O reinado tucano ameaçado na reeleição de Alckmin

Em São Paulo, partido enfrenta dificuldades que podem colocar fim a quase 20 anos seguidos de gestões do PSDB

Por Glauco Faria

Geraldo Alckmin (Foto: Marcelo Camargo/ABr)
Geraldo Alckmin (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

Geraldo Alckmin é favorito para ganhar mais uma vez o governo de São Paulo para o PSDB, assegurando a sexta gestão seguida para o seu partido no Estado mais rico da federação. Pode-se tirar essa conclusão com base na última pesquisa Datafolha, divulgada em dezembro de 2013, na qual o tucano tem 43% das intenções de voto, índice que lhe garantiria uma vitória no primeiro turno, e 41% de avaliação ótimo/bom para seu mandato. No entanto, comparando-se outros levantamentos e analisando o cenário político atual, também é possível dizer que o partido que comanda São Paulo desde 1994 não chega tão fragilizado à disputa desde 2002, quando o quase neófito Alckmin bateu o petista José Genoino no segundo turno.

Tomando-se como referência, por exemplo, o levantamento do Datafolha de dezembro de 2009, o nome de Alckmin, nos diferentes cenários possíveis àquela altura quando se especulavam candidaturas de nomes conhecidos como Marta Suplicy, Ciro Gomes e Paulo Maluf, o peessedebista tinha entre 50% e 54% da preferência do eleitorado, números superiores aos de agora. Mesmo assim, evitou o segundo turno nas eleições de 2010 por uma margem apertada, 0,63% dos votos.

Já em dezembro de 2005, o PSDB não tinha ainda um nome certo para a disputa estadual, pois Alckmin era o virtual candidato à presidência e José Serra, prefeito de São Paulo, ainda se via preso entre uma possível candidatura ao Planalto e a sua promessa de não sair da prefeitura da capital paulista. À época, uma pesquisa do instituto da Folha de S.Paulo também lhe dava uma avaliação bem melhor do que a atual: 62% dos paulistas consideravam sua gestão ótima ou boa, índice 50% melhor do que o ostentado atualmente. Quando Serra decidiu ser candidato ao Palácio dos Bandeirantes, em março de 2006, seu ponto de partida também era melhor que o do governador hoje, variando entre 52% e 58%.

Gilberto Kassab (Foto: BIDtransporte / Flickr)
Gilberto Kassab (Foto: BIDtransporte / Flickr)

Alguns dos pontos fracos da atual gestão já se tornaram alvo de possíveis adversários do tucano. O ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD) lançou sua candidatura ao governo e a do ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, ao Senado, focando no calcanhar de Aquiles do governador: a segurança pública. “Os servidores, em especial os policiais, precisam ser mais valorizados, receber melhores salários. O estado precisa investir em equipamentos, a Polícia Civil precisa recuperar poder de investigação e a Polícia Militar sua autoestima”, disse.

Em novembro de 2012, uma onda de violência que gerou choques entre policiais e integrantes do PCC causou uma queda na popularidade de Alckmin, que chegou a ter 29% de ótimo/bom, índice próximo dos que consideravam seu governo ruim/péssimo, 25%. Desde então, houve uma recuperação e nova queda após as manifestações de junho, que atingiram quase todos os governantes brasileiros, mas marcadas pela violência policial em São Paulo, rejeitada por grande parte da população.

Para consolidar uma nova recuperação em sua aprovação, o governador de São Paulo anunciou a criação, em 20 de janeiro, de um plano de bônus e metas para reduzir os índices de criminalidade. A proposta concebe que o policial possa receber bônus de até R$ 2 mil caso alcance metas trimestrais e regionais na redução do número de ocorrências como roubos, furtos e roubos de veículos, latrocínios e homicídios.

A medida recebeu críticas de associações e sindicatos – o que justifica o “afago” de Kassab – como a feita pelo presidente da Feipol/Sudeste, Aparecido Lima de Carvalho (Kiko). “Esta é mais uma medida insuficiente e paliativa que se traduz em benefícios efetivos aos companheiros, que estão todos os dias expostos no campo de batalha em condições na maioria das vezes inferiores aos criminosos”, analisou. “Pessoalmente, acho que é uma medida que não ajuda em nada. O policial precisa de estrutura e bom salário. E mais uma vez, como sempre o governo faz, deixaram os inativos de fora”, avaliou o diretor do Sipolice (Sindicato dos Policiais Civis do Estado de São Paulo), José Roberto Ducati.

As frentes de Alckmin

Paulo Skaf (http://www.flickr.com/photos/felipemaxfotografia/)
Paulo Skaf (www.flickr.com/photos/felipemaxfotografia/)

Mas não é só a segurança pública que tira o sono do governador. O chamado “Trensalão”, esquema de propinas e superfaturamento que pode chegar a R$ 1 bilhão, de acordo com as últimas denúncias, tem rendido notícias todos os dias mesmo na mídia tradicional. Ainda que a divulgação de dados a conta-gotas ajude a diluir o tamanho do escândalo, o tema certamente fará parte da campanha eleitoral.

Além da corrupção que pode ter perpassado vários governos tucanos, tendo origem na gestão de Mario Covas, o sistema de transporte público como um todo, mote principal das Jornadas de Junho, é outro pedaço do telhado de vidro do governador. Levantamento feito pelo jornal Folha de S.Paulo mostrou que, no segundo semestre de 2013, 25% dos compromissos de Alckmin em sua agenda oficial diziam respeito a eventos relacionados à área de transportes.

O Programa Estadual de Habitação também ocupou um bom espaço da agenda do governador e dará a ele a chance de visitar em 2014 cidades da região metropolitana de São Paulo, onde o PSDB tem menos apoio do que no interior do Estado, cuja votação nas pequenas e médias cidades têm sacramentado só triunfos tucanos.

Mais nomes na disputa

Em 2010, Alckmin conseguiu vencer no primeiro turno, repetindo 2006, ocasião em que José Serra triunfou da mesma forma. No entanto, Aloizio Mercadante, seu adversário, alcançou 35,23% dos votos válidos, maior votação recebida pelo PT em um primeiro turno na disputa pelo governo paulista. A eleição não foi para uma segunda volta por conta da fraqueza dos outros adversários. Celso Russomanno (PP) teve 5,42%; Paulo Skaf (PSB), 4,56% e Fabio Feldmann (PV), 4,13%.

Agora, o quadro é distinto. Skaf sairá candidato pelo PMDB, que tem uma estrutura consolidada justamente nos municípios menores, que votam nos candidatos tucanos. Ele conta ainda com os vultosos investimentos em propaganda institucional da Fiesp, Sesi e Senai, um total recorde de R$ 32 milhões para 2014, mesmo montante do ano passado. Na maioria das peças publicitárias, Skaf foi o protagonista, o que lhe rendeu bons porcentuais em pesquisas – 19% no Datafolha de dezembro – e também uma representação movida pelo PSDB junto ao Ministério Público Eleitoral por propaganda antecipada. A postulação de Skaf tira ainda o principal partido aliado dos tucanos em 2010, já que os peemedebistas estiveram junto com Alckmin em um acordo costurado pelo falecido Orestes Quércia.

Alexandre Padilha (Foto: Fernando Ramos Silva/Vermelho)
Alexandre Padilha (Foto: Fernando Ramos Silva/Vermelho)

Outro ponto preocupante para Alckmin é o provável crescimento da candidatura Padilha, que, por enquanto, aparece com 4% nas pesquisas. Com a exposição de seu nome e o apoio de Lula, o ex-ministro da Saúde deve tirar parte dos votos que hoje estão com o governador pelo chamado “recall”. O petista pretende ainda reeditar as “caravanas da cidadania”, feitas por Lula após a derrota de 1989, e tentar quebrar a resistência ao PT no interior, onde o programa Mais Médicos tem sido bem recebido pela população.

Diante do panorama, o melhor para Alckmin seria a retirada de um dos nomes que disputam o campo conservador, o que facilitaria a polarização com os petistas, situação que tem sido favorável aos tucanos paulistas. Mas, ao que tudo indica, nem as denúncias contra Kassab, tampouco a pressão sobre Skaf, indicam para uma desistência de um dos dois. Por ora, Alckmin vai ter que trabalhar com a perspectiva de uma disputa em dois turnos. E a probabilidade de ficar isolado no turno final.