1984: 25 de janeiro e as redes de esperança

Naquele ano, o aniversário de São Paulo foi também a data em que o povo começou a sair às ruas para pedir Diretas Já. Muito antes da internet, a organização em rede mostrava a sua força

Por Sergio Amadeu da Silveira

(Imagem: Divulgação)
(Imagem: Divulgação)

1984 é o título do livro de George Orwell que consolidara a metáfora do Big Brother, do vigilantismo do poder totalitário. No Brasil, 1984 chegou e começou como um ano de esperança para milhões de brasileiros. O país era governado por generais desde 1964. No início daquele ano, o movimento pela democratização parecia ter uma força inquebrantável. As pessoas estavam confiantes na força do novo sindicalismo, do movimento estudantil, das organizações de bairro e dos partidos de oposição que haviam dado uma surra nas eleições de 1982 nos candidatos do regime militar.

O dia 25 de janeiro de 1984 não trazia apenas mais um aniversário de São Paulo. Era um dia para medir forças com a ditadura. Na Praça da Sé, a frente que organizava o movimento pelas Diretas Já convocou o primeiro ato do ano pela aprovação da emenda que restabeleceria as eleições diretas para presidente da República. Milhares de panfletos foram impressos, algumas centenas de militantes políticos, estudantes, operários, mulheres das comunidades de base, enfim muitas lideranças do povo se empenharam em distribui-los desde os primeiros dias do ano novo.

Não havia medo. Havia, sim, muita expectativa. Quantas pessoas iriam na Praça da Sé? Os militantes faziam prognósticos enquanto panfletavam feiras, estações de trem, terminais de ônibus e portas de fábrica. Não existiam telefones celulares no país e organizar as ações exigia muito esforço e disciplina. Hoje, fico pensando nas facilidades da comunicação em rede, dos e-mails e das redes sociais que não tínhamos. Mas estávamos decididos e acreditávamos em um programa de liberdades democráticas. Muitos de nós, militantes de esquerda revolucionária, considerávamos a implantação da democracia um elemento fundamental que abriria espaço para a luta contra as injustiças sociais e contra as profundas desigualdades econômicas e pela construção do socialismo.

Osmar Santos apresentou o comício da Sé. O governador Franco Montoro, Lula, José Dirceu, Fernando Henrique Cardoso, Mario Covas estavam lá. Foi impressionante. A energia positiva contagiava. Sabíamos que os militares e as forças conservadoras iriam resistir, mas tínhamos muita disposição de dedicar boa parte de nossas vidas para aprovar a emenda do deputado Dante de Oliveira, a emenda das Diretas Já.

Notícia do comício da Praça da Sé na Folha de S. Paulo (
Notícia do comício da Praça da Sé na Folha de S. Paulo (Reprodução)

Foi ali na Sé, naquele dia 25 de janeiro de 1984, que um grupo de militantes de esquerda (eu era um deles, ao final do ato que reuniu mais de 200 mil pessoas) começou uma conversa sobre o que fazer para minar ainda mais as forças da ditadura militar. Não me lembro bem, mas poucos dias depois, bolamos uma ação em rede, anônima, que mostraria a indignação do povo diante do regime. Assim, surgiu a “Noite do Barulho”. Breno, Valdemir, Maninho, Mauricio, Reinaldo, Gladis, eu e outros militantes começamos a distribuir milhares de pequenas filipetas com os dizeres: “No dia 24 de Abril de 1984, às 20h, solte um rojão pela Diretas Já”.

Acreditávamos na adesão massiva das pessoas que eram acostumadas a lidar com fogos de artifício no Natal, no Ano Novo, no nascimento da filha ou filho, nas festas juninas, na comemoração do tão esperado gol do time querido. Fizemos o que hoje chamamos de viral, sem a rede de computadores.

Deu certo. A rede social pela democracia era muito vigorosa. A idéia-força havia ganho o coração da maioria das pessoas.

No dia 16 de abril, aproximadamente 1,5 milhão de pessoas foram ao Vale do Anhangabaú participar de mais um ato, o maior deles, talvez o maior da nossa história, em apoio à emenda pelas Diretas Já. Lá, soltamos outras milhares de filipetas chamando a Noite do Barulho. Muita gente dizia que já tinha comprado seus fogos. O truculento general Newton Cruz afirmou que os subversivos distribuíam uma filipeta apócrifa chamando a queima de rojões na véspera da votação da emenda Dante de Oliveira. Mentira: nenhum helicóptero soltou filipeta alguma. A verdade é que a convocação da manifestação não tinha assinatura de ninguém. Era como um meme lançado nas redes digitais vindo não se sabe de onde.

Enfim, o dia 24 chegou. São Paulo estourou milhares de fogos. Estava na Serra da Cantareira para ver se a manifestação tinha dado certo. Foi emocionante. Parecia uma grande festa. Norte a sul, leste a oeste, os céus mostravam a esperança. Parecia que um ano novo havia chegado. Naquele momento, tive a certeza que se perdêssemos a votação da emenda das Diretas Já por uma manobra da ditadura, poderíamos derrubar o governo. No dia seguinte, perdemos a votação da emenda. Infelizmente, não conseguimos coesão para chamar uma greve geral pela derrubada do governo. A transação por cima se consolidou e a ditadura perdeu a eleição indireta para Tancredo Neves. Este morreu antes de assumir e o ex-presidente da Arena, José Sarney, virou o presidente da transição lenta gradual e segura.

Aprendi muito nesse processo, mas o que mais me impactou foi a ideia de rede e a força de um símbolo que gera a adesão viral a uma ação. Depois andei me esquecendo disso, mas a internet está aí para viabilizar ações que mobilizem os corações e indignem as cabeças. Precisamos construir as novas causas mobilizadoras e os novos processos de interação. Chega de pacto de elites.