quarta-feira, 30 set 2020
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“Quem pariu Mateus, que o embale!”, por Zé Barbosa Jr.

Nunca o ditado popular “quem pariu Mateus que o embale!” fez tanto sentido no Brasil. Na semana passada, dois casos de racismo (dentre os outros milhares não noticiados) vieram à tona, deixando-nos perplexos, enojados, irados e uma série de outras palavras indizíveis em um canal público como este. Uma coisa em comum nesses dois casos: as vítimas tinham o mesmo nome, Matheus (assim, com “th”) e no caso mais divulgado, de Valinhos-SP, também o agressor se chamava “Mateus” (assim, com “t” somente). Como quero falar do problema, usarei no texto a grafia com “t” somente.

Sim, nós parimos Mateus. Ele é problema nosso. Falo por mim, homem, branco, cis, hétero e cristão. Mateus é um problema meu. Racismo é um problema de branco. E nós temos que ter coragem de “embalar” esse filho. E quero tratar o “embalar” nesse texto como encarar de frente essa nossa doença, esse nosso mal, e num linguajar bem cristão, esse nosso pecado. Sim, racismo é, também, pecado. Além de crime, não esqueçam!

Nossa sociedade branca, hétero/cisnormativa, patriarcal e cristã gerou esse monstro que segrega, separa e mata os corpos negros. A igreja cristã brasileira deve um pedido de perdão aos irmãos e irmãs pretos e pretas pelos anos de colonialismo, exclusão e genocídio. Esse bebê foi criado por nós. Aquele monstro branco de Valinhos, diante de um pequeno gigante Matheus, é fruto de nossa pregação de séculos a favor da escravidão, do discurso de que negros não tinham alma e da perversa ideia de que a prosperidade financeira (geralmente fruto da exploração dos vários Matheus) é sinal da benção de Deus.

Mas é preciso mais que um pedido de desculpas. É preciso uma outra percepção da vida, do ser humano e de nossos privilégios, que não nos foram “dados por Deus”, mas sim violentamente imposto sobre aqueles a quem consideramos menores, indignos, desalmados e malditos. É preciso cessar os discursos de demonização das religiões de matrizes africanas. É preciso, como diz Angela Davis, não somente não ser racista, mas ser antirracista. E isso de forma pública e notória. Enquanto não houver uma ação/prática em favor dos negros e negras do nosso país não acredito em pedido de perdão. Arrependimento que não leva à ação reparadora não é arrependimento, é remorso.

Quem pariu Mateus, o mal, que o embale. Assumamos nosso erro nesse sistema maldito e perverso. Aquele rapaz batendo no próprio braço branco e dizendo “você tem inveja disso aqui” somos eu e você, gente branca. Isso está na nossa estrutura. Somos isso. Enquanto não nos reconhecermos naquele monstro de Valinhos não teremos cura. Ou podemos fazer como ele, colocando a culpa numa “esquizofrenia”… Coisa bem típica de nós, brancos.

Nossa esquizofrenia tem nome: RACISMO!

E quero terminar lembrando de um outro ditado: “Cuidado pra não jogar o bebê fora com a água suja da bacia”. Só que, neste caso, quero ir contra o adágio popular. Quando o bebê é Mateus, o perverso, joguemos fora a água, o bebê e a bacia. Nada há de bom nessa história. Nada!

E pensar que, ironicamente, Matheus significa “presente de Deus”…

*Esse artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.

Zé Barbosa Junior
Zé Barbosa Junior
Teólogo, pastor da Comunidade Cristã da Lapa, escritor, membro do Comitê Estadual de Defesa da diversidade religiosa de MG