em que governamos o Brasil, e mesmo anteriores aos governos do PT. As barreiras do estado de bem-estar social estão sendo desfeitas.

A insanidade e vilania de Bolsonaro revelam sua verdadeira intenção. Dividir, submeter e calar o país. É a Constituição ou ele. É a democracia, a paz e a unidade territorial e humana do Brasil ou ele.

Mas é preciso lembrar que a democracia é um exercício constante. Uma escolha diária entre a civilidade ou a barbárie. A esperança há de vencer o medo, novamente.

Me somo ao coro dos esperançosos, para juntos irmos as ruas e gritar de peito aberto.

Fora Bolsonaro!

*Maria do Rosário é deputada federal (PT-RS)

 

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum 


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