Uma carta para Belchior – Por Kerison Lopes

Agora que você partiu, só se fala em Belchior. Tarde demais, você já não está entre nós. Mas o importante é que suas poesias são cada vez mais conhecidas e seus ensinamentos chegam mais longe

Por Kerison Lopes *

Bel, hoje faz quatro anos que você partiu. Aqui no nosso mundo as coisas mudaram muito, principalmente em relação ao seu legado. Você tem feito muito sucesso. Só neste ano serão lançados quatro filmes sobre sua história.

Livros são escritos resgatando cada parte da sua vida. Recentemente, foi lançado um road book de dois jornalistas que percorreram cada pedaço de chão que você e Edna passaram pelo Sul em autoexílio. Antes disso, outro jornalista escreveu sua biografia, que vendeu muito.

Suas músicas, Bel, todo mundo quer regravar. Um rapper paulista chamado Emicida fez um sampler sobre Sujeito de Sorte que estourou tanto que virou até documentário, com o nome de AmarElo. A regravação foi importante porque uma moçada mais nova, que nem te conheceu em vida, se apaixonou por ti. Lembra daquela imagem icônica do Che Guevara em silhueta que estampava camisas? Agora é sua cara que está desenhada em camisetas. Até tatuagem tem gente fazendo com seu rosto.

O seu bloco, o Volta Belchior, cresceu muito. Ele foi criado, aqui em Belo Horizonte, quando você ainda estava no Sul e o nome já diz a que veio. Em 2020, no último carnaval, tinha mais de 150 mil pessoas atrás do trio elétrico. Fico curioso em saber se você já fez um show com tanta gente.

Bel, esse ano não teve carnaval. Tem uma pandemia de um vírus que está matando milhões de pessoas no mundo. Lembra como de você ficou isolado naquelas casas do Sul? Então, agora estamos desse jeito, em isolamento social.

O Brasil é o mais atingido pela pandemia, pois tem um presidente que está cometendo um genocídio, que já matou mais de 400 mil pessoas. Se eu te falar o nome dele você não vai acreditar: Bolsonaro. Ele mesmo, aquele deputado que defendia a ditadura, a tortura, as mortes e tudo que há de ruim, chegou ao poder.

Estou convicto que você sacou antes essa desgraça e por isso se refugiou longe da civilização, que começava a adoecer. Mas o mundo sempre foi muito injusto. Uma prova é o seu sucesso depois da sua morte. Sei que um dos motivos que saiu de cena é que já não davam mais o valor que sua obra merece. Que seus discos já não vendiam tanto, seus shows não lotavam.

Agora que você partiu, só se fala em Belchior. Tarde demais, você já não está entre nós. Mas o importante é que suas poesias são cada vez mais conhecidas e seus ensinamentos chegam mais longe. E eles nos ajudam a enfrentar as tristezas e a lutar pelo mundo que você sonhou.

Do seu eterno discípulo Kerison, fundador do Volta Belchior.

*Kerison Lopes é presidente da Casa do Jornalista de Minas Gerais, ex-presidente da UBES e do Sindicato dos Jornalistas e fundador do Bloco Volta Belchior.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.