A “naturalização” do racismo

Neste último mês, episódios de racismo explícito aconteceram no futebol, esporte de paixão popular, espaço onde vários negros se consagraram e se consagram como ídolos. Mas nem por isto isento do racismo

Por Dennis de Oliveira1 Foto: Ricardo Saibun / Divulgação SantosFC

Na coluna Quilombo da edição 134 da Fórum digital, abordei a necessidade do combate ao racismo no plano ideológico, tendo em vista que a inclusão social e racial em pequena escala obtida nos últimos anos graças a determinadas políticas públicas tem gerado um incômodo de tal forma em determinados setores da sociedade que fizeram crescer não só discursos, mas também práticas abertamente racistas.

Neste último mês, episódios de racismo explícito aconteceram no futebol. Primeiro foi o atacante Tinga, do Cruzeiro, agredido racialmente por torcedores peruanos na partida em que seu time enfrentou o Real Garcilaso, pela Taça Libertadores da América. Depois, os casos do volante Arouca, do Santos, na partida contra o Mogi Mirim, pelo Campeonato Paulista, e do juiz Márcio Chagas, no Rio Grande do Sul.

Justamente no futebol, esporte de paixão popular, espaço onde vários negros se consagraram e se consagram como ídolos. Mas nem por isto isento do racismo.

Em entrevista concedida ao jornal Zero Hora, um dos torcedores suspeitos de ter agredido racialmente o juiz Márcio Chagas disse: “Posso ter xingado de ladrão e dessas coisas normais no futebol. Agora, dizer que quero matar todo mundo que é de cor, pera aí, né, tchê? Tenho familiar negro. Tenho um funcionário preto também, que está sempre comigo.”

Duas coisas chamam a atenção. Primeiro, argumentar que são “coisas normais”. Insultar racialmente é uma “coisa normal”. Fazer piadas racistas e machistas é normal, apenas brincadeira, como dizem Rafinha Bastos e Danilo Gentili para justificar o humor de mau gosto que fazem na televisão.

De onde vem esta ideia de normalidade? De uma postura de descompromisso com o problema do racismo. A maioria dos brasileiros admite existir o racismo, mas não ser racista. Pior: não tem compromisso com isto. Por isto, os que argumentam contra as cotas não se assumem como racistas, pelo contrário, dizem que são contra o racismo, mas que não podem ser “responsabilizados” por isto. O racismo se transforma, assim, em uma coisa má, etérea, cujas consequências devem ser suportadas única e exclusivamente pelas suas vítimas. O problema do racismo é dos próprios negros e negras, é esta a ideia subjacente a esta postura.

Cena de 12 anos de escravidão: o racismo não pode ser "natural"
Cena de 12 anos de escravidão: o racismo não pode ser “natural”

Segundo, a ideia de “tolerância opressiva” de Darcy Ribeiro, presente nesta ideia “tenho até um funcionário preto”. Tolerância opressiva é, segundo o antropólogo brasileiro, tolerar o outro para reinar sobre os seus corpos e mentes. Em outras palavras, tolerar o outro desde que seja meu subordinado. Daí os incômodos que mencionei na coluna passada quanto à aproximação ainda pequena da “senzala” à Casa Grande.

Vários amigos meus que foram assistir ao filme Doze anos de escravidão, vencedor do Oscar deste ano, relataram que pessoas deixam a sala de exibição antes do final do filme. O filme em si tem um conteúdo baseado em uma experiência individual mas que incomoda por conta das cenas cruas da violência da escravidão nos EUA. As chibatadas e o sangue explícito nas cenas do filme provavelmente incomodam as mentes de pessoas que consideram “natural” o racismo ou que não tem responsabilidade nenhuma em combatê-lo.

1 Professor da Universidade de São Paulo no curso de Jornalismo (graduação), Direitos Humanos (pós-graduação) e Mudança Social e Participação Política (pós-graduação). Membro do NEINB (Núcleo de Apoio à Pesquisa e Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro). E-mail: dennisol@usp.br

Colabore com o que o cabe no seu bolso e tenha acesso liberado ao conteúdo da Fórum Semanal, que vai ao ar toda sexta-feira. Assine aqui