Desmontando o discurso neoliberal sob uma perspectiva feminista

Nenhum movimento social, muito menos o feminismo, pode deixar passar despercebido o assalto descarado que o capital financeiro exerce sobre a democracia e a reprodução social, sendo necessário refletir sobre um elemento central: as desigualdades entre as próprias mulheres

Original em La Marea, tradução por Ítalo Piva. Foto: http://www.flickr.com/photos/palmerston_north_city_library/.

Hoje em dia, o impacto da “Grande Involução” – a contrarreforma social encaminhada pelas elites econômicas em escala global, a fonte da atual crise – está supondo uma reestruturação da ordem política e econômica da nossa sociedade, afetando as condições materiais e os direitos pessoais. Provavelmente, ainda não conseguimos ver em toda sua magnitude o alcance do processo hegemônico do neoliberalismo, iniciado nos anos 70 do século XX no Ocidente. Seu desenvolvimento e impacto têm sem dúvida uma raiz econômica, mas a dimensão econômica não é sua única manifestação. Tal processo vem acompanhado de um “propósito comum”, próprio de nossos tempos, que permeou nossas sociedades e impregnou nossa concepção do mundo, marginalizou e substitui outras interpretações, e legitimou, de certa forma, a dita reestruturação, interpelando e construindo a identidade individual, e abandonando o terreno de novas subjetividades sociais e identidades coletivas.

Ambivalências e contradições para o feminismo hoje, que vêm do passado

Imerso nesse oceano político, econômico e cultural, ou ideológico, o feminismo tem lidado com as dinâmicas geradas ao longo das últimas décadas a partir de uma especificidade conflitiva, que não se pode ou deveria obviar. Nas palavras de Nancy Fraser: “É uma reviravolta cruel do destino que o movimento de libertação das mulheres tenha acabado preso em uma ‘amizade perigosa’ com os esforços neoliberais para construir uma sociedade de livre mercado”. Em pleno auge do pensamento pós-moderno, as reivindicações políticas mais radicais, em sua maioria, prosperaram. Assim, com o neoliberalismo veio a marginalização de uma ampla crítica das diferenças de classe e de raça, da economia política e do Estado, que foram eclipsadas pela promessa do poder individual e da independência econômica, como veremos. A denúncia do sexismo e da discriminação se separou de uma crítica estrutural do capitalismo no momento preciso. Debaixo do cultural, existe uma base material que alimenta interesses concretos e relações de poder, políticas e econômicas.

O feminismo obteve algumas conquistas, e o discurso da igualdade tem sido incorporado de maneira crescente (a prática no social é outra coisa). A subjetividade feminina incorporou a consciência sobre as desigualdades entre homens e mulheres, mas desta vez imersa no ‘propósito comum’ neoliberal; por um lado, nega a existência de forças sociais, culturais e econômicas que sustentam a desigualdade e, por outro, imbuída de individualismo, aceita total responsabilidade por seu próprio bem estar e cuidado, cada vez mais subordinada aos malabarismos da difícil harmonia entre as dimensões familiares-laborais, encaradas com um cálculo muito parecido ao custo-benefício. Com isso, a desigualdade de gênero passa a ser interpretada como um assunto do âmbito privado, e não como um problema estrutural.

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Alguns mitos do neoliberalismo, a partir de uma visão feminista

O fetiche das eleições livres: O ideal da eleição livre (que inclusive chega aparentar estar livre das restrições patriarcais) é baseada na autossuficiência do indivíduo, enquanto ofusca as lutas coletivas e instituições que permitem essa autossuficiência. Por outra parte, há de se distinguir bem os limites entre o individualismo e a reivindicação histórica de autonomia por parte das mulheres (econômica, liberdade de movimento e de ação, liberdade sexual, direito ao próprio corpo). A autonomia é uma demanda legítima que apela a um direito individual, porém, que pode, e deve, se inscrever em uma proposta coletiva alternativa. Uma supervalorização da autonomia individual sem a dimensão coletiva tenderá a diminuir e desvalorizar a interdependência social e a simpatia, por exemplo.

Ideal hegemônico de flexibilidade, inovação e criatividade, ou seja, de empreendedoras individualizadas para todas dimensões de nossas vidas. Como afirma Nancy Fraser: “O neoliberalismo nos veste com uma ideologia supérflua através da narrativa do aumento do poder da mulher. Ao invocar a crítica ao salário familiar para justificar a exploração, o sonho de emancipação da mulher é utilizado como graxa no motor da acumulação capitalista”. O certo é que temos assistido ao que se chama a dupla presença: as mulheres compatibilizam como podem seu acesso ao trabalho assalariado e seu desenvolvimento pessoal no mundo profissional com as responsabilidades no núcleo familiar, que permanecem intactas.

A narrativa do progresso e da igualdade de gênero já alcançado tem ocultado as diferenças entre as mulheres (as mudanças socioeconômicas e seu impacto variante em diferentes grupos sociais). A atual e crescente situação precária generalizada tem como consequência que se produzam ainda maiores desigualdades dentro dos grupos de um sexo do que entre os homens e as mulheres. Além disso, o discurso do feminismo neoliberal impregnou o tecido social e acessou o plano institucional, debilitando a mensagem do coletivo político de transformar a vida familiar e econômica.

Mercantilização: Uma característica central do neoliberalismo é a mercantilização de todas as esferas da vida social. A lógica do mercado – o cálculo de custo-benefício – se estende pelo tecido social, as práticas sociais e de instituições.  Isso causou uma desvalorização do âmbito doméstico na equação contra o econômico. A comercialização do mundo privado, trabalhos domésticos e de cuidados, por exemplo, tem suposto que o interesse próprio de algumas mulheres pode ser obtido em troca da subordinação e exploração de outras.

Condições para um projeto futuro

Com a crise, as impossibilidades materiais marcaram as trajetórias vitais de muitas mulheres e construíram um imaginário diferente com respeito ao emprego e a maternidade. Umas veem suas carreiras profissionais truncadas, outras nem sequer contemplam isso como um cenário possível. Um número maior de mulheres procura emprego (com salários inferiores e maior precariedade), enquanto diminuem o tempo para o cuidado dos filhos, tempo que se torna progressivamente mais privatizado e incompatível com âmbito doméstico. É cada vez mais difícil alcançar a coexistência entre trabalho, dever, cuidados do lar e comunidade.

Temos diante de nós mesmas o desafio de reengajar o feminismo numa crítica da natureza do poder político e econômico. Nenhum movimento social, muito menos o feminismo, pode deixar passar despercebido o assalto descarado que o capital financeiro exerce sobre a democracia e a reprodução social. Do mesmo modo que qualquer alternativa que enfrente os salários baixos e jornadas extenuantes deverá incluir a igualdade doméstica entre homens e mulheres, também deverá incorporar o elemento central: as desigualdades entre as próprias mulheres.

Só conseguiremos uma ampla interpretação da complexa realidade social se acertarmos no mapeamento da desigualdade em toda sua extensão: o gênero, a raça, a etnia, a opção sexual. Todas seguem estruturando as relações sociais de formas muito diversas – e todas se articulam através da classe – mas têm implicações distintas com respeito à distribuição de bens, sociais e simbólicos.

Também devemos estar atentas ao efeito regressivo da apropriação do discurso político por parte dos setores mais conservadores, que trazem a exaltação da família e dos valores tradicionais como fundação. Transcender os parâmetros do possível, demarcados pelo discurso neoliberal, é um enorme desafio a nossa frente.

As ideias neoliberais se misturaram ao nosso tecido social, enquanto os poderes econômicos se afiavam e criavam novos circuitos para o capital global sob seu controle. O certo é que o neoliberalismo pôs as mulheres e o pensamento feminista em uma situação distinta do passado recente. Não basta visibilizar as tendências ocultas, e tampouco defender as conquistas do passado. O feminismo, as mulheres e os homens, devem resgatar a análise e a crítica da verdadeira natureza do poder político e econômico, e planejar uma agenda política radical que se fundamente na vida real das pessoas.

Tudo indica que um ciclo termina e outro começa, frente ao qual temos mais incógnitas do que certezas. A crise multidimensional pela qual passamos contribuirá para o enfraquecimento deste “propósito comum”? Seguramente sim, mas não sabemos se fará isto num sentido progressivo ou regressivo. Porém, sem dúvida, podemos observar o nosso passado recente para tentar entender um pouco melhor nosso presente.

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