Fórum leva novos ventos à Primavera Árabe

Cinquenta mil pessoas, duas belas e empolgantes marchas e cinco dias de centenas de debates e atividades. O FSM em Túnis foi tão importante para os tunisianos quanto para as delegações internacionais que puderam começar a entender um pouco mais do mundo árabe

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Por Renato Rovai. Fotos de Adriana Delorenzo.

Foi na Tunísia que a Primavera Árabe começou. Em 17 de dezembro de 2010, o vendedor ambulante Adel Khadri, de 27 anos, colocou fogo no próprio corpo, no centro de Túnis, ao ter sua mercadoria apreendida. Isso desencadeou uma onda de protestos logo denominada de revolução. Em 14 de janeiro de 2011, o ditador Zine el-Abidine Ben Ali pegava um avião e fugia do país. A revolução havia sido vitoriosa.

Movimentos surgiram ao mesmo tempo em outros países e, no Egito, outro ditador, Hosni Mubarak, foi para o ralo da história apenas com a ação do povo em redes e nas ruas. Na Líbia, num processo bastante diferente, com contribuição de forças militares externas, Muamar Kadafi também foi deposto. E assassinado de forma grotesca. Bashar al-Assad ainda continua presidente da Síria, mas, ao que parece, os ventos que derrubaram Ben Ali na Tunísia também o levarão. Não se pode falar de uma única Primavera Árabe. Mas, sem dúvida, o que aconteceu em Túnis foi o início de um processo que levou vários países da região a questionar o poder imperial de alguns governantes. O que não é pouca coisa.

No entanto, isso está longe de significar que tudo ou muito mudou na região. Após dois anos, a Tunísia tem um governo de direita que não convoca eleições e, ao mesmo tempo, assume o controle do país a partir de uma ação fundamentalista religiosa (ver matéria na página 8). Ou seja, como disse o sindicalista Mezni Houcine, secretário-geral do Sindicato dos Enfermeiros, “acabamos fazendo a revolução para resolver o problema deles”, referindo-se ao fato de que a ditadura de Ben Ali já estava em crise e a direita se aproveitou de sua queda para se reinstalar no poder com outro projeto.

Mas quem apostar que isso confirma a tese de que a Primavera Árabe não foi nada além do que um sonho de verão tende a perder. O Fórum Social Mundial de Túnis foi uma das melhores edições da história desse processo que se iniciou em Porto Alegre, em 2001. A força dos movimentos sociais e da esquerda do norte da África e da região do Magreb ficou evidente em muitos momentos. Podem-se destacar desde a grande mobilização (aproximadamente 50 mil pessoas participaram) até a força das duas belas marchas realizadas (uma de abertura e outra de encerramento).

Entre outras coisas, o que surpreendeu boa parte da delegação internacional foi a grande presença de jovens no território do evento e a consciência política desses garotos e garotas. A análise de conjuntura feita por Dhia Fadhlouv, 19 anos, estudante secundarista da área de informática e militante do Partido Comunista, sobre o momento do país e o processo do FSM, demonstra grande maturidade. “Se a gente não conseguir interromper esse governo, em cinco, dez anos teremos uma religião governando o país.” Ele acha que até por isso o fato de o FSM ter acontecido na Tunísia foi importante. “Porque, além de trazer muitas pessoas de diferentes países com informações diferentes para cá, nos permitiu também ampliar o contato com gente da América Latina. E vocês não vivem em ditaduras. Vivem em democracias e estão conseguindo melhorar de vida nesse sistema, o que é um exemplo para nós.” Outro fator destacado por ele é a unidade entre os povos no contexto latino-americano. “Lá, vocês não têm guerras. E gostam uns dos outros. Isso é um exemplo para nós.”

Um dos pais do FSM, o ex-diretor do Le Monde Diplomatique, Bernard Cassen, estava muito satisfeito com o que viu em Túnis. Ele acha que o FSM da Tunísia pode ter sido importante para que movimentos sociais e líderes políticos de vários países do mundo passem a entender melhor o que se passa no mundo árabe. E também abre um parêntese especial para falar da América Latina. “A esquerda latino-americana perdeu uma grande oportunidade há dois anos, quando acontecia a Primavera Árabe. E isso aconteceu por falta de informação. Não havia nenhuma conexão entre os movimentos e suas lideranças com esses movimentos daqui. E essa falta de informação fez com que alguns líderes importantes, como Chávez, tomassem decisões equivocadas. Quando queria se informar sobre o que estava ocorrendo aqui, Chávez ligava para Kadafi. Um equívoco completo”, ressaltou.

Chistophe Venture, membro do Conselho Internacional e da organização Mémoir des Luttes, é um dos que avaliam que o Fórum de Túnis foi um dos melhores dos últimos anos. Para ele, isso se deve ao fato de ter acontecido num contexto único. “Num momento em que a Tunísia vive uma situação política instável, mas de muitas possibilidades.” Venture também chama atenção para o fato de, num primeiro momento, o FSM ter sido muito importante para a América Latina, especialmente para o Brasil, e que agora está se tornando muito importante para essa região. “O FSM de Dacar já foi o início desse processo. Acho que isso nos dá espaço para novas lutas regionais. Aqui se está criando um campo de luta euro-mediterrânico”, acrescentou.

O midialivrista italiano Antonio Paco, que participa desde o início do processo do FSM, concorda que o evento de Túnis foi bastante interessante, mas relativiza. “Foi um processo como costuma ser o FSM. Tem um processo diferente por causa dos debates com temas da religião, da secularização, de gênero etc. Mas acho que precisamos lembrar que faltou a África negra aqui, o que seria muito importante. Creio muitíssimo que o Fórum é uma das grandes invenções da gente da esquerda. Não gosto deste nome de ‘sociedade civil’. É um nome muito americano. Nós somos de esquerda, acho que é isso que nos define. Esse processo precisa continuar exatamente por isso.”

O belga François Houtart também faz uma defesa da continuidade do processo do FSM, que vem sendo questionado nos últimos tempos por alguns movimentos e lideranças. “Penso que há duas coisas que devemos dizer. Primeiro, que os fóruns devem continuar. Há muitos que dizem que os fóruns já se esgotaram, porque sempre se repetem as mesmas coisas. Mas aqui, o fato de o Fórum ter sido feito na Tunísia, no mundo árabe, foi fundamental para o mundo árabe. Porque para eles é uma coisa nova e, ao mesmo tempo, é uma oportunidade para que sejam conhecidos por outros movimentos do mundo”, sustenta. “Também acho que devemos continuar porque os fóruns ajudam a criar uma consciência universal e a organizar redes. E isso não está terminado. Há também gente que vive pedindo o fim dos fóruns porque dizem que a realidade não muda só por discursos. Alguns falam, vocês discutem, cantam e dançam juntos, e enquanto isso o sistema continua. Sim, claro, devemos encontrar maneiras de ter agendas comuns de ação. E por isso me parece que também devemos pensar teoricamente. Discutir uma base teórica para um projeto de mudança com escala mundial, diante de um sistema que é mundial. Evidentemente que, também aqui no Fórum, há organizações que não são antissistêmicas. E temos que lutar para que não dominem o FSM e para que o discurso fundamental seja antissistêmico.”

O brasileiro Chico Whitaker, membro do Conselho Internacional e quase um porta-voz não oficial do FSM, mantém seu entusiasmo com o processo. “Eu diria que o FSM, pela forma como é, acaba sendo muito importante por onde passa. Você se lembra do FSM de Mumbai, na Índia? Ele também foi fantástico e muito útil para os movimentos sociais do país. A questão de onde fazer o Fórum tem de ter sempre essa resposta, onde ele é positivo e necessário. Aqui na região do Magreb, eles têm sido muito importantes. Não só esse Mundial, mas os regionais. Acho que precisamos fazer mais fóruns nacionais e temáticos. Temos, por exemplo, o projeto de fazer um Fórum Social Temático de Energia, em outubro, em Brasília para discutir Belo Monte, pré-sal, energia nuclear, entre outras coisas. Imagine você, o que isso poderia ser útil para o nosso processo do Brasil…”

Chico Whitaker já adiantou que uma das hipóteses que estão sendo consideradas para o próximo FSM é de realizá-lo no Canadá, em Quebec. “Poderíamos ter o encontro dos aborígenes de lá com os da América Latina. Isso também seria muito interessante”, finalizou. F