“Eu optei por ser pobre pela riqueza de conteúdo”

Com mais de 30 processos nas costas por conta das reportagens que publicou, Lúcio Flávio Pinto, um dos maiores nomes da imprensa alternativa, conta sua saga na mais loga experiência de jornalismo genuinamente independente no Brasil: o Jornal Pessoal 

Por Ivan Longo

O jornalista e sociólogo Lúcio Flávio Pinto. (Foto: Maria Christina)
O jornalista e sociólogo Lúcio Flávio Pinto. (Foto: Maria Christina)

Em tempos de internet, muito se fala sobre o jornalismo independente ou a mídia alternativa. Entende-se por alternativa aquela imprensa que não compra o discurso hegemônico e que procura, através de suas matérias, trazer à tona assuntos de relevância pública sem ter que se submeter a interesses comerciais ou econômicos. A possibilidade aberta pelas redes de disseminar informações a um número praticamente infinito de pessoas permitiu que se criassem espaços classificados como alternativos.

Já nos anos 60 e 70, durante o regime militar instaurado no país a partir do golpe de 1964, a existência de jornais alternativos à grande imprensa – que compactuava com o Estado – era praticamente uma obrigação. Perseguidas, aos poucos, essas publicações foram tendo o seu fim e, ao término da ditadura, com a redemocratização, acreditava-se que esses jornais já não seriam mais necessários.

Essa necessidade, no entanto, não voltou apenas agora com o advento da internet. É certo que o número de publicações alternativas aumentou mas, em 1987, com o pé ainda no regime militar, o jornalista e sociólogo Lúcio Flavio Pinto já enxergava o quão essencial é à democracia uma imprensa sem amarras. Natural de Santarém, no estado do Pará, o jornalista que antes era correspondente do jornal O Estado de São Paulo na capital paraense e repórter da publicação O Liberal, viu-se limitado, naquele ano, em publicar uma matéria sobre uma fraude no Banco da Amazônia, por comprometer os interesses econômicos dos jornais em que trabalhava.

Daí surgiu a ideia da criação do Jornal Pessoal, publicação independente, de um só redator, que, nas palavras de Lúcio Flávio Pinto, “publica aquilo que ninguém quer publicar”. Com a pauta focada na agenda amazônica, o jornal tem como objetivo fazer a cobertura da Amazônia legal que há anos passa ignorada pela grande imprensa, que insiste em não falar sobre inúmeras irregularidades que acontecem naquela região.

Grilagens, fraudes no sistema financeiro e desmatamentos ilegais são alguns exemplos de pautas corriqueiramente encabeçadas pelo Jornal Pessoal que, desde sua criação, em 1987, não admite nenhum tipo de publicidade. “Eu não quis ter publicidade porque publicidade condiciona, e eu não quero ter condicionante nenhum”, afirmou o redator solitário. A ausência de publicidade implica também em uma receita muito menor à publicação, fator este que Lúcio Flávio Pinto está completamente ciente e considera essencial para a qualidade, em conteúdo, de sua publicação. “E eu optei pela pobreza, a pobreza formal,  pela riqueza de conteúdo. É um jornal verdadeiramente independente”, afirma.

Há 26 anos circulando quinzenalmente apenas em Belém, o Jornal Pessoal, que não usa cores, imagens ou grandes atrativos gráficos, tornou-se o mais antigo veículo genuinamente independente em atividade no Brasil e fez com que seu editor fosse incluído na lista dos “100 heróis da informação no mundo”, da ONG Repórter sem Fonteiras, ao lado de figuras como Edward Snowden e Julian Assange.

Entre outros assuntos, Lúcio Flávio Pinto conversou com a Fórum sobre as principais características do jornalismo independente, suas dificuldades nessa saga e a experiência do Jornal Pessoal.

Além de editor do jornal, o jornalista escreveu diversos livros sobre meio ambiente e Amazônia como “Amazônia: o anteato da destruição”, “Carajás: o ataque ao coração da Amazônia” e “Amazônia: a fronteira do caos”, além de ter ganhado quatro prêmios Esso e dois Fenaj, da Federação Nacional dos Jornalistas, que em 1988 considerou o Jornal Pessoal a melhor publicação do Norte e Nordeste do país.

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Fórum – Como surgiu a ideia e e como foi o processo de criação do Jornal Pessoal

Lúcio Flavio Pinto – O Jornal Pessoal surgiu dois anos depois da volta da democracia no Brasil. Então, nessa época, nós tínhamos a presunção de que havia liberdade completa de expressão. Tinha acabado a censura estatal, a intervenção comercial dentro das redações, os meios formais permitiam total liberdade de informar a população. Não teria a necessidade, então, de jornais alternativos e essa era a interpretação geral: de que a era dos jornais alternativos tinha acabado com a ditadura. Só que em setembro de 1987 eu tinha passado três meses investigando o assassinato de um deputado estadual, que foi o mais grave crime político daqui [Belém do Pará]: o assassinato do deputado estadual Paulo Fonteles de Lima, que foi o primeiro advogado de posseiros do sul do Pará. E eu fiz uma matéria longa sobre isso e os jornais locais não quiseram publicar. O Estadão, do qual eu era correspondente em Belém, também não se interessou. E aí eu resolvi fazer o Jornal Pessoal com o objetivo de publicar essa matéria.  Em princípio, achava que o jornal rapidamente cumpriria a sua função: a de publicar aquela matéria e alguma outra que não poderia sair e depois acabaria, porque a gente estava bem na fase de transição do regime democrático. Mas acontece que, uma edição após a outra, as matérias que o Jornal Pessoal divulgava não saíam em mais lugar nenhum. E não eram matérias secundárias, eram matérias vitais. Por exemplo, no segundo número do jornal, eu publiquei um levantamento sobre uma fraude no Banco da Amazônia, que é o único banco federal da região. Essa fraude foi comandada pelo presidente interino do banco, Augusto Barreira Pereira, que era o diretor do departamento jurídico d’O Liberal. No Liberal eu tinha feito a primeira edição do Jornal Pessoal com a autorização deles, desde que não citasse a gráfica. A segunda edição eu já não pude fazer na mesma gráfica porque o diretor jurídico era do jornal, então eles não podiam mais permitir que a gráfica fosse usada. E aí eu comecei a mudar. Desde então, já passei por mais de 10 gráficas e agora estou há 12 anos em uma que é uma pequena gráfica de periferia. Porque todas as outras gráficas que eu fui usando foram pedindo pra sair, afinal havia pressão sobre elas e isso começou logo no segundo número do jornal. Quando eu publiquei a matéria do Banco da Amazônia, ninguém tinha dado esse caso. Foi o primeiro caso enquadrado na nova lei (ainda era recente): a do crime de colarinho branco, lei contra os fraudadores do sistema financeiro nacional. Então esse presidente do Banco da Amazônia foi o primeiro cidadão processado por essa lei. E foi um caso tão grave na denúncia que a imprensa que tava envolvida diretamente no caso acabou tendo que publicar. Na mesma época, o secretário de Finanças da Filadélfia se suicidou na frente dos jornalistas porque tinha sido acusado de dar um desfalque na secretaria de 300 mil dólares, 10 vezes menos do que o desfalque no Banco da Amazônia que ninguém publicava. Então esses casos foram me mostrando que, ao contrário do que todo mundo presumia, a imprensa alternativa tinha que continuar. Porque a grande imprensa foi, progressivamente, aumentando a autocensura por questões de conveniência, interesses da empresa e até mesmo contaminando os próprios jornalistas que, mesmo sem a ordem do patrão, evitavam fazer as matérias que pudessem causar problemas a ele. Então, o Jornal Pessoal vai fazer 27 anos e a sua função no mercado é publicar aquilo que ninguém quer publicar.

Primeira edição do Jornal Pessoal, de 1987. (Foto: reprodução/Acervo Biblioteca da Universidade da Flórida)
Primeira edição do Jornal Pessoal, de 1987. (Foto: Reprodução/Acervo Biblioteca da Universidade da Flórida)

Fórum – Por que optou por editar o jornal sozinho?

Lúcio – Eu já tinha outras experiências com imprensa alternativa. Em 87, quando decidi fazer o Jornal Pessoal, eu já estava havia 21 anos no jornalismo. Nesses 21 anos eu já tinha trabalhado na grande imprensa em veículos como Estadão, Veja, Istoé, e na alternativa também com Opinião, Versos, Nacional… De todas as publicações alternativas importantes dessa época eu participei. Na grande imprensa eu trabalhava como um assalariado. Na imprensa alternativa, como um voluntário. Então eu vi que todas as alternativas foram fechando, não só pela perseguição da censura, mas também por não terem uma estrutura compatível com uma organização alternativa. Elas eram alternativas na redação mas não eram alternativas na administração. E o Jornal Pessoal não tinha nenhuma ilusão sobre a possibilidade de uma publicação verdadeiramente independente sobreviver se não fosse alguns critérios. O primeiro critério é o menor custo possível. Uma só pessoa é o menor custo piossível por que não existe jornal psicografado. Depois, não criar uma estrutura administrativa pra onerar. Além disso, o jornal vende somente em banca e é uma distribuição muito eficiente. Não tem cor, não gasta em usar tinta na impressão, que encarece de 20% a 30% e também não tem publicidade. Acho que foi a primeira publicação alternativa que no primeiro número diz: “Esse jornal jamais terá publicidade”. Todos dizem que a publicidade é necessária para uma imprensa democrática. É verdade, desde que a imprensa democrática tenha uma estrutura maior. Porque 80% de uma receita de uma empresa de jornalismo é publicidade. Mas, no meu caso, eu não quis ter publicidade porque publicidade condiciona e eu não queria ter condicionante nenhum. Foi a estrutura mínima: um jornal sem fotos, um jornal sem cor, um jornal tamanho A4, que foi o tamanho mínimo para o jornal viver da venda avulsa. Eu não vivo do jornal, mas o jornal vive da venda avulsa. A receita da venda em bancas, que é uma mídia horrível pra comercializar qualquer publicação, paga suas despesas elementares.

Fórum – E você acredita que é possível o jornalismo viver sem publicidade? 

Lúcio – Nenhuma empresa vive sem publicidade, há uma estrutura pesada. Eu tenho uma organização alternativa. E alternativa significa que ela jamais será uma publicação rica, uma publicação bem-sucedida economicamente. Sempre será pobre. E eu optei pela pobreza, a pobreza formal,  pela riqueza de conteúdo. É um jornal verdadeiramente independente. A única limitação que ele tem é o tempo que o seu redator solitário tem para apurar todos os fatos que são importantes para  sair naquela edição quinzenal. Então eu optei por ficar pobre. Não é só o jornal que é pobre, eu fiquei também. A minha última avaliação patrimonial foi pouco antes de fazer o Jornal Pessoal. De lá para cá, nunca tive nenhum patrimônio. Pelo contrário, fui me desfazendo do pouco patrimônio que tinha pra fazer o jornal sobreviver.

Fórum – Como é repercussão do Jornal Pessoal em Belém? Há legitimidade entre a população? 

Lúcio – O jornal é um jornal de aparência bem precária, sem grandes atrativos gráficos e tem uma tiragem de 2 mil exemplares. Circula em 70 bancas em Belém e vai como cortesia para algumas pessoas. É o jornal que mais vende em banca, mas isso não significa grande coisa, porque os outros jornais têm os assinantes e são vendidos pelos jornaleiros na rua. Agora, ele tem uma repercussão grande também fora de Belém, porque os artigos são reproduzidos em vários blogs, vários sites… Foi por essa medida de importância que o Repórter sem Fronteiras me incluiu na lista de um dos 100 heróis da informação no mundo. Então, é um jornal pequeno, impresso em papel, que circula em Belém, vende em banca, que deveria estar desaparecendo, não deveria ter repercussão nenhuma. Mas a repercussão dele é em função do conteúdo. O conteúdo dele é único. As pessoas que se interessam por Amazônia não encontram esse tipo de informação, ou de angulação, ou de análise, em outras publicações. Então é fruto de uma dedicação que existe desde que eu entrei no jornalismo em 1966. Meu patrimônio são as minhas fontes, minhas informações e minhas experiências, que são todas canalizadas ao jornal pessoal. É o conteúdo do jornal que faz com que ele tenha sido editorial do Washington Post, já saiu no Independent, no Guadian, no Le Monde. Com tudo para não repercutir, ele repercute.

Fórum – Quais as principais pautas amazônicas que não são tratadas pela grande imprensa?

Lúcio – Eu diria que a principal é a questão da Vale. Ela é hoje um dos maiores anunciantes do Brasil. A Vale anuncia como se fosse empresa de varejo. O produto dela é medido em milhões de toneladas, que é o minério de ferro. Ele é vendido sobretudo no mercado internacional. A Vale não tem mais que meia centena de clientes. Por que ela anuncia tanto se não é empresa de varejo? É porque ela quer controlar as opiniões sobre si mesma. Então, você vai encontrar no Jornal Pessoal matérias sobre a Vale que não saem em nenhum outro lugar. E não é porque só eu saiba daquilo. É que os outros não vão dar pois a verba de publicidade da Vale é um instrumento de dissuasão e persuasão. A Vale não é analisada numa visão critica, profunda, por causa do peso que ela tem de publicidade nas empresas jornalísticas. Então, isso faz com que o Jornal Pessoal tenha uma visão única sobre ela, que é hoje a maior empresa do Brasil, a empresa que mais influi na pauta comercial e tem um produto que é linha de frente, o ferro, que pesa mais no país do que pesava o café na República Velha. Eu até criei um blog pra drenar todas as matérias só sobre a Vale. Já tem 130 postagens em mais de dois anos só de matérias sobre o assunto.

Fórum – Mesmo na era da internet, o Jornal Pessoal continua circulando em papel. Para você, qual a importância do impresso? 

Lúcio – Olha, hoje se você quer acessar a melhor coleção do Jornal Pessoal, tem que ir na biblioteca da Universidade da Flórida. Eles tem lá a melhor

Lúcio Flávio Pinto não admite publicidade em sua publicação. (Foto: Francisco Ucha)
Lúcio Flávio Pinto não admite publicidade em sua publicação. (Foto: Francisco Ucha)

forma de armazenamento do jornal pessoal. Isso mostra que a matriz dentro do impresso é uma matriz que migra tranquilamente para a internet, o que nem sempre acontece no sentido inverso. Minha preocupação em manter o jornal impresso é devido ao fato de ele permitir uma visão critica do leitor. O leitor do jornal impresso é muito mais crítico, no sentido de fazer crítica consistente, em que ele demonstra o que ele está falando e não que simplesmente fala coisas absurdas como é comum na internet. O leitor do jornal é um leitor muito mais exigente que o da internet, é muito mais rigoroso. E por isso as informações que saem no Jornal Pessoal têm uma repercussão muito maior por ser um jornal impresso. Por que ele mobiliza uma atenção crítica muito mais fundamentada, consistente, que na internet.

Fórum – Por conta das denúncias feitas em suas reportagens, você já foi alvo de uma série de processos judiciais. Algum deles você perdeu? 

Lúcio – De 1992 para cá eu fui submetido a 33 processos na Justiça. Desses, 19 foi pelos irmãos que são donos do Grupo Liberal, que é filhado da Rede Globo. Eu acho que não existe na historia da imprensa um profissional tão processado por uma empresa jornalística quanto eu. E aí é estranho porque a TV Globo tem uma audiência em televisão aqui, tem o domínio do mercado, é um império mesmo, no entanto, nunca cita. Eles nunca falam das questões que eu sussito. Dizem que é calúnia e difamação mas não contestam. Então, foram para a Justiça. E eles foram sabendo que esse era o caminho melhor, mais eficiente para tentar me calar. Não pela censura. Isso seria um ato de repercussão negativa muito grande. Mas, sim, me absorvendo tempo. Um processo atrás do outro… Eu não tenho advogados para me defender quanto a eles, então eu tive que recorrer a advogados amigos, muito amigos, mas que teriam uma serie de demonstrações desfavoráveis a me defender. Então passei a eu mesmo fazer minha defesa, junto com uma pessoa qualificada.Isso me tomou muito tempo, chegou num ponto que quase não tinha tempo e nem energia para o Jornal Pessoal. A Justiça tem se prestado muito para isso no Brasil, de servir de instrumento pra excessos de poder. E não se preocupam em contestar o conteúdo, porque sabem que não podem fazer isso. Uma coisa que todos sabem, mesmo meus inimigos, é que eu não toco em nenhum assunto que eu não possa provar, sobretudo provar com documentos oficiais, ou documentos das fontes envolvidas. Eu nunca fui desmentido.

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Fórum – Então você não perdeu nenhum… 

Lúcio – Ainda têm 5 processos em andamento. Os outros foram arquivados. Só um que eu perdi em última instancia, mas porque eu quis. Foi um processo que eu podia recorrer, mas não quis recorrer, e tive que pagar uma indenização que a Justiça do Pará me obrigou a fazer ao maior grileiro de terras do estado e do mundo. O filho do Reigo Almeida, dono da FR Almeida, do Paraná. É que eu denunciei a grilagem que ele praticava em uma área equivalente ao 21º estado brasileiro. A Justiça Federal reconheceu o crime. O próprio tribunal demitiu por justa causa todos os funcionários do cartório quando foi feita a grilagem mas me condenou a indenizar o cidadão. Eu achei mais importante que recorrer, no grau em que já estava que o tribunal de manter todas as decisões contra mim,  aceitar condenação e fizer uma vaquinha através da internet. 770 pessoas doaram o valor que chegou a R$28 mil pra ficar claro que aquilo era um protesto contra a atitude do Tribunal de Justiça do Pará que, não só não exerceu sua juridição em busca da verdade como se colocou contra o interesse público do estado. Esse foi o único. Os outros processos eventualmente eu ganhei. O que eu acho mais interessante é que eu comecei a trabalhar dois anos depois do início da ditadura, e de 1966 a 1986 eu fui processado apenas uma vez, pela Lei de Segurança Nacional e a auditoria militar não aceitou a denuncia. Fui para a Justiça comum e fui absolvido. Por outro lado, ironicamente, na era da democracia, já fui condenado 5 vezes.

Capa da edição número 456 do Jornal Pessoal. (Foto: reprodução)
Capa da edição número 456 do Jornal Pessoal. (Foto: Reprodução)

Fórum – Você acredita, então, que a vigilância sobre o jornalismo alternativo é ainda maior hoje do que era no regime militar? 

Lúcio – Não maior porque não tem mais censura estatal, mas a justiça está sendo claramente tendenciosa contra a liberdade de  imprensa. E o cerceamento da liberdade de imprensa através de tendências de indenizações abusivas tem sido a atitude que a Justiça do Brasil tem tomado, que é mais ou menos parecida com a república de Weimar, na Alemanha. Eu não acho que a situação seja a mesma, nós não estamos no entre guerras, mas a Justiça tem agido contra o interesse da democracia no Brasil, porque ela tem cerceado a liberdade de expressão, que é uma garantia constitucional.

Fórum – Com a internet, estão surgindo cada dia mais veículos online que se dizem independentes. Como você enxerga este cenário? 

A internet é um maravilhoso instrumento pra circulação de informação. Um dos constrangimentos que eu sofri foi determinado por um juiz federal que me proibiu de falar de uma ação pública contra o Grupo Liberal, que era por fraude para obter dinheiro, e ele emitiu um mandado de informação me proibindo de falar sobre o assunto, me ameaçou de morte, e de multa de 200 mil reais por dia e prisão em flagrante caso eu tocasse no assunto. Imediatamente fiz meu protesto na internet dizendo que não ia cumprir a decisão dele. Três dias depois ele revogou. Se não fosse a internet, provavelmente eu não teria conseguido essa revogação. O problema é que se acha que a internet é como uma árvore frutífera, que você pode colher todos os frutos prontamente e não precisa ir atrás. E na verdade isso é uma fantasia. A informação continua sendo sonegada, concentrada, manipulada. E você não consegue chegar a ela, não consegue contornar esses obstáculos simplesmente circulando na internet. Você tem que ir para vida real. E pra ir para vida real atrás da informação requer dinheiro. Precisa viajar, passar um tempo em algum lugar  para formar fontes… E informação é cara. As pessoas pensam que tendo opiniões através da internet, por meio dos fluxos que já estão lá disponíveis, elas conseguem realizar isso. Então como jornalismo, a internet é apenas um meio. O jornalismo continua sendo o que sempre foi, uma ciência da rua. Ele é um método de rua. O jornalista é aquele que vai atrás de fontes reais. Não apenas pesquisa em arquivos pela internet. Ele conversa com pessoas, vai atrás de documentos que não estão na rede… Então o jornalismo não pode ser restrito à internet. O principal dele, é fora dela.

Fórum – Mas é uma plataforma que vem democratizando essas informações? 

Lúcio – É como a pólvora quando foi inventada. Surgiu para ser fogos de artifício, mas ela também virou um instrumento bélico. Então, a tecnologia tem essas duas faces. A internet tem essa face que é, hoje, o melhor instrumento de comunicação e tem a outra face: que é a ilusão que as pessoas têm que, circulando na internet, sejam capazes de fazer a história. A internet é hoje instrumento de história como foi a carta antiga. Veja você, quando começou a funcionar regularmente, as pessoas escreviam de uma rua para uma outra rua da mesma cidade. Intelectuais no século 19 trocavam até 7 cartas por dia. Isso foi uma revolução. É a mesma revolução das pessoas poderem marcar encontros pela internet, ou o caso do juiz em que quase fui preso e consegui escapar pela força da rede… Então, ela é um meio revolucionário como toda tecnologia de eficiência social, coletiva, foi no passado. Umas mais, outras menos. A internet é uma das maiores revoluções, mas por si só não tem o condão de realizar a historia. A historia tá na rua.

Fórum – O que mudou em relação a abordagem da Amazônia, pela grande imprensa, desde que surgiu o Jornal Pessoal? De certa maneira, ele acabou pautando outros veículos sobre a região? 

Lúcio – Houve uma evidente involução na cobertura da Amazônia pela imprensa nacional. Aqui [em Belém], nós chegamos a ter sucursais instaladas, e agora não temos mais nenhuma. Correspondentes são raríssimos. Então, a grande imprensa está cobrindo a Amazônia de luneta, enquanto antes cobria com presença pessoal. E o que distingue o Jornal Pessoal é ele dizer a situação da Amazônia no mundo. A grande imprensa não consegue ver muita coisa. A grande imprensa não consegue ver, por exemplo, que o maior produto de exportação nacional que é o minério de ferro, passa por aqui.  Não conseguem atualizar a Amazônia ao contemporâneo e ao mundo global, e a Amazônia é contemporânea no mundo global. Todo mundo faz a cobertura econômica restrita ao sul do país e esquece que o café, hoje, está na Amazônia.