O que o brasileiro pensa?
09 de maio de 2020, 13h18

Quem quer ser Jesus Cristo?, por Alexandre Santos de Moraes

"No cenário atual, há duas pessoas que disputam o espólio dos símbolos de Jesus Cristo para cativar ainda mais os eleitores cristãos"

Foto: Roberto Jayme/Ascom/TSE

Por Alexandre Santos de Moraes*

Se tem um sujeito popular nesse país é Jesus Cristo. Entre católicos e evangélicos, cerca de 87% dos brasileiros são cristãos, o que eleva a divindade a uma posição de destaque. É bem verdade que há muitos “Jesus Cristos” em Jesus Cristo, mas a devoção permanece vívida no imaginário popular. Não é de se estranhar que, na ávida mendicância por popularidade, muitos políticos tentem emular seus símbolos. Não é novidade, diga-se de passagem: em sua famosa tela, Pedro Américo associou diversos símbolos cristãos ao Tiradentes esquartejado; Getúlio Vargas, em sua carta-testamento, seguiu o destino que lhe foi imposto e deixou a vida escrevendo que oferecia sua vida em holocausto em novo do povo brasileiro. No cenário atual, há duas pessoas que disputam o espólio dos símbolos de Jesus Cristo para cativar ainda mais os eleitores cristãos. 

Bolsonaro saiu na frente. O sobrenome “Messias” não passa despercebido, ainda que seja para lavar as mãos. No slogan que adotou para a fabricação de si como presidente, a ideia de “Deus acima de todos” não chega a torná-lo parte da Trindade, mas faz da religiosidade um valor que parece orientar suas decisões. Não menos curiosa é a evocação do Evangelho de João sempre que se sente acuado, como se a verdade estivesse com ele ou fosse, ele próprio, a personificação da Verdade. Também são frequentes as intervenções em que diz lutar contra o establishment, tratado como poderoso Império que busca crucificá-lo por acolher quem precisa de ajuda. 

Mas se essas e outras referências parecem demasiado genéricas, convém recordar algumas ocasiões em que Bolsonaro explorou essa imagem sem qualquer pudor. Em abril desse ano, ergueu um quadro com a imagem de Jesus Cristo acima de sua cabeça. No início de seu governo, compartilhou vídeo do pastor congolês Steven Kunda onde o religioso afirmava que Bolsonaro foi enviado por Deus para liderar um novo tempo. Além disso, estimula seu séquito a fazer o mesmo. Nas redes de WhatsApp, circula imagem que mostra o presidente assinando documento com a mão do próprio Cristo sobre a sua. Em maio do ano passado, o Ministro Ernesto Araújo, utilizando referências do Novo Testamento, disse que Bolsonaro seria a “pedra angular” do novo edifício que está sendo construído. Há muitos outros fatos, mas, como me falta onisciência, deixo apenas esses que me ocorrem.

O grande problema é que o Cristianismo é uma religião monoteísta e não admite a convivência de dois deuses. Tampouco faria sentido existirem dois “Jesus”, o que abre espaço para um disputa bizarra contra a concorrência. Quando a Mangueira exibiu um Jesus Cristo negro, com sangue indígena e rosto de mulher no desfile de 2020, Bolsonaro correu para desmentir ser aquela a imagem adequada do Messias. Não sabia ele que essa releitura não teria tanto poder como Sérgio Moro, antigo aliado que se torna o concorrente.

Não bastou a Sérgio Moro a pecha de “super-homem” encarnada em bonecos infláveis erguidos tantas vezes nos gramados de Brasília. Em seu discurso de demissão em 24 de abril desse ano, o ex-ministro de Bolsonaro decidiu enfrentar o antigo patrão também no terreno dos símbolos. Para isso, adotou a estratégia do sacrífico, uma das marcas mais poderosas do cristianismo ocidental. Logo no início de sua fala, recordou ter sido juiz federal por 22 anos. Aceitou largar a magistratura para se dedicar ao combate à corrupção fazendo uma única exigência: a concessão de uma pensão (sem previsibilidade legal) à sua família, caso fosse vítima de criminosos que teoricamente combatia. 

Durante o discurso, qual vítima de um terrível sistema que ele sugeria desconhecer apesar de ser parte dele, Moro lamenta as razões de sua saída e diz que vai “procurar um emprego” e que não enriqueceu, quase em tom de lamento, como se essa não fosse a solução adequada a ele que, tal como Jesus Cristo, ofereceu a vida para redimir a sociedade brasileira daquele que parece ser seu maior pecado. Finalizou seu discurso dizendo que estará à disposição do país onde quer que esteja, sempre respeitando aquele que foi seu “mandamento”, ainda que não escrito em placa de pedra: “Fazer a coisa certa, sempre”. 

A discussão ainda está viva. Bolsonaro não tardou para acusá-lo de traidor e usou a palavra “Judas” em tweet no dia 2 de maio, às vésperas do depoimento de Moro à Polícia Federal. Para atacar a concorrência, o presidente evocou a memória do apóstolo que entregou Jesus aos captores em troca de trinta moedas de prata e que, arrependido do seu ato, acabou se enforcando. Agora, são dois “Jesus Cristos” que disputam as orações do séquito fiel. Não é possível adular a ambos, afinal, com disse Matheus (6:24), “ninguém pode servir a dois senhores”, e essa competição entre falsos profetas persistirá através de símbolos da fé popular, da carência que surge das necessidades materiais, da esperança vã por um paraíso na Terra e a cura de todos os males. Em nome de Deus, seguem trabalhando de modo a causar inveja no mais terrível dos demônios. 

*Alexandre Santos de Moraes é professor do Departamento de História e do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense (UFF)

*Esse artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum