Cortázar por Cortázar: o politicamente fantástico

Julio Cortázar realizou uma série de palestras na Universidade de Berkeley ao longo do ano de 1980. Sua viúva, Aurora Bernárdez, as compilou em 2012 num livro de ‘cartas’. Este ano se completam cem anos de nascimento e 30 da morte do escritor, e algumas dessas cartas nos revelam o valor de seu pensamento político

Original em Diagonal Periódico. Tradução por Ítalo Piva

(Imagem: Diário de Cultura/Argentina)
O que se sente ao ler Cortázar é que não está lendo Cortázar, está escutando Cortázar (Imagem: Diário de Cultura/Argentina)

O que se sente ao ler Cortázar é que não se está lendo Cortázar, se está escutando Cortázar. O que se sente é que temos vinte e quatro anos, que estamos sentados numa grande sala de aula em forma de anfiteatro com mesas de madeira, essas salas que, aqueles de nós que estudamos em universidades pequenas, vemos com inveja nos filmes. O que na realidade se sente é que temos a enorme figura conversando tão sem planos como suas divagações girando em torno de um tema, um “rio” que serve como condutor da aula, e que seus alunos podem discordar e inclusive interromper com todas as perguntas que queiram, e que o Cortázar professor, divertido, se esmera em responder.

Ao conseguir a publicação deste volume, pensei: Auror Bernárdez está soltando a “papelada” de Cortázar com um conta-gotas . Ainda mais do que quando foi publicado Papeles inesperados (Alfaguarra) em 2009. Não pode ser de outra forma. É evidente que falta muito de Cortázar no enorme cesto onde Aurora têm guardado seus papéis, gravações e fotografias. Oxalá seja assim. Julio Cortázar faleceu em 12 de fevereiro de 1984.

O leiv motiv do livro são transcrições das gravações das oito aulas que deu em 1980 na Universidade de Berkeley, intituladas da seguinte forma: 1. Os caminhos do escritor, 2. O conto fantástico I: o tempo, 3. O conto fantástico II: a fatalidade, 4. O conto realista, 5. Musicalidade e humor na literatura, 6. O lúdico na literatura e a escritura de Rayuela, 7. De Rayuela, Livro de Manuel e Fantasmas contra os vampiros multinacionais. 8. Erotismo e literatura, mais um apêndice das conferências de um mês mais tarde e que já tinham sido publicadas em suas obras completas por Galaxia Gutenberg.

Primeiro Movimento

1) As direitas políticas tendem ser hipócritas e puritanas por razões meramente tradicionais.(Cortázar, Classe VIII, Berkeley 1980).

Sobre a “pré-história” de Cortázar e os aspectos referentes a sua vida, seus conhecidos e seu cotidiano na juventude, Eduardo Montes-Bradley disserta em Cortázar sin barba (Destino, 2005), que escreveu com a colaboração de Carles Álvarez Garriga, editor da última publicação do Argentino. Muito se debateu sobre a relação entre a vida e a obra de um escritor, a forma como se fundem e como uma não pode ser sem a outra. De fato, as aulas abrem com uma frase de Miguel de Unamuno: “Já me ouviu mil vezes, me aborreço com homens que falam como livros, e amo livros que falam como homens”. Da vida ao papel e do papel à vida; disso que trata e com isso se ocupa Cortázar. É por isso que se auto-classifica em três etapas: estética, metafísica e histórica. Todas são interessantes e interessadas mesmo que neste artigo eu foque especialmente na última e na maneira em que define a perfeição, a relação do escritor com seus tempos e com certo compromisso político. Sua etapa histórica coincidiu com a época em que os Estados Unidos tomavam a América Latina como seu quintal, como seu laboratório particular para experimentos econômicos e sociais, controlando quase o continente inteiro com apoio militar, comandados por seus serviços de inteligência e ditaduras fascistas, algumas com mais presença que outras: Junta Militar Argentina (1976-1983), Uruguai (1973-1985), Brasil (1964-1985), Chile de Pinochet (1973-1990). Todo mundo conhece seu trabalho no Tribunal Russell II, órgão não oficial criado por Bertrand Russell e secundado por Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Susan Sontag e Cortázar entre outros. Se encarregou de julgar a política externa americana – com suas raízes na guerra do Vietnã – , e o Tribunal focou nos sucessos latino-americanos sobre os casos do Chile e Brasil na Reunião de Roma em 1974. Essa é a etapa de transição que começa no ano de 1963, no qual publicou Rayuela, e que continuou com  Libro de Manuel, até sua morte em 84. Teve um compromisso forte com o Tribunal Russell e escreveu Libro de Manuel seguindo esse espírito, uma dedicação que segundo Cristina Peri Rossi influenciou toda uma geração de escritores:

“…a literatura de Cortázar, a literatura de García Márquez, vem de uma posição política, e especialmente, do conhecimento de que uma revolução era possível, o fato que já existiu uma revolução foi um alimento para a esperança. Motivou a todos nós, nos obrigou tomar uma posição e, por outro lado, nos fez imaginar que talvez fosse possível mudar as estruturas para tornar real um dos sonhos latino-americanos mais antigos, de duzentos anos atrás, que é o sonho de San Martín, o sonho de Bolívar, de uma América Latina única e unida a partir da união linguística”. (Coord. Nieves Vásquez Recio, Volver a Cortázar, 2008).

É certo que os sujeitos ativos que participaram e participam desde o século XX das revoluções latino-americanas se contentam com sua motivação de lutar e morrer por elas, mas, também é certo que o escritor como sujeito crítico tem a obrigação de tomar partido, e Cortázar, igual a muitos outros que inclusive perderam sua vida combatendo – Javier Héraud no Peru –, se posicionou desde o começo: “É possível ser um escritor comprometido – e eu quero ser – e sigo escolhendo a literatura como metralhadora, como arma de trabalho e combate”. (Rosalba Campra, Cortázar para cómplices, Del Centro de Editores, 2009).

Nas aulas de Berkeley ele fala muito a seus alunos sobre o relato Reunión, cujo protagonista é Ernesto Che Guevara, e que um amigo lhe tinha dado pra ler em um avião quando voltava de um encontro na Argélia. Lá também fala sobre a reação de Guevara (no próprio relato), que lhe respondeu: “Está muito bom, porém não me interessa” (…) Que estava muito bom é o mais alto elogio que Che poderia fazer, já que era um homem cultíssimo (…) mas que não o interessasse era também seu direito”. Até a própria arqueologia da memória destaca o grau de envolvimento de Cortázar e de outros intelectuais da época com seu momento, já que, enquanto o Che Guevara sempre levava no seu bolso um livrinho dos contos de Jack London, também encontraram primeiras edições de Rayuela dentro das mochilas e nas barracas, na Nicarágua, onde atuavam os jovens universitários aliados ao FNLS – Cortázar destinou o dinheiro ganho pelos direitos autorais de Los autonautas de la cosmopista ao povo da Nicarágua e à causa sandinista.

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Cristina Peri Rossi resumiu dessa maneira:  “Cortázar sempre foi fiel a suas convicções, a seus gostos, a seus amigos. É uma fidelidade que o leitor aprecia muitíssimo.  O leitor exige muito mais de um escritor do que de um cirurgião. Não sei por que, mas é assim. Do cirurgião que vai tirar um tumor da gente, não exigimos que quando chegue em sua casa seja charmoso com a esposa, ou brinque com o cachorro, porém, de um escritor, quase sempre exigimos uma ética, um ponto de vista, um julgamento sobre o bem e o mal, e que sua vida esteja de acordo com esses julgamentos, com suas ideias”. (Coord. Nieves Vásquez Recio, Volver a Cortázar, 2008). Estou seduzido pela ideia do jazz de disparos ocos no meio da selva, e de que o azar – tão querido por Cortázar – fez com que a sua primeira publicação sul-americana levasse uma bala que perfurou o livro até a página 77. A vida pela vida, sem nenhuma intenção de diminuir a revolução, e que venham as críticas, como conta Cortázar por trás do sucesso de Libro de Manuel: “Pessoas de esquerda da Argentina acharam que o livro não tinha seriedade o suficiente, e os demais, por outro lado, me criticaram por estar desperdiçando minhas possíveis qualidades literárias, metendo a política dentro de um livro” (Cortázar, Aula VII, Berkeley, 1980).

Não há nenhum aspecto da obra da imaginação do escritor argentino que não seja digno de admiração, de estudo e – mesmo que possa pesar – de influência nas distintas escrituras posteriores, sobretudo na relação da linguagem com o espaço, com o conceito do jogo – na literatura tudo se trata de um jogo – com a ideia da “realidade”.

Segundo Movimento

Voltando ao chamado aspecto “político” de Cortázar, o que é realmente valioso das confissões feitas nestas classes – e os que o conheceram dizem que não era propenso a desvendar sua forma de escrever – não é sua participação no Tribunal Russell II, nem sua relação com a esquerda política e intelectual latino-americana e europeia de sua época, mas sim como consegue diferenciar os problemas do indivíduo dentro de sua própria cosmologia e fazer o mesmo em relação aos sujeitos coletivos. Como ele evita cair na tentação de aplicar de forma dogmática sua ideologia dentro de sua produção literária, e quando a faz – quando não se trata de nenhum ensaio ou artigo – sua visão – ou visões – sobre o que deve ser a literatura sublimada, sempre estão manifestas. Sobre a ideia da literatura como arma política, muito já foi escrito e debatido profundamente, e sobre isto não vamos dizer nada de novo, o que nunca nos convém esquecer é que, o que podem ser grandes ensaios ou tratados políticos, seguramente serão novelas nefastas: “Na época do realismo socialista, por exemplo, muitos escritores consideraram ingenuamente que escrever um livro, contando os feitos de trabalho dos camponeses na Ucrânia, bastava pra fazer literatura. Resultava que, no final, os livros eram medíocres; um bom relato sobre o trabalho camponês na Ucrânia seria muito mais positivo (..) na realidade, não saía nada que tivesse uma beleza literária, que gerava aquele ‘pulo’ que como leitores damos quando lendo um livro”. (Cortázar, Aula VII, Berkeley, 1980).

Segundo Cortázar, introduzir elementos de informação política no texto da novela esfria o conteúdo da novela. Distinta é a forma com que os personagens ou o próprio estilo interagem com elementos políticos. O histórico não pode entrar em prejuízo do literário, mesmo que o fim de uma novela desse tipo seja simpatizar com uma realidade determinada, ser um veículo para transmitir ideias, ou, o que é mais importante, as guiar. Penso em Belén Gopegui (Lo real, Anagrama, 2001) ou em Isaac Roma como os melhores exemplos que levam a cabo esse planejamento. Em novelas como La mano invisible (Seix Barral, 2011), a realidade tem uma clara semelhança com um circo, entendido na maneira pós-moderna do reality show, esses circos não têm nada a ver com os quais Ramón Gómez de la Serna pronunciava sermões acima de um elefante (Luis Buñuel, Mi último suspiro, De Bolsillo, 2012), talvez um desses elefantes queria morrer atropelado por um trem. Isaac Rosa denuncia uma realidade terrível que nós trabalhadores precários sofremos, mostrando as relações entre empresário-trabalhador-força de trabalho-capital, escrevendo uma estrutura sólida que atende aos conceitos de beleza, estética, força, paixão e atemporalidade, que fazem que sua obra não seja um panfleto disfarçado de literatura. O jogo, presente na obra de Cortázar e Rosa, é um grato e imprescindível recurso para tratar os caracteres humanos, e os problemas dos protagonistas com a situação histórica do momento, que não deixa de ser outro protagonista, mas não “o todo” da obra narrativa.

Inclusive de sua obra mais conhecida, Rayuela (1963), com os anos eu diria, sem nenhum tipo de arrependimento, que é uma novela egoísta e profundamente individualista, sem dúvida influenciada pela corrente existencialista de Paris dos anos sessenta, por Albert Camus, Martin Heidegger e Friedrich Nietzsche. Porém, o que Rayuela nos demonstrou é esse aspecto exaltante da condição individual que passa por Boris Vian (Escupire sobre vuestra tumba) – admirado como escritor e músico por Cortázar, tão lido nos arredores da Sorbonne em 68, David Gates (Jernigan), Michel Houellebecq (Ampliación del campo de batalla) e que chega até Ray Loriga (Héroes). Estes tipo de obra, tão distintas entre si, mas imprescindíveis para entender e identificar os problemas do indivíduo consigo mesmo, demonstram que são imprescindíveis para esse fim, porém,  totalmente inúteis para usar com a finalidade de resolver assuntos de maior envergadura, como conflitos sociais. De fato, o que demonstram, e é isso que faz parte de seu valor, é que estes tipos de situações não se podem resolver nem abandonar de maneira individual, senão que passam obrigatoriamente pelo estado da <tribo>, da força coletiva.

Terceiro Movimento

 2) O corpo do executado balançava na extremidade da corda. (Isso que passou no el Arroyo del Diablo, Ambrose Bierce).

A relação do individuo com sua coletividade, a narração da noção do real/fantástico no cotidiano e o conceito duplo, são os temas que neste momento me têm totalmente ocupado, e busco desesperada e inconscientemente explicações sobre essas questões em cada nova obra que leio, estando, por outro lado, todas elas na literatura de Cortázar. É difícil ver a pureza dos três conceitos sem cair em presunções pós-modernas estúpidas, é difícil ver essa pureza e muito mais difícil escrever sobre ela. Deixando de lado o assunto do “duplo” em Cortázar para uma ocasião posterior, e havendo começado com a implicação política do cronopio nos assuntos de sua época, ler/ouvir Cortázar sobre sua ideia “do real e do fantástico” nas páginas de suas aulas diz muito mais do que as várias dezenas de artigos críticos que alimentaram meu respeito até hoje. Imprescindíveis, sem dúvida, para um estudo mais profundo ou para comparar com outros escritores ou questões, mas incomparável em seu testemunho, apesar de que os escritores tendem a se explicar mal.

Axolot, La noche boca arriba, Continuidad em los parques, Las armas secretas, Río, El ídolo de las Cícladas, La islã al mediodía, El outro cielo, Todos los fuegos el fuego, constituem um corpo de relatos – como estudou e tipificou Rosalba Campra – no qual a paisagem e o tratamento da paisagem são o motor da narração até o ponto em que o fantástico não parte do sobrenatural, senão do uso da linguagem e da forma de incidir no espaço, subvertendo a ordem estrutural tradicional, ou bem, nos desejos e nas frustrações mais irracionais dos personagens, convertendo em realidade seu próprio nível de abstração. A questão eterna do azar, do jogo no tempo-espaço, é o que faz de Cortázar um mestre na hora de confundir e criar com as infinitas possibilidades que ambos plantam. O real para Cortázar está muito mais próximo do que se entende como “fantástico”. Há quem simplifique esta questão falando de sua condição latino-americana, e o mesmo brinca com seus alunos: “Nós passamos da conquista espanhola à colonização e a nossas independências em um período cronológico que, comparado com o desenvolvimento das grandes culturas literárias do Ocidente, é pequeníssimo, apenas um instante. (…) os escritores podem ter sentido de uma maneira inconsciente essa falta de uma evolução, que traiu a eles mesmos, como o último elo de uma grande corrente; se encontraram dirigindo uma cultura moderna em um idioma que prestava para todas possibilidades de expressão”. (Classe II, Berkeley 1980).

Para falar sobre o tempo e o fantástico na segunda aula, fala sobre três contos: O milagre secreto de Borges, Eso que pasó em el Arroyo del Buho de Ambrose Bierce, e seu relato, La islã al mediodía. Mais para frente, um aluno lhe pergunta sobre La noche boca arriba e Cortázar comenta sobre a situação antes da escrita do relato, o detonador do relato – um acidente de motocicleta que sofreu em Paris em 53 ao desviar de uma idosa: “No  La noche de boca arriba um cavalheiro tem um acidente de moto e sonha, no hospital, que é um índio moteca perseguido por astecas no meio da “guerra florida”, onde o inimigo capturado era coberto de flores e levado a Tenochtitlán para ser sacrificado ao deus da guerra, Huitzilopochtli, e ter o coração arrancado. O que no princípio parece um sonho do acidentado nos leva ao fato de que o acidentado, na realidade, é um elemento sonhado pelo índio moteca, que se imaginou em uma selva com construções enormes, cheia de luzes, acima de um inseto metálico: este é o tema do conto que creio que supõe um inversão total e definitiva da realidade pelo fantástico puro”. (Classe II, Berkeley 1980).

A literatura de Cortázar serviu para fazer com que o leitor e os escritores em nossa primeira etapa tomemos como dogma de fé cada estrutura e cada sensação, aprendemos sobretudo a julgar e verbalizar o medo “dos outros”, diante nossa naturalização do “fantástico” dentro do comum, que se expande como uma alma que leva o nome de “cotidiano”.

Fala de tudo isso com seus alunos, debate com eles, e a única preocupação sobre essas palestras é a tediosa burocracia acadêmica, a data de entrega dos trabalhos e forma como recebia os alunos nos tutoriais: uma a cada meia hora, e parece que vocês estão no dentista. E o conceito de tempo em Rayuela ou em seu predecessor estético imediato: El Perseguidor, o erótico na literatura mencionado nos Trópicos de Henry Miller. O latino-americano como elemento supranacional do qual sentir orgulho e a obrigação de se defender diante qualquer tipo de agressão. O jogo e o humor em: Cronopios y famas e Libro de Manuel, e a admiração por Lezama Lima, Thomas Mann, Onetti, Borges, a música de Earl Hines, Bessie Smith, Charlie – “Johnny” – Parker, Sinatra e Boris Vian, é Cortázar por Cortázar, e a sensação de que temos vinte e quatro anos, e estamos sentados em uma aula em um anfiteatro com mesas de madeira, dessas que, para nós que estudamos em universidade pequenas, vemos com inveja nos filmes.

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