A superexposição midiática da política venezuelana

O recurso de usar isso para formar a opinião pública internacional se tornou, na última década, em um instrumento típico (e crucial) da política nacional, e quase todos recorrem a ele num contexto institucional tão instável

Por Juan Agulló. Original em Rebelión, tradução por Ítalo Piva

O que está acontecendo na Venezuela? Nas últimas semanas ressurgiu, pela enésima vez, a pergunta com vinte mil lógicas e refinamentos. Qual é o problema? Pois qualquer resposta que se propõe nos leva a um mantra discursivo que sempre separou, com reiterada obstinação, as mesmas duas ideias/forças polarizadas… Então porque não mudar a terminologia de uma questão tão retórica quanto viciada? Porque de tempos em tempos todos nós acabamos perguntando o que ocorre na Venezuela?

Para responder, comecemos por lembrar que há muitos anos no país acontece um agressivo jogo pelo poder, do qual quase todos nós, gostando ou não, participamos. Na Venezuela, cada vez mais, a política passa pelos meios de comunicação, não só pelos nacionais e tradicionais, mas também pelos internacionais e pelas TICs: até aqui nada de excepcional. O que é peculiar do caso é que , na Venezuela, a opinião pública internacional se tornou um ator político difuso, porém, determinante.

Não é assim em todas as partes. De fato, na própria América Latina, coincidentemente com as ocorrências na Venezuela, houve duas confrontações políticas nacionais, mas a imprensa internacional não prestou atenção a elas: na Costa Rica, o candidato presidencial esquerdista José María Villalta foi submetido a uma campanha de difamação que acabou com suas chances, enquanto na Colômbia, a prefeitura de Bogotá está sendo vítima de um pertinaz assédio constitucional.

Na Venezuela, ao contrário, qualquer mostra de descontentamento nas ruas ou qualquer deslize do governo, por mais simbólicos que sejam, são analisados com uma lupa. E mais, às vezes, as notícias nas TICs são fabricadas, e circulam na rede com uma velocidade e falta de controle surpreendente. Em qual medida isto está influenciando, em nível estrutural, a política venezuelana? Bastante: os atores da política nacional brigam cada vez mais para ganhar os favores da opinião pública internacional.

Para eles, a meta final continua sendo as urnas, porém – como no recente caso da Ucrânia – não desdenham outras opções. Na prática, em casos como os descritos, o princípio de legitimidade está sofrendo um abalo preocupante diante dos credenciamentos ‘democráticos’ tradicionalmente exigidos dos governos e que, no caso venezuelano, sofrem de uma inconcreta e manipulável exigência sobre direitos humanos, que a maquinaria internacional impõe, e distorce, através dos meios midiáticos.

Na Venezuela, desde esse ponto de vista, as coisas parecem claras: para a oposição e seus aliados, em grande parte, sempre se tratou de denunciar um ‘regime totalitário’ que ‘esmagaria’ sua população, a ‘condenaria’ à fome e à repressão se o descontentamento fosse geral. Para o governo e seus aliados, sempre se tratou de exatamente o oposto: de denunciar os jornais vindos de uma oposição irresponsável e sedenta por poder, que nunca contou com um suficiente apoio popular, mas sim, de governos e meios de comunicação estrangeiros.

O problema é que, se tratarmos da verdade, pra entendermos o que está passando na Venezuela, não podemos/devemos nos conformar com explicações tão rasas e simples. Nesta ocasião, por exemplo, por mais difícil que seja de acreditar, a virulenta manifestação opositora não foi direcionada somente ao presidente Nicolás Maduro: mas também contra o líder de oposição e ex-candidato presidencial, Henrique Capriles.

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Como assim? É muito fácil: apesar de grande parte da imprensa internacional insistir em omitir esse detalhe, a oposição nunca foi homogênea. Em geral, quase desde o começo do governo do falecido Hugo Chávez (em 1999), ela teve dois polos. Um no exterior, radicado em Miami (capital do ‘exílio’) e que nunca aceitou acordos com o ‘regime’ – e outro, interior, enraizado nas grandes cidades venezuelanas – e composto, sobretudo, pela classe média, que mais ou menos defende a necessidade de mudanças graduais.

Entre os dois polos, as relações nunca foram fluidas, mesmo que nunca tenham chegado a uma ruptura, Miami tem os recursos e a capacidade de pôr pressão (o exílio venezuelano de fato tem, relações excelentes com o cubano), enquanto a oposição interior conta com a legitimidade trabalhista, a popularidade de seus líderes etc. Agora, o que foi chamado de uma ‘explosão popular’ após a prisão de um “líder emergente” (Leopoldo Lopez), não foi nada mais do que um ato contra Capriles.

E porque contra Capriles, cuja liderança parecia consolidada? Porque Capriles demonstra ter entendido a necessidade de mudanças graduais: reconheceu a Constituição Bolivariana, se reuniu com o presidente Maduro (uma novidade na Venezuela), e reivindicou a paz como a base principal de sua política. Para Miami, nada disso interessa… O curioso é que os interesses de Miami, meio que coincidem com os de alguns setores do chavismo, que no fundo não estão vendo como ruim os distúrbios nas ruas.

O primeiro a ser taticamente beneficiado, na prática, tem sido o próprio presidente Maduro, que pouco antes dos protestos enfrentava uma crescente contestação e sentimento de ira, dentro do chavismo em si. Uma das principais causas desta situação estava sendo o desabastecimento de que padece o país (produto de várias incompetências, não só do boicote), e agravado por uma má gestão do controle de câmbio, que afeta não só a competitividade da economia, mas também o poder aquisitivo dos salários e consequentemente, os lares e famílias.

Os cabeças visíveis deste mal estar não organizado foram os setores populares urbanos e parte da velha esquerda tradicional que, desde a morte de Chávez, se sente cada vez mais alienada pelos militares, os outros grandes beneficiários do atual clima excepcional. Entre esses dois polos, e com certeza, entre o onipresente exército, se dirime o sutil jogo de sobrevivência no qual se encontra a nomenclatura chavista a quem agora, a ameaça externa, acaba de dar uma trégua: oxigênio.

De fato, a segunda grande falsidade consiste em afirmar que os recentes distúrbios são uma expressão direta da inquietude reinante, consequência da aguda crise socioeconômica pela qual passa o país. Na realidade, esse é o erro principal (de cálculo?) de uma oposição que, sobretudo em sua vertente exterior, segue sem conhecer os setores populares (mais que nada, os urbanos): que o sofrimento seja grande nas favelas não quer dizer que seus habitantes estão dispostos a participar em manifestações contra ‘seu’ governo.

Na prática, ninguém levou em consideração que os vínculos simbólicos e de clientela que unem os setores populares com o governo seguem sendo, apesar do descontentamento, muito fortes. Por que então estão ocorrendo distúrbios? Porque onde a mensagem opositora está repercutindo são os mesmos lugares de sempre: entre as velhas classes médias urbanas, um bastião da oposição, que desde 2002/2003, está ansiosa pra recuperar a capacidade de intermediação, que no passado fez dela uma das burguesias mais influentes da América Latina.

Porém, o comportamento político dessas velhas classes médias já revelou sua essência: os bairros do leste de Caracas estão há dez anos jogando entre um dia apoiar o moderado Capriles, e no seguinte, responder aos chamados de líderes de oposição mais radicais, a interditar estradas; queimar barricadas e a inundar a internet de fakes difamando o atual governo. Obviamente há desespero em seu comportamento, mas também irresponsabilidade: este é o populismo reacionário que ninguém denuncia.

A constatação de tudo isso nos leva a uma terceira grande falsidade: na Venezuela, as propostas de diálogo tanto de esquerda quanto de direita têm um fundo histórico. O recurso de usar isso para formar a opinião pública internacional se tornou, na última década, em um instrumento típico (e crucial) da política nacional, e quase todos recorrem a ele num contexto institucional tão instável. Quando isto ocorre, aparecem os distúrbios, as reclamações, os artigos polarizados e com certeza, os impasses.

Entendemos agora porque, de tempos em tempos, todos nos acabamos perguntando o que acontece na Venezuela? Porque se fazer de vítima em contextos de superexposição midiática é mais fácil do que quando o isolamento informativo prevalece. Do contrário, quando há subexposição as coisas mudam: há vinte e cinco anos, ninguém se interessava nos problemas que criaram o Caracazo, uma revolta periférica que deixou quatro mil mortos, e germinou uma liderança carismática: a de Hugo Chávez.

Chegando aqui, a pergunta conclusiva parece clara. O que é, então, que causa a superexposição midiática de tal maneira da Venezuela? Será que é seu petróleo, como afirmam muitos? Duvidoso: em 1989 havia petróleo e em 2014 segue havendo. A única diferença é que, em 1989, governava uma oligarquia condescendente com políticas de ajuste (e de distribuição da renda petroleira), que dez anos depois, foram completamente redefinidas por um novo grupo de dirigentes. Isso fez da Venezuela um ‘mau’ exemplo para os países ocidentais e deu tanta atenção para o discurso chavista que o país ficou midiaticamente superexposto.

Uma vez que Chávez se foi, as coisas continuaram iguais. Isso, afirmo, não deve levar a uma confusão: o fato de que o atual grupo dirigente não é exatamente do mesmo tecido político e socioeconômico do que o anterior, não quer dizer nem que suas políticas públicas sejam necessariamente tão transformadoras, nem que este seja o motivo que explique o Golpe Suave. Significa somente, que na Venezuela, gregos e troianos se aproveitam de uma atenção midiática com a qual outros países não contam.

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