Quando os estúpidos e imbecis assumem o poder, por Vagner Marques

A estupidez se manifesta na negação da ciência, no confronto com as prescrições da Organização Mundial da Saúde (OMS) e com todas as orientações médicas, nacionais e internacionais

Por Vagner Aparecido Marques *

Como narrar o inenarrável ou ser testemunha ocular de algo que escapa à nossa capacidade de compreensão? A pandemia do novo coronavírus é um elemento do tempo presente responsável pela perplexidade diante da barbárie. Até o momento, todos os continentes e países do globo registram casos de infecção e/ou mortes e já estamos com quase 90 milhões de infectados e dois milhões de mortes em todo o mundo.

Já acostumados com os números, caminhamos diante das mortes sem que a perplexidade nos assuste mais. A pandemia tornou-se comum, já não somos mais sensíveis à interminável escalada de infeções e mortes. As recomendações médicas não nos afetam e celebramos as festividades de final de ano em aglomerações, na lamentável e fraterna companhia da barbárie.

Estouramos champanhe para celebrar o Ano Novo com praias lotadas. As festas clandestinas deram o tom de que não somos mais sensíveis, independentemente do número de mortes, a pandemia tornou-se comum e não assusta mais.

O Brasil ultrapassou essa semana a triste marca de 200 mil mortes em decorrência da Covid-19. Em menos de um ano da confirmação do primeiro caso, a pandemia continua a se alastrar com força assustadora. Até o momento, já são mais de oito milhões de brasileiros infectados e a falta de perspectiva de um efetivo programa nacional de vacinação coloca em risco a vida de muitos outros.

O primeiro caso do novo coronavírus foi confirmado no Brasil em 26 de fevereiro e já em 11 de março a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a pandemia que até hoje se alastra por todo o mundo e que se tornou companheira dos brasileiros que já não se assustam mais com a morte diante dos olhos.

O Ministério da Saúde foi notificado no dia 17 de março da primeira morte, na ocasião, o país contava com apenas 291 casos confirmados e 8.819 suspeitos. Desde a primeira morte confirmada, passaram-se apenas 96 dias para que a pandemia fizesse 50 mil vítimas. É como se a lotação máxima de torcedores da Arena Fonte Nova, em Salvador, morresse de uma só vez.

Não deu tempo para o luto, o susto e a perplexidade não foram digeridos a tempo da pandemia diminuir seu lastro de mortes. Somente 48 dias após perdermos 50 mil brasileiros, chegamos a outro número grandioso: 100 mil mortes.

Para se ter uma ideia, é como se quase toda a população de Poá fosse extinta de uma só vez durante um mês e meio. Mas não choramos mais, as nossas lágrimas secaram, o susto foi embora e o medo foi substituído por uma estranha sensação de normalidade diante da morte. O que restou de nós e como atingimos essa incapacidade de estranheza?

Hoje o Brasil é o segundo país no mundo com maior número de mortes em decorrência da Covid-19, mas o que de fato ocorreu para que a pandemia avançasse com tanta força? Por que não conseguimos impedir que a vida de milhares dos nossos fossem perdidas? Onde erramos? Por que erramos e como evitar que esses números continuem a crescer?

Essas questões são fundamentais e estruturantes, e se quisermos de fato vencer a pandemia, antes de tudo é necessário encará-la de frente, entender sua força e assumirmos os esforços coletivos para o combate.

É fundamental e urgente acessar o imaginário coletivo da população para o despertar da gravidade e força da pandemia, para tanto, se faz necessário que atores políticos, representantes públicos, artistas, esportistas e outras referências nacionais se colocarem à disposição para contribuírem no combate, que entendam a gravidade e atuem como protagonistas de uma militância em defesa da vida. Mas é aqui que o desespero e desesperança ganham força.

Não parece que Neymar, um dos maiores jogadores do planeta, se importe com outra coisa a não ser sua própria vida de luxo e festas. Nem mesmo seus “parças” se salvam de sua indiferença com a vida. Celebrar uma festa com 150 ou 500 convidados não faz diferença, torná-la pública e compartilhar em suas redes sociais a aglomeração é um convite para a barbárie e um desprezo com a vida.

O que esperar do principal represente do país, o presidente da República? Não foram poucas suas demonstrações de indiferença e negacionismo, desde a afirmação que a pandemia seria apenas uma “gripezinha”, passando pelo perverso “e daí, não sou coveiro”, até o mergulho na praia com uma grande aglomeração durante o Ano Novo. Jair Bolsonaro negou a força da pandemia, indicou uso de medicação sem comprovação de eficácia científica, organizou diversas aglomerações e chegou a afirmar, sobre os efeitos colaterais da vacina produzida pelos laboratórios Pfizer e BioNTech, que não há garantia de que ela não transformará quem a tomar em ‘um jacaré’ […]. Se você virar Super-Homem, se nascer barba em alguma mulher aí, ou algum homem começar a falar fino, eles (Pfizer) não têm nada a ver com isso.”

Bolsonaro não é apenas um estúpido e imbecil, é um estúpido e imbecil com a caneta de presidente da República nas mãos! Seus gestos de imbecilidade não são circunscritos à sua vida privada. Sua imbecilidade é levada em conta na forma de administrar o país durante o maior problema de saúde pública do século.

Sua estupidez se manifesta na negação da ciência, no confronto com as prescrições da Organização Mundial da Saúde (OMS) e todas as orientações médicas nacionais e internacionais. Sua imbecilidade é traduzida no confronto diário de sua guerra particular com a imprensa, na ideia de perseguição, de inimigos públicos, imaginário medieval, enquanto o país sepulta seus cidadãos por inoperância da administração pública em apontar saídas concretas para o enfrentamento ao vírus.

A roupa presidencial é pesada demais para seu corpo franzino. Ser presidente é, antes de tudo, demonstrar nos gestos a condição de estadista, de homem público. Mas o que nos é apresentado é um estúpido e imbecil com a caneta de presidente da República.

*Vagner Aparecido Marques é professor universitário, historiador, doutor em História Social e mestre em Ciências da Religião, ambos pela PUC-SP .

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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