terça-feira, 27 out 2020
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Sem representatividade negra não há democracia, por Neudes Carvalho

As cotas são mais que necessárias para garantir mais pretos nas eleições. Mas, para além de concorrer aos cargos eletivos, é de extrema importância garantir mais pretos na composição dos diretórios, nas executivas nacionais dos partidos

Por Neudes Carvalho*

É unanimidade entre o movimento negro organizado que a única intersecção entre a esquerda e a direita é o racismo. A falta de diversidade nos partidos políticos ultrapassa a questão das eleições.  A falta de pluralidade nas cúpulas, a falta de representatividade nesse espaço de poder, é a prova de que os partidos ainda precisam avançar muito.

Porém, não se pode negar os feitos do PDT ao longo desses 40 anos no que tange a um diálogo respeitoso com os negros. Salve Lélia Gonzalez, Abdias do Nascimento, Carlos Caó. Escolhi o PDT para institucionalizar a minha militância por causa do compromisso histórico que o partido tem com a causa racial.

A nossa militância externa sempre foi muito respeitada pelo PDT e de cara a ideia de cotas para as eleições de 2020 foi muito bem acolhida por todos. Sabíamos que um partido como o PDT não precisaria de lei federal para pensar em proporcionar condições dignas para a pretitude nas eleições municipais.

As cotas são mais que necessárias para garantir mais pretos nas eleições. Mas, para além de concorrer aos cargos eletivos, é de extrema importância garantir mais pretos na composição dos diretórios, nas executivas nacionais dos partidos. Hoje o PDT tem na composição do Diretório Municipal de São Paulo 35% de negros e negras.

São avanços, mas não se pode parar por aí. Devemos observar as condições e oportunidades diferentes durante as eleições para pretos e brancos. Eleger candidaturas pretas não é nada fácil, por isso cada vez mais as direções dos partidos precisam se empenhar nessa função. Financiamento, espaço de TV, mídia externa, todos esses pontos são cruciais para definir a eleições de corpos pretos.

Decidimos com toda a executiva municipal do PDT que candidaturas femininas pretas terão 20% a mais do financiamento e as candidaturas masculinas pretas terão 10% a mais do financiamento para as eleições de 2020, além de um percentual mínimo de 30% de candidaturas pretas – e a chapa da eleição proporcional este ano tem 49% de negros e negras, ultrapassando de longe esse percentual.

Com poucos meses de filiação, na primeira conversa oficial com a direção do partido, fui informada que o partido tinha interesse nas “chapas coletivas”. O Movimento Negro do PDT já havia decidido que não fecharíamos a mesa da direção do grupo para um mandato coletivo, mas que ajudaríamos outros colegas a se encorajarem. Decidimos que abriríamos o partido para o maior número de pretos possível, a direção concordou e abraçou a ideia de cara, principalmente mirando as eleições de 2020.

Abrimos as portas e nomes potentes chegaram, como o pessoal do Parque dos Búfalos, com o Wesley Silvestre à frente, e o pessoal da chapa Periferia É o Centro, encabeçado pelo Jesus dos Santos da Bancada Ativista.

Tenho orgulho de ter sido uma espécie de chamariz para esses nomes e vários outros que se filiaram ao PDT, formaram seus coletivos ou se lançaram em candidaturas solo. É papel do Movimento Negro organizado e do Movimento Negro do PDT incidir nessas articulações.

Fui convidada pela branquitude a compor a direção do partido, hoje sou vice-presidenta do Diretório Municipal do PDT na cidade de São Paulo. É uma colocação muito importante, sim. É muita responsabilidade dar exemplo para os outros pretos de que esses lugares também devem ser ocupados por nós. Infelizmente isso ainda é raridade, mas não deveria ser. Não deveria causar espanto em outros companheiros, pretos ou brancos, que uma mulher preta possa compor a cúpula de um partido político. Mas infelizmente ainda causa surpresa. Embora a sociedade brasileira ainda precise avançar muito na luta antirracista, é fato que, se os partidos políticos estão avançando na discussão, muita coisa começa a mudar.

Sim, é responsabilidade social, é início de correção histórica e continuaremos a incidir com um diálogo qualificado para que cada vez mais toda a sociedade entenda que a luta antirracista é de responsabilidade de todos. E que as estruturas historicamente opressoras podem e devem ouvir a pretitude, a periferia e os povos dos territórios para que, de fato, as eleições comecem a ser processos democráticos. Não se consolida a democracia sem os dois maiores públicos demográficos desse país – as mulheres e os pretos – em representatividade e participação.

*Neudes Carvalho é vice-presidenta do Diretório Municipal do PDT, presidenta do Movimento Negro do PDT Municipal de São Paulo, vice-presidenta do Movimento Negro do PDT Estadual de São Paulo, coordenadora do Núcleo de Base Noroeste – Movimento de Moradia, cofundadora da Coletividade Somos Múltiplas.

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