Fórum Social Mundial: O outro mundo ainda é possível?

Há 12 anos acontecia a primeira edição do encontro que visava pautar uma nova ordem global ao mundo. Porém, de lá pra cá, a esquerda chegou ao poder, novos coletivos políticos surgiram, a internet se tornou uma forte ferramenta de interlocução entre grupos do mundo inteiro… O FSM necessita ser repensado?

Por Marcelo Hailer 

Em 2001, na cidade de Porto Alegre, aconteceu a primeira edição do Fórum Social Mundial (FSM), que ocorreu simultaneamente ao Fórum de Davos. Se o primeiro propunha o rompimento com o modelo vigente sob o slogan “Um outro mundo possível”, o segundo defendia justamente o contrário: a manutenção do sistema capitalista. À época, o FSM pautou a imprensa clássica e criou-se uma disputa de agenda política. Porém, a conjuntura política era completamente outra e o modelo neoliberal era reinante, dentro e fora do Brasil.

Em 2002, durante a sua segunda edição, também na capital gaúcha, o FSM reuniu mais de 12 mil delegados e levantou o debate a respeito de novos formatos de se fazer comunicação, economia solidária, novas formas de governanças baseadas na horizontalidade e sem concentração de poder. Outro grande fator que não se pode esquecer é que a segunda edição do Fórum acontecia sob o início do mandato do ex-presidente Lula, pelo Partido dos Trabalhadores.

Da primeira edição, em 2001, aos dias atuais, tanto o FSM quanto o mundo e o Brasil passaram por inúmeras transformações sociais e políticas. O Fórum, que até 2003 aconteceu na cidade de Porto Alegre, se descentralizou e, em 2004, realizou a sua primeira edição fora do Ocidente, desembarcando em Mumbai, na Índia, onde mais de 100 mil pessoas participaram. Em 2005, Porto Alegre novamente recebe o FSM e conta com mais de 150 mil ativistas participantes e com um grande aparato comunicacional e alternativo organizado pela Ciranda Internacional da Informação Independente e vários coletivos de comunicação.

Em 2006, o encontro daria um passo mais ambicioso, ao realizar uma edição policêntrica, que aconteceu entre os dias 19 e 23 de janeiro na cidade de Bamako, em Mali, e, de 24 a 29 janeiro, em Caracas, na Venezuela. Em 2007, foi a vez do Quênia receber a sétima edição do FSM e, em 2009, ele retornaria ao Brasil, mas dessa vez aconteceria em Belém, no Pará. No ano seguinte, Porto Alegre, o local onde tudo começou, realizaria o décimo encontro para debater os rumos de um outro mundo possível.

Se no início o Fórum Social Mundial conseguiu incidir no debate político nacional e internacional, no decorrer de suas edições esta força foi se diluindo e os motivos para isso são vários. Há 12 anos, a agenda e os governos neoliberais eram dominantes na América Latina, mas, no decorrer do tempo, países como Brasil, Chile, Uruguai, Paraguai, Argentina, Bolívia, Peru, Equador, Venezuela elegeram governos que, se não revolucionários, adotaram uma agenda mais progressista e, inclusive, com propostas que emergiram de dentro do Fórum Social Mundial.

Além da ascensão de governos mais populares e alinhados com a agenda do FSM, uma outra transformação também ocorreu fora dos espaços institucionais, que foi o surgimento de inúmeros coletivos políticos, pautados pela organização horizontal, que é a maneira como o FSM se organiza. Houve também a ascensão da comunicação em rede, que permitiu uma interconexão global entre os novos sujeitos políticos, nos mesmos moldes da proposta originária do FSM.

Repensar o Fórum Social Mundial?

A partir do cenário descrito acima, começam a surgir questionamentos e dúvidas: a ideia de um outro mundo possível, reunida em torno do Fórum Social Mundial, ainda é possível? O FSM necessita ser repensado para dialogar com as novas forças políticas que hoje aí estão? Ele perdeu a sua incidência política? E por que não faz mais frente ao Fórum de Davos?

O ativista Chico Whitaker, um dos organizadores da primeira edição do FSM, discorda que ele tenha perdido a sua incidência. Whitaker diz que a ideia de se fazer o Fórum na mesma data de Davos foi uma “estratégia pensada pelos iniciadores do FSM para abrir espaço na grande mídia” e que sua missão nunca foi pautar a imprensa.

“Com isso se conseguia que ele aparecesse pelo menos num canto de página, como ‘o outro lado’ do assunto. Mas ele era então uma autêntica ‘novidade’, de que se tinha que falar, de algum modo. Quando os grandes jornais perceberam que o FSM não tinha ‘líderes’ que iriam erguer o mundo contra Davos, seu interesse diminuiu, ainda que fossem forçados a mandar seus jornalistas a Porto Alegre quando os grandes ‘políticos’ lá fossem [como Lula, Chávez, os candidatos a presidente da França]. Quando se decidiu realizar FSMs não todos os anos, como Davos, mas a cada dois anos, o interesse baixou ainda mais. E caiu quase a zero quando se decidiu realizá-lo em qualquer outra data, e mesmo meses depois de Davos, como em Túnis, em 2013”, explica o ativista, que atenta para o fato de que a missão do FSM é “multiplicar os espaços abertos de encontro a serviço dos que estão lutando por um outro mundo possível.

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Para Whitaker, o FSM influenciou a maneira de organização dos novos grupos (Foto: Unisinos)
Para Whitaker, o FSM influenciou a maneira de organização dos novos grupos (foto: Unisinos)

“Ele [FSM] é um ‘facilitador’ de discussões sobre o que queremos e sobre os caminhos para chegar ao que queremos. E isso continua e mesmo se amplia cada vez mais. Haja visto o fato de, neste ano de 2014, estarem sendo realizados, pelo mundo afora, mais de 40 Fóruns Sociais Temáticos, regionais e nacionais, até a realização do próximo mundial em 2015, de novo em Túnis. Repensar o Fórum é, no entanto, sempre necessário, para ir aperfeiçoando sua metodologia, com vistas a uma efetiva realização de seus objetivos”, avalia Whitaker.

Rita Freire, da Ciranda de Comunicação Compartilhada, atenta para o fato de que, de 2001 para cá, “o Fórum de Davos, que era a referência do pensamento econômico, orquestrando a vida global, perdeu relevância simbólica, porque perdeu credibilidade”. Ainda de acordo com Freire, muito da crise econômica global a que assistimos hoje fora apontada há anos pelo FSM. “O FSM dizia que o modelo era inviável e é isso que estamos vendo hoje. Portanto, Davos não é mais o contraponto simbólico do FSM, mas a dominação financeira e todas as formas de dominação continuam sendo, incluída a do poder econômico transnacional que Davos e a OMC representam. E é deste ponto de vista que precisamos avaliar o FSM hoje. Se o contraponto é a vigilância global e o mundo militarizado, o símbolo está mais na indústria bélica mundial que faz a ocupação da Palestina de showroom, e na indústria das telecomunicações que favorece a espionagem. Se a luta é contra a dominação patriarcal, o machismo e a homofobia, o símbolo está na opressão de todas as sociedades contra as mulheres, está na violência doméstica, está nas igrejas e religiões que ameaçam a laicidade dos Estados”, analisa Freire.

Damien Hazard, membro da Abong (Associação Brasileira das Organizações Não Governamentais), concorda que o Fórum Social Mundial deve ser repensado, pois o contexto social, político e econômico mudou desde o surgimento do Fórum em Porto Alegre, em 2001. “Assim como o FSM, o mundo de 2014 guarda pouca semelhança com o de 2001. Na época, as ideias e propostas do FSM eram somente isso, ideias e propostas. Não havia sequer um governo que tivesse experimentado sua eficácia. Hoje, há várias experiências não só na América Latina, mas também na África e na Europa, que implementaram as propostas sustentadas pelos movimentos do FSM em várias áreas, seja da economia popular, dos direitos sociais ou mesmo da participação popular. Isso obriga a refletir sobre o papel da sociedade civil organizada neste novo contexto. Aqui reside uma questão chave: a relação dos processos e das organizações do FSM com as dinâmicas de poder, seja nacional em relação aos governos, seja internacional em relação aos espaços multilaterais de governança global. E não há consenso dentro do FSM sobre o tipo de relações, sobre o grau de autonomia da sociedade civil frente aos governos”, reflete Hazard.

Hazard acredita que é necessário rever as relações de poder com a sociedade civil (Foto: PT)
Hazard (ao microfone) acredita que é necessário rever as relações de poder com a sociedade civil (foto: PT)

Porém, Hazard pontua que, mesmo os governos alinhados a agenda do FSM, não adotaram, até hoje, várias propostas que nasceram nos encontros do Fórum. “O FSM preserva uma radicalidade nas suas propostas políticas que nem os governos ditos democráticos e populares conseguiram preservar, por exemplo, no que diz respeito à necessidade de uma outra economia. Essa radicalidade continua essencial no debate sobre o mundo que queremos, e consegue pautar, sim, questões essenciais para esse outro mundo possível e necessário. Talvez de forma insuficiente, e aí se faz necessário repensar estratégias de incidência política do FSM e provavelmente uma outra simbologia, que não seja apenas a oposição ao Fórum de Davos”, disse o ativista.

Quem também acredita na necessidade de se repensar o modelo do Fórum Social Mundial é Soraya Misleh, ativista do grupo Palestina Livre. “Penso que precisamos refletir sobre esse processo, concluir aquele antigo debate sobre tornar o FSM mais propositivo. Hoje o Fórum, no meu entender, continua a funcionar como um espaço importante de articulação e encontros, mas não de definição de ações globais e isso precisaria ser reformulado. Exemplos dessa articulação foram o Fórum Social Mundial Palestina Livre, realizado no Brasil em 2012, e o Fórum Social Mundial na Tunísia, em 2013, em que pudemos ter contato com ativistas importantes do mundo árabe e realizamos plenárias dos movimentos por boicote a Israel ao redor do globo. Mas seria muito importante se o FSM tirasse resoluções políticas que permitissem o avanço nessas e em outras lutas”, comenta Misleh.

Um encontro de ONGs?

Antonio Negri, em seu livro “Multidão: guerra e democracia na era do império”, faz uma longa análise a respeito das novas formas de organização política e tece uma série de críticas aos partidos políticos clássicos de esquerda, os quais, segundo sua leitura, já não conseguem mais estabelecer diálogo com os atuais movimentos políticos, pois se burocratizaram ao chegar ao poder. Negri aponta o Fórum Social Mundial como tendo sido o principal foco de uma nova forma de se fazer política e a mais próxima do conceito de Multidão, onde, a partir de uma grande frente relacional, uma proposta de um outro mundo possível, em nível global, seria possível. Porém, o filósofo avalia que o FSM perdeu a sua força política e que se reduziu a um encontro de ONGs e que, talvez, fosse necessário pensar em um outro instrumento que aglutinasse inúmeras frentes de luta.

Rita Freire discorda dessa leitura e utiliza como argumento o Fórum Social Mundial na Tunísia. “A resistência democrática do país estava reunida nesse espaço, buscando se fortalecer para suportar o jogo duríssimo que veio na sequência da derrubada da ditadura. Algumas semanas antes do FSM, a principal liderança da frente democrática, Chokri Belaid, havia sido assassinado e os movimentos e lideranças que o apoiavam estavam lá, fazendo o FSM. Alguns dias antes, tivemos a notícia da morte de Chávez, e aquelas pessoas lá no mundo árabe estavam homenageando sua vida de resistência ao imperialismo. A marcha em favor da Palestina reuniu gente de todo mundo, durou horas, quilômetros, e a prioridade que se dá para a questão palestina é tão grande que até grupos que se opõem no enfrentamento sangrento na Síria estiveram ali, naturalmente não juntos, mas marcharam pela Palestina. E as organizações sociais, que principalmente no Brasil se entendem como movimento social e não como aparato assistencial, estiveram lá discutindo modelos de desenvolvimento opostos às grandes obras e saídas ambientais opostas à economia verde”, diz Freire.

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Rita Freire afiram que as pautas do FSM ainda permanecem nas ruas (Foto: Acervo Fundo Brasil)
Rita Freire afirma que as pautas do FSM ainda permanecem nas ruas (foto: Acervo Fundo Brasil)

Whitaker afirma que a leitura de Negri não tem “base na realidade” e que outros intelectuais pensam de forma semelhante. “Alguns intelectuais que gostariam que ele (FSM) fosse outra coisa, mais diretiva, mais de tipo “movimento”, e nunca entenderam muito bem os seus objetivos e o tipo de necessidade a que pretende responder. Negri talvez tenha se deixado convencer por essa visão do FSM. E dizer que o “outro mundo possível” não é mais pautado nos Fóruns me parece meio forçado, salvo se ele considera, o que não creio, que a superação do capitalismo – ou, como se diz no FSM, do neoliberalismo – só será obtida com um tipo único de ação política ou de luta social. Valeria a pena que se informasse sobre o FSM de 2013, em Túnis, onde a realidade política que se vivia naquele país deu um grande vigor às discussões que nele se realizaram, e que visavam como sempre encontrar caminhos de superação do neoliberalismo”, contrapõe o ativista.

Misleh, do grupo Palestina Livre, comenta que a questão central, talvez, seja pensar em atrair novos grupos, mas também rechaça a leitura feita por alguns intelectuais e ativistas a respeito do FSM. “Não penso que se trata exclusivamente de um encontro de ONGs, haja visto que os movimentos sociais ainda continuam a ter presença. Mas é importante, como já disse, repensar sua formulação, até para atrair novas organizações e intensificar a tão necessária luta política”.

Misleh, do grupo Palestina Livre, acredita que o FSM é fundamental para a luta política (Foto: USP)
Misleh, do grupo Palestina Livre, acredita que o FSM é fundamental para a luta política (foto: USP)

Para Hazard, dizer que o FSM se tornou um encontro de ONGs é “uma análise simplista”. “Há outras análises similares de intelectuais e militantes latino-americanos saudosos dos primeiros fóruns. Considero que essas visões sobre o processo do FSM e sobre sua relação com o mundo podem ser qualificadas de “brasilo-cêntricas” ou “latino-cêntricas”. Aliás, há outras críticas, vindas de fora do Brasil, que consideram que o problema do FSM é de ter sido dominado pelos brasileiros. Considero que essas duas análises são redutoras, parciais e equivocadas, movidas por um certo grau de desinformação”, critica o ativista.

Os novo contexto político e a persistente busca por um outro mundo possível

Como apontado pelos entrevistados, que estão envolvidos no processo do Fórum Social Mundial desde o início, o mundo mudou desde 2001, partidos políticos alinhados com as propostas do FSM chegaram ao poder e muitos deles permanecem. Outro fator a ser analisado, principalmente com as manifestações de junho, é que muitos dos coletivos que ganharam visibilidade – mas que já existiam – com os protestos de junho possuem formas de organizações semelhantes à do FSM.

“O que é interessante nesses novos coletivos é exatamente o fato de eles terem assumido muitos dos princípios que orientaram a organização dos FSMs, como a horizontalidade, a autogestão, a negativa em “representar” todos que se engajam em lutas pela mudança, o cuidado em não se deixar instrumentalizar por partidos nem governos. E, por isso mesmo, os coletivos novos que persistem vêm progressivamente se articulando cada vez mais com os processos do FSM, ao mesmo tempo em que vêm deles exigindo uma plena coerência com o que ele mesmo se propõe a ser”, avalia Chico Whitaker.

Damien Hazard avalia que o Comitê Internacional (CI) do FSM não conseguiu acompanhar as mudanças nas relações de poder e que isso é preciso ser pensado. “Há desafios nos processos de tomada de decisões dentro do CI, o que significa repensar as relações de poder dentro de uma lógica de horizontalidade, as formas de participação e de se fazer política. Há necessidade de dar mais visibilidade aos posicionamentos que emergem do FSM, e aos processos de convergência. Nesse sentido, a experiência da metodologia da Cúpula dos Povos se inspirou na metodologia do FSM, mas conseguiu ir além dela, levando a textos de convergência dos 120.000 participantes! Acho que essa metodologia deveria inspirar o FSM”, diz Hazard.

E a busca por um outro mundo possível ainda é possível? “Ainda é possível fazer a luta política por justiça social? Por outro modelo econômico? Por um mundo sustentável? Por um mundo não homofóbico, não racista, não colonial, não patriarcal, não militarizado, não bélico, não excludente, não baseado na dominação? A pergunta é a mesma. Outro Mundo Possível é a utopia de um mundo mais justo. É o que ocupa as ruas hoje”, afirma Rita Freire.

“Não se trata de saber se é possível ou não. O que se tem que fazer é continuar a luta, sem nos enganarmos a nós mesmos sobre nossa força real e sobre a força dos que querem manter o mundo como ele é. Ou seja, buscando sempre melhorar nossas estratégias. Ou será que temos que desistir de superar o capitalismo, e considerar que ele representa mesmo o “fim da história”? Vale a pergunta: o que é isso, companheiro?”, questiona Whitaker.

Para os ativistas, o FSM influencia movimentos do mundo inteiro (foto: Ultradownload)
Para os ativistas, o FSM influencia movimentos do mundo inteiro (foto: Ultradownload)

(Crédito da foto de Capa: Wikimedia Commons)