Ucrânia: a crise sem fim

A crise na país está escalando tão rapidamente, sendo tão parcialmente noticiada por ambos os lados e tendo jogadores tão poderosos em rota de colisão que qualquer previsão do que realmente acontecerá não passaria de um mero exercício de futurologia

Por Vinicius Gomes

Se o Ocidente (leia-se Washington e Bruxelas) e Moscou estivessem disputando uma partida de xadrez, a Ucrânia seria o tabuleiro e os ucranianos, meros peões.

Entretanto, qualquer que seja a disputa, as evidências parecem apontar que o Ocidente arriscou demais e talvez não tenha como voltar atrás, pois na parte oposta da mesa está Moscou – que tem em sua vantagem apenas duas coisas, mas que são simplesmente decisivas nessa história toda: a parte mais produtiva da Ucrânia é pró-Rússia e a Europa – por mais que feche os olhos a esse fato – é refém energética de Moscou.

Ou seja,  Washington pode  ladrar e falar sobre impor sanções à Rússia – colocando-a em um patamar igual à da homofóbica Uganda -, mas os europeus têm de ser realistas. Como o jornalista brasileiro Pepe Escobar sugeriu no Asia Times, “Berlim não tem tempo para ‘sanções’, sendo que a Rússia é um ótimo mercado para a indústria alemã”, e completa dizendo que, por mais que vocifere contra, os britânicos também não querem nenhuma sanção, uma vez que o seu centro financeiro se alimenta das fortunas político-oligarcas da Rússia.

Para trazer a opinião pública mundial para seu lado, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, acusa o Kremlin de violar o direito internacional ao invadir a região da Crimeia com o envio de tropas militares, mas isso não se sustenta à análise mais amadora diante do recente histórico da política externa de Washington; além de se mostrar incrivelmente ignorante quanto a tratados internacionais da região. Algo que poderia se esperar de qualquer um, menos do segundo maior símbolo da diplomacia norte-americana.

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Como essa matéria do New York Times reportou em 1997, os então presidentes Boris Yeltsin e Leonid Kuchma assinaram um tratado no qual o ponto principal dizia exatamente que os russos poderiam operar no porto de Sebastopol – a base para a Frota do Mar Negro nos tempos da União Soviética. Ou seja, especificamente permite tropas russas na Crimeia.

Isso sem contar que Moscou paga à Kiev 97 milhões de dólares anualmente pelo direito de usar as águas ucranianas e compensar o impacto ambiental causado pela Frota do Mar Negro.

Se isso não bastasse, o acordo também prevê que a Rússia defenda a região em “situações extremas”, como salientou o presidente russo Yeltsin.

Assim sendo, foi sem nenhum esforço e sem violar qualquer direito internacional que 25 mil soldados aportaram na Crimeia e um referendo sobre a integração ou não ao território russo já tem data marcada: 16 de março.

Agora, o que parece se desenhar é Moscou ficando com uma autônoma Crimeia e, talvez, boa parcela da parte oriental da Ucrânia; enquanto Washington e a UE ficam com uma Kiev sem muitos recursos e gerenciada por neonazistas.

O pior inimigo da Casa Branca de Obama é ela própria

O que talvez Barack Obama não tenha percebido ainda é que qualquer um na administração de Putin é, em um dia ruim, dez vezes melhor xadrezista do que qualquer outro dentro de sua administração em Washington.

Quando, em agosto de 2013, Putin conseguiu no impasse da Síria encurralar diplomaticamente, de uma só vez, a Casa Branca, o pseudo-socialista francês François Hollande e os gaviões mais belicosos em Tel Aviv e na Casa de Saud – ele já havia dado uma amostra de como Obama pode se autoboicotar e dar munição para a ala mais radical dos republicanos dentro do Capitólio.

Ao falar sobre a “linha vermelha” que Bashar al-Assad cruzaria com o uso de armas químicas, ele mesmo cruzou uma linha perigosa e se viu pressionado por todos os lados a agir contra o regime sírio. Quando se encontrou no dilema entre o agir – e ser recriminado pelo mundo inteiro – e o não agir, sendo acusado de “fraco” internamente, foi o próprio Putin que – ironicamente – veio em seu resgate, ao tecer todo o acordo diplomático que evitou o bombardeio e eliminou o arsenal químico de Al-Assad.

Após a decisão do presidente ucraniano Viktor Yanukovych em não assinar um acordo comercial com a União Europeia – decisão essa que foi amplamente divulgada por ter sido influenciada por Moscou –, a Casa Branca viu uma oportunidade de “revidar” pelo vexame de agosto e ainda conseguir controlar um governo bem ali, nas fronteiras da Rússia.

Agora, como se não bastasse a administração Obama se ver aliada com partidários de extrema direita e saudosistas do nazismo de Adolf Hitler, o discurso radical também toma conta dos republicanos em Washington.

Nessa segunda-feira (3), o senador da Carolina do Sul Lindsey Graham apareceu na Fox News – obviamente – para criticar a postura de Obama frente à petulância de Putin em estacionar milhares de soldados na Crimeia.

Até aí, postura nada mais natural de um oposicionista, mas o seu discurso teria sido cômico se não fosse tão trágico: o republicano conseguiu ligar as ações recentes da Rússia na Ucrânia com um ataque em setembro de 2012 em Benghazi, na Líbia, que resultou na morte de quatro americanos: “Isso começou com Benghazi. Quando você mata americanos e ninguém paga o preço, você faz um convite a esse tipo de agressão”, ele postou depois em sua conta no Twitter.

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Todavia, sua próxima frase é que traduz o pensamento do Tea Party e como eles podem ser um inimigo mais poderoso a Obama do que os terríveis russos: “O sr. Putin basicamente chegou à conclusão que, depois de Benghazi, depois da Síria, depois do Egito – depois de tudo no que Obama se engajou – ele é um líder fraco e indeciso”.

A ex-governadora do Alaska Sarah Palin, que concorreu na chapa republicana na primeira eleição de Obama, também na Fox News – obviamente – disse que já havia previsto tal ação dos russos: “Em 2008 eu previ de maneira certeira a possibilidade Putin se sentir corajoso o suficiente para invadir a Ucrânia, porque eu podia ver que tipo de líder Barack Obama seria”.

Na época, a Rússia entrou em guerra – de verdade – com a sua vizinha Geórgia, para evitar algo parecido com que muitos enxergam na Ucrânia: uma expansão da Otan chegando até a fronteira russa.

A republicana continuou seu ataque a Obama em sua conta no Facebook: “Após o Exército russo invadir a nação da Geórgia, a reação do senador Obama foi de indecisão e equivalência moral, o tipo de resposta que apenas encorajaria a Rússia de Putin a invadir a Ucrânia em seguida”.

Com a cartada de Putin na Crimeia e o seu futuro referendo, Washington pode terminar com uma Kiev intransigente nas mãos. O novo governo, inclusive, já tentou proibir o uso do idioma russo (usado em praticamente metade do país) e banir o partido comunista – que na última eleição teve mais votos que o nazista Svoboda.

Com os neonazistas no controle agora, será quase impossível eles permitirem eleições imparciais – as quais certamente iriam expulsá-los do cenário político mais uma vez.

Guerra Fria no discurso, Guerra Quente na mídia

Durante a crise na Síria, os presidentes Putin e Obama trocaram farpas pela mídia norte-americana, o russo através do New York Times e a réplica do norte-americano, no Huff Post.

Talvez essa já fosse uma prévia do que viríamos a testemunhar na cobertura da crise na Ucrânia.

Nessa teça-feira (4), a âncora norte-americana Abby Martin, do canal RT (anteriormente Russia Today), se demitiu ao vivo. A alegação foi de que ela não podia em sã consciência apoiar uma intervenção militar em uma nação soberana. “O que a Rússia fez foi errado”, disse ela ao final da transmissão de seu programa, Breaking the Set.

Dois dias depois (6), foi a vez de Liz Wahl também se demitir ao vivo. Nesse caso, seu motivo foi discordar da linha editorial da emissora.

Não demorou muito para que os dois casos fossem usados como evidência clara de que os russos são os errados da história e Vladimir Putin, o grande vilão – nenhuma menção às outras centenas de jornalistas que continuam trabalhando para a RT.

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A editora do canal, financiado por Moscou, Margarita Simonyan, emitiu uma nota dizendo “que nos dias de hoje é preciso muita coragem para trabalhar no RT. Nunca, em nenhum outro momento, os jornalistas da emissora foram tão atacados como atualmente”.

De fato, até a mídia parece polarizada – CNN, New York Times, Fox, Washington Post e outras mídias ocidentais, parecem estar todas praticamente alinhadas com a “vilanização” russa.

“Durante a Primavera Árabe, a equipe da Al Jazeera, no Líbano, se demitiu em massa. Seus colegas egípcios também. Mais de 20 jornalistas se demitiram dizendo discordar da linha editorial do canal. Mas isso aconteceu sem qualquer pressão da mídia. Uma vez que, durante a Primavera Árabe, a Al Jazeera estava completamente alinhada com a imprensa global”, relembra Margarita.

O fato de que o pedido de demissão de uma jornalista, em um canal que faz contraposição ao enfoque ocidental da imprensa, tenha tido mais destaque do que importantes revelações sobre o assassinato de 20 manifestantes em Kiev supostamente ter sido ordenado pela oposição – que essa mesma mídia tanto apoia, mostra que, assim como em todas as outras recentes guerras, a mídia cumpre seu papel de acordo com sua inclinação política.

Infelizmente, como já disse o grego Ésquilo há séculoss, “na guerra, a primeira vítima é a verdade”. Isso poderia ser estendido à guerra midiática.