Marcha das Vadias: as divergências estão em curso

Após quase 3 anos de movimento e tomada de ruas, novos questionamentos passam a surgir: será que a Marcha já cumpriu seu propósito? E, afinal, é possível ressignificar expressões como “puta” e “piranha”?

Por Jarid Arraes, fotos por Mídia Ninja

A Marcha das Vadias, responsável por reunir milhares de mulheres e homens ao redor do país, vem tomando diversas cidades e Estados desde que aconteceu no Brasil pela primeira vez em 2011, na cidade de São Paulo. O protesto, que hoje é global, teve seu início no Canadá, motivado pela reação indignada de quem ouviu o policial Michael Sanguinetti sugerir que, para evitar o estupro, as mulheres deveriam evitar roupas de sluts – termo equivalente a “vadias” em português.

Apesar de reunir grandes números de pessoas, a Marcha sempre foi um assunto de intenso debate, especialmente pelo uso da palavra “vadia”, que divide opiniões e aquece discussões nos mais diversos grupos feministas e também na sociedade como um todo. Após quase 3 anos de movimento e tomada de ruas, novos questionamentos passam a surgir: será que a Marcha já cumpriu seu propósito? E, afinal, é possível ressignificar expressões como “puta” e “piranha”?

A intenção do movimento parece ser bem compreendida pela maioria das pessoas quando as participantes da marcha dedicam tempo para explicá-la: nenhuma mulher provoca a violência sexual nem deve ser julgada pelas roupas que usa. A compreensão, no entanto, não necessariamente equivale à concordância; o machismo ainda é forte e atuante em nossa cultura, mesmo que muita gente não tenha coragem de falar abertamente que mulheres merecem ser estupradas por não se comportarem de acordo com certos parâmetros moralistas. O problema mais grave, no entanto, reside na confusão que o título da marcha causa, sobretudo em camadas mais populares, formadas por pessoas geralmente religiosas e sem acesso a ambientes acadêmicos e de militância. Até que alguém explique o que gerou a escolha da palavra e qual é o seu objetivo, já haverá muita antipatia.

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Marcha das Vadias 2013 em Porto Alegre (RS)

Para além do impacto que o nome “Marcha das Vadias” causa na população, a discordância que permeia as correntes feministas está também relacionada a discussões de raça e classe. Não há unanimidade; pelo contrário, muitas mulheres feministas repudiam o uso de termos pejorativos, mesmo que haja a intenção de ressignificá-los. No meio da troca de argumentos, muita gente se perde ou não consegue se posicionar, mesmo que deseje assumir um lado – por isso, conhecer e entender esses argumentos é fundamental.

A favor

A Marcha das Vadias causou boas impressões para muitas mulheres, principalmente pelo protesto a favor da liberdade feminina e pela proposta de reflexão quanto ao significado e a carga emocional de palavras agressivas à sexualidade feminina. Myka Poulan, professora e integrante do coletivo Feminismo Diagonal, diz que ouvia, desde criança, que o termo era algo ruim. “Quando conheci o feminismo eu descobri que vadia era o nome que a sociedade dá pra garota que vive a sexualidade de maneira mais livre que esperado pelas pessoas. Hoje eu encaro o termo de forma positiva, pois se uma garota tem uma sexualidade mais independente do que o esperado, ela é corajosa e fantástica.”

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No entanto, a palavra não necessariamente diz respeito a uma relação de empoderamento. Para Marina Junqueira, o termo “vadia” ou “vadio” deveria ficar restrito a seu significado original, que é de alguém que não trabalha. “Mas já que ele foi escolhido pejorativamente para nomear mulheres com vida sexual similar à masculina, ou seja, humana, acho importante ressignificar”. A antropóloga Anahi Guedes de Mello considera positivo o uso da expressão e suas similares, como “puta” e “vagabunda” – “na medida em que as próprias protagonistas – as mulheres – ressignificam esses termos”, acrescenta.

Marcha das Vadias em São Paulo, no último dia 24.
Marcha das Vadias em São Paulo, no último dia 24

A facilidade para as mulheres que não são feministas de incorporarem a Marcha das Vadias também é um assunto de bastante relevância. A doutoranda em Ciências Humanas Letícia Cardoso Barreto acredita que a escolha do vocábulo, utilizado como ofensa em diversos contextos, permite que um grande número de mulheres se identifique e se sinta incluída no movimento. Segundo Barreto, “é comum vermos participando da Marcha mulheres que anteriormente não se consideravam feministas, por não se identificarem com as lutas e argumentos”.

Barreto pensa que várias mulheres que antes não se sentiam incluídas nos movimentos feministas passaram a trazer suas reivindicações para esse contexto – “como o caso das prostitutas e sua defesa pela regulamentação da prostituição”, exemplifica. Para ela, a marcha reúne um público bem diversificado quanto à geração, orientação sexual, gênero, deficiência, entre outras características.

A blogueira Bia Cardoso destaca que, apesar de sua falha em alcançar mulheres das regiões periféricas, a Marcha tem grande importância no Brasil. “Num país desigual como o nosso, também é preciso haver esse feminismo de classe média, que acaba ganhando manchetes em portais.” Segundo Cardoso, a forma como a imprensa faz a cobertura das marchas tem mudado com os anos e é uma representação do respeito conquistado pelo movimento: “Antes, o foco eram apenas os peitos das meninas, hoje já temos coberturas mais amplas, em que as pautas reivindicadas são o destaque”.

O nome da Marcha das Vadias é bastante incompreendido, e costuma chocar principalmente aquelas pessoas que não conhecem sua origem política – o que não é necessariamente algo ruim. A entrevistada Myka Poulan considera que a expressão só funciona se vier acompanhada da conscientização sobre sua origem: “Eu mesma já expliquei pra diversas pessoas a origem da Marcha e aí sim elas perceberam a intenção. E penso que quanto mais gente souber a origem da marcha e a intenção por trás do nome, mais gente vai ter uma porta pro feminismo”.

Contra

Só que nem todo mundo considera a Marcha das Vadias um ambiente plural e inclusivo. Sheu Nascimento, participante do apoio organizativo da Marcha em Salvador, pensa que, quando inserido em um país, o movimento deveria ser adaptado à realidade local – “por exemplo, na questão de pontuar as pautas específicas das mulheres negras, índias, transexuais, lésbicas…”. Para ela, quando a Marcha não faz isso, exclui essas mulheres e permanece como um espaço elitizado e branco.

Marcha das Vadias 2013 em São Paulo.
Marcha das Vadias 2013 em São Paulo

 

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De fato, a falta de sensibilidade com relação às questões das mulheres negras é um dos principais motivos para as divergências quanto à Marcha. A integrante feminista do coletivo RUA, Tamires Torquato, diz que “ao citar a palavra ‘vadia’ e ‘mulher’ na mesma frase, devemos nos posicionar perante o histórico de opressões sofridas por todos os tipos de mulheres”. Torquato acredita que esse é o caso das mulheres negras, que foram tratadas como mercadoria escravocrata e sexual: “O termo para essas mulheres faz ainda mais alusão à mercantilização de seus corpos”, argumenta.

Sheu Nascimento complementa que o fator histórico torna complicado para as mulheres negras trabalharem com essas palavras. “O racismo nos rotula como vadias e putas desde o dia em que nascemos, por causa do fator racial. O racismo histórico se apoderou e nos aprisionou dentro de nossa própria sexualidade e isso é algo que, há anos, vem sendo trabalhado para ser desconstruído pelas lutas de mulheres negras.” Segundo ela, isso deveria ser levado em consideração, já que na Marcha se debate a cultura do estupro e a liberdade do corpo.

Karla Alves, do grupo Pretas Simoa no Cariri, vai direto ao ponto quando compara: “A tentativa de ressignificação do termo ‘vadia’ para uma prática política que pretende combater o machismo, a misoginia e seus efeitos me soa tão inútil quanto afirmar que ‘somos todos macacos’ é uma ressignificação que serve de ferramenta para combater o racismo”. Para a ativista, nos dois casos se desconsideram as práticas que foram construídas no interior de uma experiência escrava.

Tamires, no entanto, acredita que o pensamento de que mulheres com vivência sexual possuem menos valor está ligado à cultura de oprimir a liberdade feminina, sendo necessário cautela para ressignificar o vocábulo. “Enquanto o significado da palavra for opressor para algumas, deve ser repensado; afinal, se lutamos contra a opressão à mulher, qual a lógica em fazer isso oprimindo outras?”, questiona.

De certa forma, é possível dizer que a Marcha das Vadias, enquanto movimento social, já cumpriu o seu papel político. É o que diz a professora universitária Suamy Soares. “Apesar de controverso, foi importante. Foi um momento de luta específico que passou.” Para ela e outras mulheres, a insistência na Marcha não passa de um equívoco.

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Marcha das Vadias 2013 em Macapá (AP)

E o consenso?

Se por um lado a Marcha proporcionou uma oportunidade para mulheres e meninas do Brasil se aproximarem do feminismo, por outro, falha em representar todas as nuances da realidade. Precisamente, a Marcha falha em representar as mulheres de outras minorias, como as lésbicas, transexuais ou negras, que nem sempre podem se sentir à vontade no movimento. Embora seja um desafio, representar todos os grupos é uma tarefa que algumas organizações do protesto já vêm tentando cumprir.

Por fim, a palavra “vadia” continua a ser usada como uma expressão machista para agredir mulheres na sociedade, ainda que haja uma tentativa de reapropriação e empoderamento. Não existe um consenso sobre a questão ética do uso da palavra, mas uma coisa é certa: é possível buscar novas formas de luta e protestos – até porque há diversas outras pautas a serem abordadas, tais como os direitos civis das travestis e transexuais, ou a legalização do aborto. O debate é essencial, em especial quando acontece sem desvalorização do trabalho e esforço de quem luta.