Homens feministas: um debate em construção

Eles devem ser ativos ou apenas apoiar a causa? Como devem se identificar? Seu papel ainda é muito discutido entre as correntes feministas

Por Jarid Arraes

O Feminismo é um movimento filosófico, social e político formado por diversas correntes e teorias que diferem e convergem em vários pontos. Embora seja apresentado como uma luta por equidade entre homens e mulheres, ao longo da história emergiram muitas questões de debate. Isso pode ser observado ao comparar várias correntes, como o Feminismo Negro, o Feminismo Radical ou o Transfeminismo, que possuem focos políticos, métodos de ação e visões teóricas muito diferentes sobre determinados temas – e um dos maiores pontos de divergência é o papel dos homens nessas articulações.

A participação masculina em espaços, coletivos e protestos feministas é um assunto mais ou menos controverso, que encontra apoio e críticas de todos os lados. Alguns grupos de mulheres preferem manter suas reuniões e conversas somente entre o gênero feminino e alguns grupos conservadores não enxergam positivamente o engajamento masculino de modo geral. Não obstante, muitos homens fazem questão de juntar-se ao movimento, buscam participar e também possuem visões distintas entre si. Ou seja, mesmo entre os homens que se consideram feministas, pró-feminismo ou simplesmente a favor da igualdade entre homens e mulheres, há muito a ser discutido.

Feminista ou pró-feminismo?

Entender a pluralidade de posicionamentos entre homens que se engajam de alguma forma nas demandas feministas é um processo que exige disposição para leituras, pesquisas e debates, e pode ter um ponto de partida pelas próprias definições identitárias utilizadas por alguns deles. Existe uma discussão a respeito de como esses homens devem se identificar, com a prevalência de dois termos: feminista ou pró-feminismo. A diferença entre eles, embora pareça irrelevante, pode revelar muitos aspectos de como esses indivíduos encaram seus papéis políticos. É impossível reduzir todo o debate a pequenas explicações, mas de modo geral podemos resumir os significados dos termos, de acordo com os modos mais comumente usados, para simplificar o entendimento inicial:

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É importante ressaltar, no entanto, que esses posicionamentos não são unânimes. Ou seja, mesmo entre homens que se identificam como feministas, há o entendimento de que o Feminismo é uma luta protagonizada por mulheres, assim como nem todos os homens que se dizem “pró-feminismo” se envolvem em debates sobre a apropriação do termo. As categorias identitárias e suas justificativas não acabam por aí: são tão diversas e complexas que somente uma investigação minuciosa, debruçada sobre a fala e atuação desses homens seria capaz de oferecer um conhecimento mais organizado ou sistematizado.

Para dar um pontapé inicial e instigar pesquisas e debates sobre o assunto, contamos com a participação de oito homens que se dispuseram a falar sobre suas vivências pessoais e políticas no campo do gênero.

A entrevista

Foram entrevistados homens de diferentes idades, profissões, orientações sexuais e visões políticas. Entre eles, quatro se consideram feministas e três pró-feminismo, enquanto somente um não se apresenta por nenhum desses termos.

Os participantes responderam uma de diversas perguntas, abrangendo vários campos de abordagens políticas, experiências de vida e opiniões pessoais sobre as relações de gênero dentro do movimento feminista.

Identificação política

Sete dos oito entrevistados identificam-se como feministas ou pró-feminismo. De modo geral, a percepção de desigualdade dentro de casa, na escola, no trabalho e em outros ambientes sociais é um fator predominante na autoidentificação dos entrevistados. A escolha por um termo ou outro varia entre os participantes por vários motivos, entre eles o seu entendimento pessoal sobre o assunto, sua imersão na luta e sua solidariedade às mulheres.

Na Marcha das Vadias do Rio Grande do Sul, em 2013, homens estiveram presentes para protestas ao lado das mulheres (Mídia NINJA)
Na Marcha das Vadias do Rio Grande do Sul, em 2013, homens estiveram presentes para protestar ao lado das mulheres (fotos: Mídia Ninja)

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Eli Vieira, biólogo de 27 anos, afirma-se feminista e explica que tal prática independe de gênero: “Prefiro falar em pessoas feministas a homens feministas. Pessoas feministas aceitam os problemas do sexismo e fazem esforço para combater esses problemas”. Embora aprecie os estudos teóricos de gênero, conta que aprendeu a identificar o machismo ainda em casa, pois cresceu com três irmãs e uma mãe que sempre foram muito independentes, donas de si e empoderadas. “Elas nunca usaram o termo, mas era isso o que elas eram: feministas”.

Enquanto a ideia de que basta acreditar nos ideais do Feminismo para ser feminista é bastante comum mesmo entre as mulheres, há muitos que acreditam que, para ser feminista, é preciso fazer parte de um movimento, não somente com demandas políticas, mas também com focos de luta e métodos específicos para alcançar os objetivos. Para Marcelo Niel, médico psiquiatra de 40 anos, sua identidade como “pró-feminismo” se origina de uma falta de conhecimento aprofundado e proximidade com o movimento, apesar de reconhecer a sua importância para a sociedade: “Acho que não tenho conhecimento o suficiente para me identificar como feminista, mas sou extremamente partidário e concordante com a luta, e é por isso que me sinto capaz de me identificar como ‘pró-feminismo'”.

As diferenças entre os termos, no entanto, nem sempre são tão claras, muitas vezes se resumindo unicamente à categorização pessoal do indivíduo. O estudante Lucas Oliveira, de 27 anos, somente utiliza o termo “pró-feminismo” para deixar claro o seu ponto de vista, sem necessariamente reivindicar um espaço dentro do movimento. “A identificação como ‘pró-feminismo’ não é algo que eu reivindique com frequência. Aliás, não costumo reivindicar nenhuma identificação enquanto militante. Nem mesmo a de militante. O faço em momentos específicos, como agora. E uso apenas para deixar localizado, pelo menos de maneira superficial, sob qual ótica estou falando”.

O termo “pró-feminismo”, aliás, é adotado por muitos homens que entendem a importância do Feminismo, mas desejam demonstrar respeito e cumplicidade ao protagonismo das mulheres. O professor universitário de 34 anos Henrique Marques-Samyn começou a se apresentar como pró-feminismo quando se deparou com homens que se consideravam feministas, mas desqualificavam espaços exclusivos para mulheres. “Nessa época tive o primeiro contato com o conceito de pró-feminismo, que desde então passei a defender”. Lucas concorda e acrescenta: “Nós, os homens, mesmo os que se autointitulam feministas, reproduzimos uma série de comportamentos patriarcais, como calar companheiras, tomar o protagonismo em manifestações, deslegitimar ou menosprezar as opiniões de mulheres, e chamá-los de ‘homens feministas’ dá certa legitimidade para esses atos”.

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“Enquanto a ideia de que basta acreditar nos ideais do Feminismo para ser feminista é bastante comum mesmo entre as mulheres, há muitos que acreditam que, para ser feminista, é preciso fazer parte de um movimento, não somente com demandas políticas, mas também com focos de luta e métodos específicos para alcançar os objetivos.”

Ainda que o feminismo seja considerado fundamentalmente uma luta das mulheres por todos os entrevistados, há divergências quanto à legitimidade das opiniões masculinas nas discussões. “Rejeito a tese de que obras intelectuais sobre feminismo ou outros assuntos possam ser aceitas ou rejeitadas com base no gênero de quem as escreveu”, diz Eli Vieira. De modo similar, Junior Ferrer, estudante de 21 anos, pensa que alguns grupos são muito exagerados ao excluir totalmente qualquer participação masculina, mas reconhece que não entende a motivação por trás do afastamento de todos os homens. “Fico intrigado com esse posicionamento. Porque, se é pra acabar com uma sociedade desigual, temos que formar e sensibilizar todas e todos para que possamos desconstruir essa imagem construída socialmente do papel do homem e da mulher.”

Mesmo com tantas motivações diferentes para a adoção das mais diversas identidades, é perfeitamente possível ser um homem consciente das necessidades das mulheres e um aliado da luta feminista, ainda que sem qualquer identificação política. Alexandre Nunes, também professor universitário, de 31 anos, foi o único entrevistado a não se identificar com nenhum título em especial. Apesar disso, diz que passou a ter interesse pelo Feminismo quando começou a estudar a Teoria Queer.

Muito além de uma questão de identidade, entre os entrevistados houve pluralidade de vertentes feministas consideradas mais coerentes ou pertinentes, pelas quais possuem mais afinidade ou enxergam como urgentes, tais como as pautas trans e negras. Além disso, vários termos pouco populares foram citados, entre eles o “Feminismo Racionalista” e o “Feminismo Cético”.

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O papel do homem no feminismo

A ideia de que o Feminismo é uma luta protagonizada pelas mulheres é muito repetida por quase todos os entrevistados. “O Feminismo é a forma que elas têm de enfrentar aquelas estruturas que nos privilegiam e que as oprimem. É nosso dever apoiá-las”, diz Henrique Marques-Samyn.

Junior Ferrer também acredita que o homem precisa entender que não é o principal alvo do machismo e tem um papel de apoiar as mulheres. “Ele tem que estar sensível a não reproduzir atos machistas, e ter formações para que sensibilize outros homens a se reconhecerem como machistas. É preciso construir um ‘novo’ homem, sem retirar a autonomia das suas companheiras nesta luta”. Cauê Pinheiro, outro estudante de 18 anos, também feminista, adiciona que o homem tem o papel de quebrar o patriarcado de dentro: “O homem tem o papel de levar questionamentos aos seus amigos, tendo em vista que muitas vezes estes não ouvem por julgar a luta feminista inútil e exagerada, estando bem com o seu papel de opressor”.

O fato é que, quer sejam participantes ativos ou apenas aliados, os homens são importantes para que sejam levados valores de igualdade a lugares e pessoas que as mulheres – por causa da misoginia da sociedade – não alcançam. Como diz Lucas Oliveira, “naqueles ambientes majoritariamente masculinos, no bar com os amigos, no jogo de futebol, nas baladas gays etc. E, claro, desconstruir a própria masculinidade e questionar os próprios privilégios”.

Para solucionar um problema estrutural como o machismo, que está enraizado na cultura e na história brasileira, não basta criar uma consciência política. “As pessoas feministas não podem se iludir, sendo homens ou não, que se afirmar feminista basta para eliminar seus próprios vieses inconscientes”, exemplifica Eli. É necessário união para que as próximas gerações sejam cada vez mais evoluídas e para que os valores e os costumes sexistas sejam deixados cada vez mais para trás. Marcelo Niel acha que um homem feminista ou pró-feminista é alguém que poderá ensinar aos seus pares que homens e mulheres têm os mesmos direitos. “Esse sujeito vai se engajar inclusive fora do mercado de trabalho e vai ensinar aos seus filhos que as tarefas [domésticas] são deveres de todos”.

É interessante notar que, mesmo entre aqueles que acreditam que homem também é vítima de machismo, o consenso é que o objetivo primário de um homem feminista não deve ser lutar pelos próprios direitos, mas sim colaborar para derrubar o machismo estrutural e solidarizar com a luta pelos direitos das mulheres. Fernando Sales, publicitário de 26 anos, até mesmo relutou em responder as perguntas da entrevista, por acreditar que a participação masculina no Feminismo pode ser problemática, pois “não é raro que mesmo com boas intenções, acabemos silenciando mulheres justamente nos poucos espaços onde há um esforço para empoderar as suas vozes”.

"O fato é que, quer sejam participantes ativos ou apenas aliados, os homens são importantes para que sejam levados valores de igualdade a lugares e pessoas que as mulheres - por causa da misoginia da sociedade - não alcançam.." (Mídia NINJA)
“O fato é que, quer sejam participantes ativos ou apenas aliados, os homens são importantes para que sejam levados valores de igualdade a lugares e pessoas que as mulheres – por causa da misoginia da sociedade – não alcançam.”

Conclusão

Independente da ótica a ser usada como critério de análise, o comportamento masculino é relevante para a luta das mulheres e precisa ser estudado e politizado; afinal, o mundo é formado por indivíduos de todos os gêneros e suas ações formam nossa sociedade e nossa cultura.

Os homens entrevistados são apenas uma pequena representação da imensidão de opiniões masculinas a respeito do Feminismo. Como é possível perceber, mesmo em uma seleção tão pequena de homens, com somente oito entrevistados, há uma grande variedade de opiniões e afinidades políticas.

Mesmo com todas as suas divergências, considerem-se feministas ou pró-feminismo, ou mesmo que não se identifiquem politicamente com qualquer termo, homens conscientes são essenciais para a evolução da sociedade. Esses são homens que, além de ponderar e se policiar para não contribuir com a manutenção dos valores patriarcais, ensinarão a família e os amigos a respeitarem as mulheres. São homens que se posicionam ao lado das mulheres quando é preciso fazer pressão social e quando é preciso intervir em uma situação de violência.

(Crédito da foto de capa: Marcelo Camargo/Agência Brasil)