Sem emprego para trans

O preconceito afasta as pessoas transgêneros da escola, reduz oportunidades de trabalho e abre as portas da prostituição

Por Isadora Otoni

Na última quarta-feira (29), várias campanhas foram lançadas na internet em função do Dia Nacional da Visibilidade Trans. As pessoas transgêneros denunciaram diversas vertentes da transfobia, presente inclusive nos movimentos LGBT e feministas. Em uma entrevista para o site da Fórum, a militante transfeminista e diretora do Fórum da Juventude LGBT Paulista Daniela Andrade contou o que sofrem: “Essas pessoas estão marginalizadas, alijadas dos bancos das escolas e universidades, preteridas no mercado de trabalho, sendo forçadas a se prostituírem, tendo o gênero deslegitimado diuturnamente, sendo agredidas por uma sociedade que não nos considera gente, que não vê humanidade em nós”.

L.R., de 18 anos, admite que já pensou em sair da escola por causa da transfobia. “Ano passado eu cheguei a quase fechar a matrícula do cursinho por isso, mas só faltavam dois meses pra acabar mesmo, e decidi ficar mesmo assim. Mas passava mais tempo na sala de estudos do que dentro da sala de aula”, contou ele, que é homem trans e mora em Vitória, capital de Espírito Santo. “Quando eu assumia minha condição abertamente, eram comuns piadas sobre ser ‘menina macho’, me chamarem de ‘traveco’, coisas desse tipo”. Entretanto, para ele, o pior preconceito era o que ele sofria pela direção do colégio particular, que não usava o seu nome social. “É constrangedor quando você está em uma sala de aula rodeado de pessoas e pra fazer chamada gritam seu nome de RG. Eu, no ensino médio, nem respondia quando isso acontecia. Conversei com professor por professor até que aceitassem me chamar pelo nome social. No banheiro, não ia por medo de me verem entrando ou saindo de lá.”

No mesmo colégio, L.R. fez o curso pré-vestibular e sofreu novamente com a transfobia da direção. “No colégio, eles colocavam as carteiras de estudante uma do lado da outra para os alunos pegarem na saída. Pedi para usar meu nome social ou pra, pelo menos, deixarem minha carteira de estudante guardada no fim da aula, mas disseram que isso era contra a lei e contra regras do colégio”, relatou. O uso do banheiro continuou sendo uma situação constrangedora: “Disseram que não poderiam me deixar usar o banheiro do meu ‘sexo oposto’ porque isso iria constranger os outros alunos”.

As dificuldades de L.R. continuam. Ele ainda não conseguiu ter acesso ao ensino superior, e um dos motivos foi o tratamento inadequado que recebeu durante o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) de 2013. “Meu rendimento foi bem ruim porque me acusaram de falsidade ideológica. Falaram que tinham que fazer um processo pra verificar se era mesmo minha identidade porque não acreditavam que a foto e nome eram meus”, disse.

Thiago Gonçalves, de 20 anos, acredita que sua dificuldade para arrumar um emprego se deve à transfobia. “De todas as vezes que fui chamado para a entrevista, no mesmo momento falavam que a vaga não estava mais disponível. Eu ainda não mudei o nome dos documentos, então de repente chega alguém com uma aparência completamente diferente do nome no RG. Tentei entregar pessoalmente o currículo, mas só pela cara do pessoal que olhava o nome eu já sabia que não tinha chance”, desabafou. Ele não é exigente quanto à vaga, porque não considera sua qualificação baixa: “Infelizmente larguei a faculdade por conta de constrangimentos e preconceito dos alunos na sala. Então sempre ‘estudei’ em casa e não tenho como apresentar nenhum diploma, assim como muitas empresas pedem”.

Thiago mora na cidade de São Paulo e já está há seis meses sem emprego. Seu último trabalho foi como auxiliar de escritório e vendedor, onde ficou apenas dois meses. “O dono me tratava da forma que pedi, no masculino, usava meu nome social, sobre isso não tenho nem do que reclamar, ele foi uma ótima pessoa”, relembra.

Neto Lucon, do blog de pautas LGBT NLucon, comenta que a baixa empregabilidade de pessoas trans se deve às dificuldades que a família, a escola e a sociedade no geral impõem. “As travestis e transexuais muitas vezes são rejeitadas pela família, não encontram apoio na escola, não recebem apoio real do Estado e, por consequência, não estão preparadas nem capacitadas para enfrentar o mercado de trabalho. Sem apoio familiar, com baixa escolaridade e sem experiência, elas ficam à margem dessa sociedade e acabam sendo catapultadas pela cultura e pelo estigma da prostituição”, analisa. Ele ressalta que não é a prostituição que deve ser combatida, porque essa é uma opção legítima da pessoa trans. “O que deve ser combatido é ter na prostituição uma porta aberta”.

Não é nem necessário ser trans para sofrer transfobia no emprego. Mesmo sendo homem cis, Neto tem dificuldades de se manter em um trabalho por causa de sua página na internet. Ainda assim, seu blog possui mais de quatro mil seguidores no Facebook e é parabenizado por personalidades do movimento trans, como a própria Daniela Andrade. “Em um site de celebridades, quando uma editora pediu para eu escrever uma nota sobre duas atrizes transexuais que estavam em Salve Jorge, da TV Globo, esta editora propagou preconceito perante toda a redação, confundiu uma mulher transexual com um homem homossexual, inclusive alterando e deixando o texto um tanto pejorativo. Quando fiz as colocações a respeito da identidade de gênero, no respeito que o grupo merecia e retomei o antigo texto, a editora me dispensou, alegando não ter mais confiança em mim. Já fui proibido de escrever qualquer matéria sobre trans em uma importante revista gay em que trabalhei. E também já fui orientado a apagar a minha página em uma entrevista de emprego, pois não pegava bem ter o nome associado a ‘esse tipo de gente’, contou o jornalista.

Ele ainda comentou que tem dificuldade para publicar um livro: “Tenho um livro chamado ‘Por Um Lugar ao Sol – Travestis e Transexuais no Mercado Formal de Trabalho’, em que trago cinco histórias de vida de trans que estão trabalhando em profissões como enfermeira, professora e policial. Mas que não consegui publicar porque a maioria das editoras que levei disse: ‘As pessoas não querem saber de travestis trabalhando, mas se você escrever um livro sobre a vida das que fazem programa, a gente vai achar ótimo'”.

Neto ainda analisou: “Ultimamente, já vemos travestis e transexuais formadas, pós-graduadas e mestrandas, mas muitas ainda enfrentam dificuldade para entrar no mercado de trabalho. A sociedade observa a transgênero como uma pessoa que se passa por aquilo que não é, que quer ser aquilo que não é, como um ser de outro planeta. E, pensando desta forma, baseado apenas em uma parte do corpo, se vê intimidado a dar emprego a uma farsa, a uma figura que não é reconhecida como identidade, que erroneamente não tem credibilidade”.

Cris Stefanny, presidente da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil) e do Fórum LGBT de Mato Grosso do Sul, denuncia a falta de oportunidades no mercado de trabalho: “As transexuais que a todo custo tentam arrumar um emprego conseguem serviços subalternos, como limpar o chão, trabalhar em cozinhas. Há muitas que têm currículo, passaram em concurso público, como foi o caso da enfermeira que foi aprovada nas provas e a chefia do hospital a colocou para trabalhar no almoxarifado”.

A transfobia é um dos preconceitos mais generalizados dentro da sociedade. Não é raro casos de movimentos feministas e LGBT que excluem as transexuais de suas pautas. Para Daniela Andrade, a agenda de travestis e transexuais é abordada “de forma precária e negligente” pelo movimento LGBT. Já Cris, que mora em Campo Grande, denuncia que a parcela elitizada dos homossexuais trata as pessoas trans como “subumanas e subalternas”, e não respeita a identidade de gênero. À respeito das feministas, ela ressalta que parte delas acaba sendo machista: “Parece que a mulher se resume a uma vagina, quando na verdade a mulher é muito mais que isso. A mulher não é necessariamente isso e muito menos só isso. Você não nasce homem ou mulher, você torna-se homem ou mulher conforme o seu comportamento social, aquilo que você assume como identidade”.

90% das travestis e transexuais estão se prostituindo no Brasil (CrisMelo / Flickr)
90% das travestis e transexuais estão se prostituindo no Brasil (CrisMelo / Flickr)

Com tanto preconceito e dificuldade, muitas travestis e transexuais optam pela prostituição para se sustentar. Segundo a Antra, 90% das travestis e transexuais brasileiras estão se prostituindo. O jornalista Neto denunciou a violência que essas mulheres sofrem por sua profissão. “O dinheiro vem rápido, mas não é fácil, principalmente pela exposição a que se submetem com pessoas que nunca viram na vida. Quando feita em zonas de prostituição, muitas acabam sendo obrigadas a se sujeitar à cafetinagem, a pagar pelos pontos, sofrerem extorsão e, sobretudo, acabam se submetendo à violência de transfóbicos escondidos em pele de clientes ou de clientes extremamente violentos”. Ele ainda depôs sobre um caso que presenciou: “Estava na avenida Amaral Gurgel, em São Paulo, e vi um homem chamar uma travesti em um carro e, enquanto ela caminhava na direção dele, esse homem a atropelou e a arremessou para o meio da rua. Depois, ela me contou que há pessoas que jogam bexigas com urina, latina de cerveja, ovos, fazem turnê pelo ponto para as observar como se fossem animais em um zoológico”.

Caminhos

Neto apontou possíveis saídas para solucionar a baixa empregabilidade de trans: “A escola ser mais bem preparada para inserir e respeitar uma aluna trans. As empresas e empregadores serem sensibilizados e preparados para receber uma profissional trans. São políticas públicas que visam humanizar essas pessoas nos lares, na visibilidade de exemplos positivos e no combate ao estigma da prostituição”. Ele enumerou algumas iniciativas que já visam à inserção social de transgêneros, como o Projeto de Lei de Identidade de Gênero, apelidada de João Nery, de autoria de Jean Wyllys (PSOL) e Érika Kokay (PT). “É a Lei João Nery, que visa facilitar a mudança do nome no documento, ser aprovada. É a iniciativa do site TransEmpregos, que visa reunir travestis e transexuais profissionais e empregadores que estejam dispostos a contratar tais pessoas. São exemplos, como da SP Escola de Teatro, que tem uma cota para funcionárias travestis ou transexuais, serem ressaltados. É a mídia sabendo respeitar uma pessoa trans, inclusive a sua identidade de gênero, e não tratá-la como marginal. Tudo isso ajuda o grupo ser visto como mais um cidadão e cidadã, de maneira humanizada e mais produtiva”.

Cris, por sua vez, comentou que faltam bolsas e cotas para transexuais. “Você tem bolsa miséria, bolsa pobreza, bolsa universidade, bolsa tudo, mas pra classe travesti e transexual você não tem bolsa-nada, né?”, questiona. Ela também destacou a importância da Lei João Nery, e criticou o antigo projeto de Eduardo Suplicy (PT). “O projeto denota que a gente não precisa de um laudo médico, porque aqui ninguém é doente. Transexuais não são pessoas doentes”, declarou ela.

Apesar do projeto de lei de Wyllys e Kokay, o diálogo com a classe política é quase inexistente, segundo a presidente da Antra. “A bancada conservadora pentecostal evangélica faz muito barulho e as demais parcelas de deputados entram nessa ladainha. Devido aos conchavos políticos que são feitos com a bancada ruralista, com os pentecostais e com os fundamentalistas, infelizmente a gente não consegue avançar. Então, se não tem uma lei federal pra punir assassinatos e discriminação, infelizmente a gente não vai avançar muito, porque as leis estaduais e municipais têm apenas o poder de punir com multas, com sanções leves, e não de punir com base em uma lei federal”, justifica.

A Antra funciona justamente para apoiar as pessoas trans que sofrem violência. Apesar de não existir uma lei federal que especifica a transfobia e homofobia como crimes, a Constituição preserva a integridade de todos os indivíduos. A associação, formada por ONGs de transgêneros e homossexuais mistas, orienta as vítimas de transfobia a buscar as autoridades competentes e denunciar o caso para dar visibilidade à causa.

Glossário:
Pessoas cisgêneras: pessoas que foram designadas com um gênero ao nascer e se identificam com ele. Sinônimo de cissexual. Abreviado como cis.
Pessoas transgêneras: pessoas que foram designadas com um gênero a nascer e não se identificam com ele.