terça-feira, 27 out 2020
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Só faltou falar do chupa-cabra: Papo de maluco vira política de Estado; por Henrique Rodrigues

É uma sensação de hospício em loop infinito. Cada delírio de Bolsonaro só inflama mais o radicalismo da seita, colocando o Brasil numa posição constrangedora: somos vistos como idiotas que aceitam a liderança de um lunático

Não foi a primeira vez e certamente não será a última. No entanto, quando a cascata de insanidades proferidas por Jair Bolsonaro jorra no discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU, a vergonha está garantida.

É incrível como absolutamente tudo que o presidente brasileiro disse em seu vídeo encaminhado para a sessão remota das Nações Unidas soa como maluquice, ou como algo cômico. Sempre que Bolsonaro fala essas coisas eu acabo me lembrando da infância, quando minha mãe não me deixava misturar leite com manga para não morrer, nem plantar bananeira para não virar o bucho.

Pura crendice.

Além das mentiras deslavadas, houve também momentos de puro cinismo, como por exemplo as afirmações de que em seu governo há “a prevalência dos direitos humanos” e “o combate com rigor e determinação aos focos criminosos de incêndio”. Inevitável não lembrar de Jorge Rafael Videla, ditador genocida argentino, que repetia em entrevistas coletivas o seu apreço pela vida dos compatriotas, enquanto matava milhares deles nos porões dos quartéis.

Em síntese, as palavras de Bolsonaro não apresentam qualquer resquício de realidade, isso na melhor das hipóteses. Mentir abertamente tornou-se compulsivo, ele já não consegue mais evitar.

Quero pedir licença aqui para usar uma frase do gigante José Saramago, só que adaptada ao chefe de Estado mais aloprado da Terra. Vejam: “dentro de Bolsonaro há uma coisa que não tem nome e essa coisa é exatamente o que ele é”.

Eu explico.

Não creio que tudo o que é dito e feito pelo presidente seja puramente fruto da estupidez. Há muita coisa nessa maluquice que tem segundas intenções e objetivos escusos. Muitos setores do capital permanecem o bajulando, com o intuito de auferir lucros ainda maiores com as estrepolias criminosas do pinochetista Paulo Guedes. No entanto, é perceptível que Bolsonaro gosta do papel ridículo e se comporta assim, de forma repugnante e tosca, porque isso tem tudo a ver com seu animus imbecillis.

Ou seja, independentemente de qualquer outro fator, é essencial para ele essa exposição permanente ao ridículo, pois Bolsonaro é somente isso. Chegou à Presidência da República por seu comportamento escatológico full-time e pelas bravatas sem nexo que refletiram como um espelho em boa parte dos brasileiros.

Entretanto, essa postura surreal e inimaginável até dois anos atrás para um mandatário da nação está sendo naturalizada e, pior, vem sendo tomada como regra, não como exceção.

O mundo nos encara como se fôssemos uma massa de bárbaros, enquanto Bolsonaro e sua equipe de ministros bisonhos olham para o mundo como se todas as lideranças estrangeiras fossem tolas. Na cabeça deles, Angela Merkel e Emmanuel Macron se informam pelo Whatsapp e pelo G1.

Esses caras acham que cola subir num palanque e falar para todo planeta que o fogo da Amazônia e do Pantanal é mentira. Acreditam que culpar os índios e caboclos pela tragédia das queimadas e desmatamento, que foram promessas de campanha do então candidato ao Planalto, é o suficiente para convencer líderes de outros países.

Que ingenuidade infantil pensar que as nações mundo afora precisam ouvir o que o governo brasileiro tem a dizer para saber o que se passa por aqui. Bolsonaro e seu time de birutas pueris gerenciam o país como se o Brasil fosse uma mescla de quitanda com 5ª série do Ensino Fundamental. Sua visão amadora envergonha.

Para nós, o problema é a repetição quase diária dessa tortura, que acarreta numa angústia interminável em quem tenta manter a sanidade em meio ao cenário de terra arrasada em que o Brasil se transformou num curtíssimo espaço de tempo.

É uma sensação de hospício em loop infinito. Cada delírio de Bolsonaro só inflama mais o radicalismo da seita, colocando o Brasil numa posição constrangedora: somos vistos como idiotas que aceitam a liderança de um lunático.

O que muita gente se pergunta é: qual será o real tamanho do prejuízo deixado por essa corja quando o pesadelo acabar? Será possível reverter tanta devastação?

Aliás, quando esse pesadelo acabará? As coisas andam tão fora do lugar que já não é possível afirmar nada. Não se sabe se essa obra dadaísta mal-ajambrada que assombra o Brasil chegará ao fim do mandato. Também não se sabe se fará só um mandato. Tampouco sabemos se tentará uma ruptura institucional (que é seu grande desejo).

A única coisa de que temos certeza é em relação à continuidade, por ora, da distopia que nos sufoca. A matilha do ódio permanece a todo vapor, com a gritaria incessante, usando a irracionalidade como matéria-prima. Ela é a caixa de ressonância de Bolsonaro. É para esse limo social que ele fala, seja em suas lives abobadas ou no púlpito da ONU.

Ao que tudo indica, ele continuará falando, como sempre fez. A única diferença é que agora o papo de maluco virou política oficial de Estado no Brasil.

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Esse artigo não reflete necessariamente a opinião da Revista Fórum

Henrique Rodrigues
Henrique Rodrigues
Jornalista e professor de Literatura Brasileira.