Independência e morte

Em 1972, enquanto o general-ditador Emílio Garrastazu Médici promovia festa de 150 anos de Independência, com o traslado do corpo de D. Pedro I ao Brasil, pessoas que lutavam contra o regime militar eram mortas e sepultadas em valas clandestinas de cemitérios

Por Carlos Mercuri

Em 22 de abril de 1972, aportava no então Estado da Guanabara uma frota de sete navios brasileiros e portugueses. Em um deles, o da marinha mercante portuguesa Funchal, vinha o esquife com os restos mortais de D. Pedro I, que havia deixado o porto de Lisboa 11 dias antes. Ao chegar à cidade do Rio de Janeiro, desembarca comitiva composta pelo presidente lusitano, almirante Américo Deus Rodriguez Thomaz; o presidente do Conselho de Ministros, Marcelo Caetano, e vários auxiliares. O mandatário português entrega ao colega brasileiro, general Emílio Garrastazu Médici, a urna contendo os despojos do primeiro imperador do Brasil. Era o início das comemorações de 150 anos de proclamação da Independência, que o governo militar brasileiro batizou com o pomposo nome de Sesquicentenário.

A festa prosseguiria pelos próximos cinco meses, culminando, em 7 de setembro, com o depósito do caixão imperial na cripta construída especialmente para este fim no Monumento à Independência, no bairro do Ipiranga, zona sul da capital paulista. Nesse tempo, o féretro passou por todas as unidades da Federação. As comemorações da efeméride ainda incluíram uma minicopa – a Taça Independência -, vencida, claro, pela seleção canarinha, sagrada tricampeã mundial dois anos antes, no México, e o lançamento do filme “Independência ou Morte”, dirigido por Carlos Coimbra e protagonizado pelos astros de novelas Tarcísio Meira, no papel de D. Pedro I; Glória Menezes, como a Marquesa de Santos; Dionísio Azevedo, vivendo José Bonifácio de Andrada e Silva, o patriarca da Independência, entre outros.

O país vivia o que se convencionou chamar de milagre, com a economia crescendo a dois dígitos anuais, sustentada por fortes investimentos em infraestrutura e na indústria, financiados por endividamento externo. Em contrapartida, a alta concentração de renda e inflação na casa de 15% a 20% ao ano. Mas o terceiro general-presidente da República queria mostrar à sociedade que o então país do futuro tinha ficado para trás: “A Nação tem hoje a tranquila consciência de sua grandeza, em termos realistas, possíveis e viáveis. Temos agora a certeza de que o eterno país do futuro se transformou, afinal, no país do presente”, discursou Médici, no último dia de 1971, em rede nacional de rádio e televisão.

As comemorações dos 150 anos de independência inserem-se, então, nesse espírito de Brasil grande que a ditadura civil-militar queria incutir na população;  e D. Pedro I, transformado em herói nacional, o símbolo da autoridade, nas palavras da historiadora Janaína Martins Cordeiro. A intenção do governo era realizar “um grande espetáculo cívico-patriótico”. “As festas evidenciam a importância do discurso cívico-patriótico como elemento fundamental do diálogo estabelecido entre ditadura e sociedade. Principalmente, demonstram a centralidade do chamado milagre brasileiro – entendido aqui como um fenômeno social e não apenas econômico – para a sustentação do regime”, escreve Cordeiro em sua tese de doutorado em História defendida em 2012 junto à Universidade Federal Fluminense (UFF) (leia entrevista com a professora em box abaixo).

Enquanto o governo Médici fazia a sociedade festejar a vinda dos restos mortais do imperador D. Pedro I, que repousam até hoje em solo brasileiro, nas sombras a ditadura massacrava filhos da Pátria que lutavam contra o regime autoritário. O período presidencial do general Médici entrou para a história como “os anos de chumbo”, de intensificação da repressão, de perseguição aos opositores, de torturas em instalações militares, mortes e desaparecimentos. “Foi o auge da ditadura, do fascismo”, lembra o deputado estadual Adriano Diogo (PT-SP), preso em 1973, quando militava no movimento estudantil.

O parlamentar recorda-se que, na época, a ditadura incutia nas escolas o patriotismo, obrigando os alunos a cantar os hinos nacionais antes das aulas. Acabou-se com o ensino de história e geografia no então colegial, instituindo a disciplina de Organização Social e Política Brasileira (OSPB), a organização católica Tradição, Família e Propriedade (TFP) estava em seu auge e a igreja católica ainda não estava na resistência, era mais ligada aos moralistas, ao tradicionalismo… “Foi o período mais difícil da ditadura”, constata Diogo.

“A comemoração do sesquicentenário permite a você ocultar mais facilmente esse tipo de coisa: enquanto está todo mundo comemorando no Brasil, ninguém sabe que há pessoas sendo torturadas”, comenta o historiador e professor Adjovanes Thadeu Silva de Almeida, autor do livro “O Regime Militar em Festa”, da editora Apicuri, fruto de sua tese de doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Almeida observa que havia, na época, um questionamento do regime militar, por meio dos que se envolveram na luta armada e na “oposição consentida do MDB”, e um dos propósitos da festa do Sesquicentenário foi “unir o país em torno dos governantes” (leia íntegra da entrevista do professor em box abaixo).

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Enquanto isso…

Quatro de setembro de 1990. Três dias antes do Dia da Independência, a então prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, cria comissão especial para investigar a descoberta de uma vala clandestina no cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus, periferia da capital paulista. No local, foram encontradas 1.049 ossadas, acondicionadas em sacos plásticos, sem nenhuma identificação. O então administrador do cemitério, Antonio Pires Eustáquio, disse que para aquela vala eram levados corpos de indigentes, vítimas do Esquadrão da Morte e da repressão política. A existência da vala veio à tona a partir da busca de familiares de mortos e desaparecidos políticos e de apuração do repórter Caco Barcellos, da TV Globo.

Entre as 1.049 ossadas, foi posteriormente descoberto que pelo menos sete eram de presos políticos mortos nos porões da ditadura: Grenaldo Jesus da Silva, os irmão Dimas e Denis Casemiro, Frederico Eduardo Mayr, Francisco José de Oliveira e Flávio de Carvalho Molina. Outros estavam sepultados sob identidade falsa: os irmãos Iuri e Alex de Paula Xavier Pereira, Gelson Reicher, Luís Eurico Tejera Lisboa e Flávio Carvalho Molina. O fato levou à criação, em 5 de outubro de 1990, de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Municipal de São Paulo. “Foi a primeira Comissão da Verdade do país”, conta o jornalista Luiz Hespanha, então assessor parlamentar na Câmara de Vereadores.

“O cemitério Dom Bosco era a última ponta de um novelo que começava no Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e na Operação Bandeirante – Oban, uma criação da aliança empresarial e militar, voltada para sustentar as operações de busca, captura, tortura e interrogatório dos subversivos, dos ‘terroristas’, termos martelados à exaustão nas páginas dos jornais e noticiários do rádio e da tevê à época”, escreveu Hespanha no livro “Vala Clandestina de Perus – Desaparecidos Políticos, Um Capítulo Não Encerrado da História Brasileira” , que reúne artigos de pessoas envolvidas na apuração e investigação dos fatos.

“Vários militantes de organizações revolucionárias assassinados pela ditadura foram enterrados em Perus. Antonio Benetazzo, Alexandre Vanucchi Leme, os irmãos Alex de Paula Xavier Pereira e Iuri Xavier Pereira, Antonio Carlos Bicalho Lana, Antonio Sérgio de Matos, Eduardo Antonio da Fonseca, José Milton Barbosa, Luis José da Cunha, Pedro Estevam Ventura Pomar, Ângelo Arroio, Carlos Nicolau Danielli e Joaquim Alencar de Seixas estão entre aqueles que foram localizados pelos familiares, mesmo sofrendo ameaças quando da procura nos arquivos dos cemitérios ou do Instituto Médico Legal, ou na visita dos túmulos”, relata Hespanha. As investigações estenderam-se a outros cemitérios da cidade, como o de Campo Grande, na zona sul, e o de Vila Formosa, na zona leste.

“As mortes violentas sob torturas dentro da Oban, agora chamado DOI-Codi – II Ex, passaram a ser denunciadas, principalmente no exterior, e precisavam ser escondidas ou disfarçadas. Para isso surgiram as falsas versões que as forças de repressão justificavam sua atuação. As mortes sob tortura eram justificadas como sendo ‘resistência à prisão’, ‘suicídios’ ou ‘mortes por atropelamento durante a fuga do preso’. Para confirmar essas versões mentirosas, médicos legistas coniventes com esses crimes passaram a fornecer laudos falsos e o Serviço Funerário Municipal de São Paulo passou a ser usado como instrumento de sepultamento imediato para não permitir a inspeção dos corpos por familiares dos assassinados”, escreve no mesmo livro Ivan Seixas, jornalista, membro da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e Coordenador da Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva, da Assembleia Legislativa de São Paulo. Seixas foi preso aos 16 anos e torturado pela ditadura militar junto com seu pai, o operário mecânico Joaquim Alencar Seixas, cujo corpo foi localizado no cemitério de Vila Formosa.

Outras valas clandestinas foram encontradas no Cemitério de Santo Amaro, em Recife (PE), e no Cemitério de Ricardo Albuquerque, localizado na região do Grande Rio (RJ). Na vala clandestina de Ricardo Albuquerque, foram jogados os corpos de pelo menos 13 presos políticos. Tiveram seus nomes trocados para não serem localizados. Comissão instalada na Assembleia Legislativa de São Paulo em maio de 1991, presidida pelo então deputado Roberto Gouveia, investigou o uso de instituições psiquiátricas para esconder e sumir com desaparecidos políticos. Outra comissão de representação externa foi organizada na Câmara dos Deputados para auxiliar a estadual, em buscas fora do Estado.

“Esse capítulo da história brasileira continua aberto porque ainda há o que ser dito, mostrado, descoberto e, principalmente, julgado, isto porque os atos praticados nas dependências de prédios públicos ou em imóveis clandestinos são crimes de lesa-humanidade, sem prescrição, como determinam as normas do Direito Internacional”, escreveu Ítalo Cardoso, vereador na capital paulista à época da CPI da Vala de Perus, da qual participou.

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Assista à reportagem visual “O Corpo do Imperador”, produzida pela equipe do Última Instância:


Entrevista: Advojanes Thadeu Silva de Almeida (*)

Fórum – Por que o governo Médici resolveu comemorar o Sesquicentenário?

Adjovanes Thadeu Silva de Almeida – Objetivo era demonstrar que o Brasil era uma grande potência, era um momento de um discurso ufanista, do Brasil Grande, o Brasil Potência do Século 21 e ao mesmo tempo induzir a juventude a comemorar o próprio regime militar. Por outro lado, estavam tentando transformar D. Pedro I, que era uma figura não tão popular no panteão nacional, em um herói nacional, em um ícone. Então era uma forma de criar um herói que unisse a sociedade em torno das comemorações e em torno do regime militar. Era um momento em que tem um questionamento, ainda que minoritário, desse regime militar. Esse questionamento existia tanto na luta armada como na oposição consentida do MDB e entre diversos artistas e intelectuais. Então você faz aquela festa com o intuito mesmo de unir o país em torno dos governantes.

Fórum – Havia na época um espírito de que o país não compactuava com essa luta, essas críticas contra o regime? Houve, nessas comemorações, algum viés nesse sentido?

Adjovanes – A ideia era justamente manter toda uma coesão em torno do regime. Então vamos ter algumas comemorações, com todos cantando o Hino Nacional juntos no lançamento do Sesquicentenário, inaugurações em que o Médici é muito aplaudido. Por exemplo: quando há a inauguração do Metrô de São Paulo, é preciso que seguranças impeçam as pessoas de entrar no Metrô, porque todo mundo queria estar junto com o Médici; o Médici é aplaudido no Maracanã na final da Mini Copa; então havia, sim, uma tentativa de mostrar que esse governo fazia coisas acontecerem e fazia com que as pessoas o apoiassem. Até porque não tinha muito espaço para criticar. Quem criticava o Sesquicentenário era o “Pasquim” e, em uma crônica, a escritora Rachel de Queiróz.

Fórum – Com essas comemorações, houve uma tentativa de acobertar os excessos do regime, como a repressão à luta armada, as torturas, mortes e desaparecimentos, como se viu posteriormente com a descoberta dos corpos de opositores no cemitério de Perus, em São Paulo?

Adjovanes – Sim, todas as notícias sobre a repressão eram censuradas, o máximo que vai acontecer é você é tirar fotos e ter algumas reportagens de guerrilheiros mortos em combate. Mas os desaparecidos, como no caso das sepulturas de Perus, normalmente sequer era comunicado para sociedade que essas pessoas estavam presas. Há relatos de prisioneiros políticos que são salvos justamente porque aparecem na mídia sendo presos. Então, quando isso acontecia você não podia matar, senão todo mundo ia saber. Então havia uma orquestração política para ocultar essa repressão mais violenta sobre os grupos que faziam oposição armada ao regime militar. Você não vai divulgar, por exemplo, quando você captura um grupo grande, quando estoura um aparelho. Da mesma forma que não se divulgava a espionagem que acontecia sobre as pessoas. Muitas vezes havia agentes infiltrados, eram atores que criavam um certo clima de medo, mas não se pode dizer que era um medo difuso, porque não há pesquisas a esse respeito, você pode supor que as pessoas tinham medo de desaparecer porque as informações circulavam como boato. De fato, a comemoração do sesquicentenário permite a você ocultar mais facilmente esse tipo de coisa: enquanto está todo mundo comemorando no Brasil, ninguém sabe que há pessoas sendo torturadas.

Fórum – E também existia também um tentativa de criar um clima de ufanismo, com a construção da Transamazônica,  Mobral, toda essa ideia de Brasil grande…

Adjovanes – Existia. Então você vai ter, durante o sesquicentenário, a inauguração de diversas obras: a Transamazônica; no Rio de Janeiro vai ser inaugurada finalmente a Cidade Universitária no Fundão… era uma forma de mostrar para a sociedade que o regime militar continuava aquele processo de independência que começou no século 19. As propagandas vão dizer muito isso. Tem várias propagandas de empresas estatais e privadas que falam isso.

Fórum – Por que o governo militar teve a intenção de estabelecer essa relação mais cordial com Portugal – que à época também vivia uma ditadura – ao trazer os restos mortais de D. Pedro I? O que havia por trás disso?

Adjovanes – Tinha uma aproximação com Portugal, um pouco mais antiga. Eram dois países que vinham sofrendo muitas críticas no cenário internacional: Portugal por causa do colonialismo na África, era o momento em que estava havendo guerras em Angola e Moçambique para se libertar de Portugal e o Brasil por causa das torturas. Então era uma forma de estreitar essas relações para resistir com mais facilidade à pressão internacional; existia não uma pressão institucionalizada, mas, por exemplo, nos EUA já existiam vários intelectuais que denunciavam as torturas no Brasil e a opinião pública internacional criticava Portugal e começava a tomar conhecimento das torturas no Brasil. Por outro lado, há o próprio fato de os dois países serem governados por regimes autoritários marcadamente anticomunistas. Isso ajudou a aproximar ainda mais os dois países. Tanto que quando acontece a Revolução dos Cravos (em 25 de abril de 1974), o Marcelo Caetano – que era o chefe de governo e quem realmente mandava em Portugal – vem para o Brasil, e morre aqui (ele morreu no Rio de Janeiro em outubro de 1980). Vários dirigentes da ditadura portuguesa se exilam no Brasil quando acaba o governo salazarista.

Fórum – Pode se considerar D. Pedro I um herói, um libertador? Qual é a imagem dele para o brasileiro, passado todo esse clima de euforia?

Adjovanes – Em relação a D. Pedro I, foi um fracasso: acabou a comemoração (do Sesquicentenário) e as pessoas não o colocaram efetivamente como um herói.  Apesar de ter o filme “Independência ou Morte” (dirigido por Carlos Coimbra, foi lançado em setembro de 1972, como parte das comemorações de 150 anos de Independência), que foi um sucesso de público, quem mais se lembra do Sesquicentenário são as pessoas que eram crianças na época. Os adultos mesmo viram aquilo como algo feito pelo Estado brasileiro. Eu estive alguns anos atrás no Monumento do Ipiranga (onde estão depositados os restos mortais de D. Pedro I, de dona Leopoldina e de dona Amélia) e estava vazio. Foi em janeiro, na semana do aniversário da cidade, e estava vazio, tinha mais gente nos jardins do museu do que visitando o monumento. Então me parece que D. Pedro I, no Brasil, não conseguiu se livrar da pecha de autoritário que foi colada nele por causa de seus atos, principalmente pela República. Ele é lembrado como quem comandou a Independência, mas não é cultuado como a ditadura imaginou que seria.

Fórum – Hoje mesmo (27/05) foi noticiado que a Justiça acatou denúncia contra cinco militares acusados de envolvimento na morte de Rubens Paiva, entendendo que eles não foram alcançados pela Lei da Anistia. O sr. acha que isso é uma sinalização de que se está fazendo um resgate da história?

Adjovanes – Não diria que seja uma revisitação da história, mas certamente a gente precisa lidar com esse período. A Lei da Anistia é extremamente questionada hoje em dia, existe uma articulação política para acabar com ela, que passa pelo Congresso Nacional e também pelo Supremo Tribunal Federal. Os crimes que foram anteriores a 1979, como o caso do Rubens Paiva, certamente os algozes, os envolvidos nesse caso vão apelar à Lei da Anistia, embora isso seja discutível, porque o corpo não foi encontrado até hoje, ou seja, é um crime que não acabou. De todo modo, a Lei da Anistia, é interessante relembrar, não foi um acordo, foi uma imposição do final do governo Geisel e início do Figueiredo, justamente para perdoar principalmente os autores de crimes por parte do Estado, principalmente os torturadores. Hoje em dia, temos um problema muito sério que são as Forças Armadas se recusando a abrir seus arquivos, se recusam a dizer o que há em seus arquivos; dizem que tudo foi destruído. Então mostra o que foi destruído! Uma coisa interessante nas Forças Armadas é que lá tudo é documentado, você não pode destruir um documento sem documentar isso, sem mostrar onde aconteceu, quando aconteceu. Se foi destruído, mostrem o documento da destruição. Por outro lado, as Forças Armadas brasileiras hoje não percebem que, para a imagem delas, é muito ruim não investigar os crimes que aconteceram em suas fileiras. Hoje em dia, quem é capitão, major, não tem nada a ver com esses crimes que aconteceram. Eles podem muito bem dizer ‘eu não estava lá’. Mas há um espírito de corpo, um corporativismo que, nesse caso especificamente, dificulta a apuração desses crimes e acaba fazendo com que a imagem das Forças Armadas seja afetada.

(*) Doutor em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professor do Colégio Pedro II e da Universidade do Grande Rio (Unigranrio). Autor do livro “O Regime Militar em Festa”, editora Apicuri, baseado em sua tese de doutorado.



Entrevista: Janaína Martins Cordeiro (*):

Fórum – Qual a razão de o governo Médici ter escolhido a figura de D. Pedro I como herói nacional?

Janaína Martins Cordeiro – D. Pedro I era realmente um herói improvável, difícil de ser apropriado: português e não brasileiro, mulherengo, boêmio, autoritário, ríspido e às vezes até agressivo… Dentro do próprio governo, nos setores envolvidos com a organização das festas do Sesquicentenário, não houve consenso sobre quem deveria ser o herói do Sesquicentenário. A AERP, órgão responsável pela propaganda oficial do governo Médici, defendia que as comemorações deveriam concentrar-se na figura do Tiradentes. Mas a CEC, Comissão Executiva Central, que organizou os festejos, insistia na escolha de D. Pedro I. E este acabou prevalecendo porque, de certa forma, D. Pedro I representava bem o Brasil do Milagre. É claro que houve um investimento de sentido, uma ressignificação do herói. Seu caráter boêmio, as infidelidades matrimoniais, tudo isso foi silenciado. O D. Pedro I da ditadura era um homem forte, resoluto, o líder que, com um gesto decidido “deu” ao Brasil sua independência política. E aí é importante dizer que um dos slogans mais repetidos no ano do Sesquicentenário foi que 1822 representou a independência política do Brasil e 1972 representava a independência econômica, fazendo assim, o elo entre o passado e o presente, inserindo a ditadura ou a “Revolução”, para usar o termo utilizado pelo governo, como um desdobramento natural do desenvolvimento histórico brasileiro.

Além disso, é importante dizer, D. Pedro I era um nobre, um príncipe e não um plebeu como Tiradentes. D. Pedro I “fez” a Independência; Tiradentes fracassou neste intento. Era a imagem do “vencedor” e não a do “mártir” que a ditadura, naqueles tempos de Milagre, queria recuperar. É nesse sentido que D. Pedro I expressava o “Brasil do Milagre” e por isso a sua escolha.

Fórum – Em sua tese, a sra. fala em consentimento e coerção. Mas fala também na adesão espontânea às festividades. A sociedade, à época, era dividida quanto ao apoio ao regime militar?

Janaína – Os comportamentos sociais durante a ditadura foram muito diversificados. É certo que a ditadura enfrentou resistências ferozes e é certo também que suscitou apoios militantes. Mas houve também muita indiferença e uma certa “lógica do consentimento”, que se ligava às formas, diversas, encontradas pela sociedade para conviver com aquela situação. Estas formas de convívio foram muito complexas. Inclui o medo do aparelho repressivo, mas, também, certo sentimento de segurança e a certeza de que se você, homem comum, não estava incluído na definição de “inimigo da pátria e do regime”, estava seguro, a salvo. Nesse sentido, não é possível dizer que a sociedade estava “dividida”, mas ela se relacionou de forma complexa com o regime. O que significa que, em muitos momentos, aprovava certas medidas do governo e desaprovava outras. Por exemplo: em geral as pessoas se colocavam contra  a tortura. Mas muitas vezes recorreram à censura como forma de garantir certo padrão de “moralidade” no país (ver trabalho de Carlos Fico, “Prezada Censura”). Por outro lado, ao mesmo tempo em que sofriam com o arrocho salarial, se empolgavam com as vitórias esportivas, com o crescimento da economia, com a expansão das estradas e das redes de telecomunicação, com a construção de obras como a Transamazônica… Não significa também que o povo fosse “alienado” ou que o regime os tenha “comprado”, mas sim que o cotidiano sob a ditadura foi extremamente complexo e que as pessoas agiam e reagiam segundo lógicas e uma experiência histórica muito próprias.

O caso dos anos do Milagre e principalmente do ano de 1972, quando houve as comemorações do Sesquicentenário, é particularmente interessante. Pois, ao mesmo tempo em que estamos falando do período em que a ditadura foi mais repressora, estamos falando do momento em que ela foi mais popular. Como isso foi possível? Em primeiro lugar porque a repressão foi sempre muito seletiva. Em segundo, e aí falo especificamente do contexto do Sesquicentenário, porque a ditadura soube dialogar com tradições brasileiras muito antigas, evocando certos sentimentos de amor e devoção à Pátria. Participar das festas nem sempre significou apoiar o regime, mas sim, apoiar a Pátria. Embora, em muitos casos, as pessoas tenham sim identificado a euforia patriótica ao apoio à ditadura e ao presidente Médici.

Fórum – É possível concluir que, em caso de parcela expressiva da sociedade à época apoiar o regime militar, a repressão aos movimentos oposicionistas, em particular os que aderiram à luta armada, foi justificada?

Janaína – Como eu disse anteriormente, não é possível dizer quem ou quantos apoiaram o regime. As relações sociais com este foram muito complexas e cambiantes. Para algumas pessoas a repressão se justificava, em alguns momentos ou em certos casos, embora condenassem os “excessos”. Em todo caso, o que precisamos hoje é da veemente condenação pública de qualquer tipo de violência, principalmente daquelas cometidas pelo Estado brasileiro, embora seja importante compreender por que a luta armada não suscitou grandes apoios sociais na época.

Fórum – Nesse sentido, a festa do Sesquicentenário não teria a intenção de acobertar os excessos do regime contra os opositores?

Janaína – Pode até ser que sim, em alguma medida… Mas acho que a festa foi muito mais que isso. A festa ocorreu em um momento em que o regime era de fato popular. Nós precisamos começar a enfrentar que a ditadura, especialmente o governo Médici, conseguiu ser popular se quisermos de fato compreender o regime em sua complexidade. Os festejos queriam de fato comemorar o Brasil grande, o Brasil potência. Lembremos que essa ideia da “potência” não foi inventada pela ditadura, apenas potencializada pela euforia desenvolvimentista do Milagre. Médici dizia que finalmente o Brasil havia deixado de ser “o país do futuro” e se tornado o “país do presente”. Eles queriam comemorar isso. E essa ideia mobilizou muitos segmentos da sociedade, porque era uma ideia que não se ligava apenas ao apoio àquele regime, mas à recuperação da autoestima nacional, a um sentimento patriótico e nacionalista já arraigado.

 (*) Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e pós-doutoranda pela mesma instituição. Sua tese de doutorado sobre as comemorações do Sesquicentenário da Independência será publicada ainda em 2014 pela FGV, sob o título “A Ditadura em Tempos de Milagre: Comemorações, Orgulho e Consentimento” 


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(Crédito da foto da capa: MarceloVigneron)