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03 de janeiro de 2020, 21h57

Trump, Irã e Iraque: (ainda) não estamos à beira da III Guerra Mundial

Yuri Soares: "Antes de nos alarmarmos é preciso analisar a resposta dos demais atores envolvidos na região"

Foto: Majid Saeedi/Getty Images

Por Yuri Soares*

O governo dos Estados Unidos confirmou que bombardeou e assassinou o general iraniano Suleimani em solo iraquiano utilizando um drone. Esta é mais uma agressão de uma longa lista de um conflito que claramente está tendo uma escalada no Oriente Médio. Este foi um ato claramente imperialista utilizando táticas terroristas.

Observando as reações nas redes sociais e o tom alarmista de muitos veículos midiáticos, fica-se mais uma vez com a impressão de estarmos mais perto do que nunca de um novo conflito militar de proporções globais.

Como sempre, está em disputa um país estratégico: produtor de petróleo, rico e com uma grande população de 38 milhões de pessoas. Com este ataque, Trump manda a clara mensagem de que deseja os iranianos fora do solo iraquiano, buscando colocar o país unicamente sob a tutela estadunidense.

Após a Guerra do Iraque e a derrubada de Saddam Hussein em 2003, que era sunita e inimigo do Irã, as sucessivas eleições deram cada vez mais poder para a maioria xiita da população iraquiana. O Irã assistiu a derrubada de seu inimigo Hussein e ganhou um governo aliado na região sem esforço. Com o crescimento do ISIS (autoproclamado Estado Islâmico), que chegou a ocupar um terço do país, o governo do Iraque buscou apoio tanto do governo dos Estados Unidos quanto do Irã. A ofensiva foi um sucesso militar e o ISIS foi derrotado, mas se criou um impasse: nem iranianos nem estadunidenses querem abrir mão de suas posições conquistadas em solo iraquiano.

Antes de nos alarmarmos é preciso analisar a resposta dos demais atores envolvidos na região. Além das já esperadas manifestações de rua, os governos da França, Alemanha e da China condenaram a escalada, assim como a Rússia. Mas todos estes responderam com um tom moderado, evitando jogar ainda mais lenha na fogueira e apelando para uma desescalada das tensões.

O próprio governo iraniano afirmou que “vamos nos vingar dos EUA na hora e no lugar certos”. Podemos interpretar isso como aquele velho ditado que afirma “a vingança é um prato que se come frio”. Por enquanto, o sentimento de unidade nacional frente a uma agressão estrangeira e a solidariedade de setores políticos da região e do mundo é o suficiente para o governo iraniano planejar os próximos passos. Eu apostaria muito mais em um engajamento ainda maior do país persa em outros conflitos da região (Síria, Iêmen, o próprio Iraque, etc) e numa retomada do programa nuclear iraniano do que um ataque frontal suicida aos EUA. O país dos aiatolás não é governado por um monte de malucos irresponsáveis. Vale lembrar que antes de tudo são herdeiros geopolíticos do antigo Império Persa. Conhecem bem a região e sabem como lidar com os diversos jogadores do tabuleiro.

Israel como sempre apoiou o governo dos Estados Unidos, mas isso não é de grande relevância. O governo israelense jamais iria iniciar um conflito direto dessa magnitude sem autorização e participação direta dos EUA.

Uma guerra direta com o Irã ainda não é do interesse dos EUA. Vale lembrar que o país além de rico, possui 80 milhões de habitantes. O governo, ao que tudo indica, conta com real apoio popular, um forte exército e é apoiado pela Rússia. Somente o fato de serem capazes de influenciar e intervir em assuntos de outros países da região já é um bom demonstrativo da força do governo iraniano. Seria muita inocência acreditar que qualquer conflito direto ficaria restrito dentro das fronteiras iranianas.

Ao contrário do que muitos pensam e afirmam, Trump não é um lunático, mas possui uma tática própria (ainda que a estratégia seja nebulosa por enquanto). Ele bombardeou Suleimani em solo iraquiano e não iraniano. Suas declarações são no sentido de buscar um acordo, tendo chegado a afirmar após o bombardeio que “o Irã nunca ganhou uma guerra, mas nunca perdeu uma negociação”. Esta mesma tática está sendo utilizada com a China: impõe barreiras absurdas para depois buscar um acordo mais benéfico para os EUA.

Trump utiliza a diplomacia do canhão: atira primeiro e depois chama para a mesa de negociações. Não que isso vá funcionar no longo prazo, como já começamos a perceber no caso da Coréia do Norte (lembremos que ele começou ameaçando os norte-coreanos dizendo que iriam “sentir fogo e fúria como o mundo nunca viu antes” pouco antes de chamar Kim Jong-un para conversar). Mas essa tática funciona no curto prazo, logrando congelar por algum tempo o status quo de uma potência em declínio relativo. Para Trump isso basta.

O mais provável no curto e mesmo médio prazo é a continuidade de escaramuças e agressões de parte a parte, com impacto direto nas disputas pelo Oriente Médio onde, ao que tudo indica, no plano geral a influência dos EUA tem diminuído e aumentado a influência do Irã e Rússia. Exemplos? Além da própria aliança entre os governos do Iraque e do Irã, a continuidade de Assad no governo da Síria, ocupando cada vez mais espaços antes comandados pelos rebeldes, a incapacidade da Arábia Saudita de derrotar os militantes xiitas no Iêmen, a compra de mísseis anti-aéreos russos por parte da Turquia (sob fortes críticas dos EUA e da OTAN) além de partidos e milícias espalhadas por vários países da região, incluindo o Hezbollah, que além de movimento armado também possui presença institucional no parlamento do Líbano.

A tendência é de piora no conflito, com cada parte buscando cada vez mais se armar, ocupar espaços e fazer propaganda das suas posições. Isto deve durar pelo menos até as eleições presidenciais nos EUA, onde Trump pretende apresentar, além das pautas econômicas como crescimento econômico e emprego obtidos através de um protecionismo comercial que só eles podem praticar, um tom belicoso de um país que se impõe pela força no tabuleiro global sem consultar ninguém. Mas tudo isso sem guerra aberta, por enquanto. As feridas das guerras no Afeganistão e Iraque ainda estão abertas. Vale lembrar que entre bombardeios com drones e enviar tropas e ocupar o país com botas no chão há uma grande distância e custo de vidas.

Crise no Oriente Médio não é novidade há pelos menos uns 3 mil anos. Todos os atores que atuam por lá sabem disso na hora de se movimentar no meio deste caos.

Cabe a nós brasileiros fazer a denúncia dos interesses espúrios por trás dessa agressão. Também devemos pressionar para que o governo brasileiro não embarque em nenhum tipo de atitude que ajude a inflamar ainda mais a região ou mesmo nos coloque dentro de um conflito que não é nosso. Buscar a paz no Oriente Médio e na América Latina é o nosso interesse!

*Yuri Soares é professor de História da SEEDF  e mestrando em História na UnB

Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

 

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