Mulheres da agroecologia: a luta por igualdade de direitos

Por meio do feminismo, agricultoras e camponesas vencem as barreiras impostas pela sociedade patriarcal e participam ativamente do processo agroecológico, que elas mesmas ajudam a construir

Por Anna Beatriz Anjos

“Sai do pé desse fogão,
Vem pra rua, vem lutar.
Olê mulher rendeira,
Olê mulher rendá”

Eram cerca de 300 mulheres. De todos os lugares do país, todas juntas. Algumas empunhavam faixas, outras batucavam em tambores. Outras, ainda, levavam consigo só o canto, entoado por boa parte das companheiras que ali estavam. Moradoras das áreas rurais Brasil afora, elas pediam a igualdade de gênero e o fim do machismo. Buscavam, acima de tudo, se empoderar diante de suas próprias famílias e, consequentemente, da sociedade, que muitas vezes as exclui de atividades como agricultura, campo e plantio, consideradas masculinas.

Essa foi uma das manifestações feministas que o 3º Encontro Nacional de Agroecologia (ENA) tentou desmistificar. O  evento, que ocorreu entre 16 e 19 de maio, reuniu cerca de 2.100 pessoas em Juazeiro, no sertão da Bahia, para discutir a agroecologia. Dentre os participantes, representantes do governo, integrantes dos mais diversos movimentos sociais ligados à terra, indígenas, seringueiros, quebradeiras de coco, quilombolas e, sobretudo, pequenos agricultores envolvidos com a causa.

Pela primeira vez, a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), organizadora da reunião, determinou que 70% dos presentes fossem agricultores. Em relação a este porcentual, mais uma exigência: ao menos metade dele tinha de ser composta pelo sexo feminino. E assim se sucedeu. Quem frequentou os quatro dias de debates e vivências percebeu a presença em massa das mulheres, vindas de todas as partes do Brasil – de fato, todos os 26 Estados, mais o Distrito Federal, estavam representados.

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Plenária das mulheres no III Encontro Nacional  de Agroecologia (ENA) (Foto: Fábio Café)

As agricultoras – e também os movimentos que militam pela causa, como a Marcha Mundial das Mulheres e o Movimento de Mulheres Camponesas – levaram a Juazeiro o debate em torno do papel da mulher na agroecologia. Em uma plenária específica para o assunto, organizada pelo Grupo de Trabalhos (GT) de Mulheres da ANA, meninas, adultas e idosas compartilharam suas experiências de luta contra o machismo e a opressão no campo.

Vida diferente por inteiro, não pela metade

A geógrafa norte-americana Susanna Hetch, no artigo “A evolução do pensamento agroecológico”, de 2002, define agroecologia como “uma abordagem agrícola que incorpora cuidados especiais relativos ao ambiente, assim como aos problemas sociais, enfocando não somente a produção, mas também a sustentabilidade ecológica do sistema de produção”. Acredita-se que o conceito tenha surgido nos anos 70, em universidades da Califórnia, e que tenha se popularizado na década seguinte.

Em sua tese de doutorado pela Universidade de  Brasília (UnB), Emma Siliprandi, engenheira agrônoma e pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação (Nepa) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), traça um panorama sobre a relação entre as mulheres e as práticas ecológicas no Brasil, além de abordar suas raízes. Para ela, a “agroecologia pretende apoiar a transição dos atuais modelos de agricultura e de desenvolvimento rural, considerados insustentáveis, para outros, sustentáveis”.

O surgimento dessa nova alternativa com enfoque agroecológico representa um contraponto ao agronegócio, que, segundo Siliprandi, “ao mesmo tempo em que promoveu um aumento espetacular da produtividade agrícola, pelo uso de fertilizantes químicos, agrotóxicos, máquinas, e da especialização da produção vegetal e animal, provocou graves problemas sociais e ambientais, em particular nos países do chamado terceiro mundo”.

Nesse sentido, a agroecologia não se caracteriza apenas pela adoção de práticas específicas, como a não utilização de venenos ou sementes transgênicas. Traz, como algumas de suas premissas básicas, a ideia de que as pessoas fazem parte da natureza e que a sobrevivência de ambas está relacionada e, principalmente, de que o desenvolvimento precisa respeitar a biodiversidade, as diferentes culturas, assim como enfrentar as questões de discriminação entre os gêneros, raças e etnias.

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Camila Paula Silvestre, com o alto-falante nas mãos, entoou as palavras de ordem durante uma das manifestações realizadas pelas mulheres no ENA (Foto: flickr/ena2014)

Por isso mesmo o feminismo é tão importante nesse contexto. “Na compreensão que nós temos da agroecologia, as mulheres fazem parte desse ambiente. Sem a participação efetiva delas, não tem agroecologia. Pode até ser uma produção orgânica, mas a agroecologia é a integração de todos os seres vivos. As mulheres precisam ter o seu espaço de decisão, poder dizer o que plantar, como, onde, para quê”, afirma a agricultora catarinense Noemi Krefta, integrante do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC Brasil), um dos que participaram do ENA.

A comunicadora Camila Paula Silvestre, colaboradora da Marcha Mundial das Mulheres e moradora de Mossoró, no Rio Grande do Norte, destaca que, sem abranger a luta das mulheres, a agroecologia promove mudanças até um certo ponto, “pela metade”. “A agroecologia é um modo de produção e de vida diferente. Outra forma de se relacionar com a natureza, ter todo o cuidado para não desgastar o solo, para poupar a água. Que vida é essa em que não cabe a igualdade de gêneros, de raça? Como essa vida pode ser diferente pela metade?”, questiona.

A necessidade de maior participação feminina na construção do processo agroecológico não se resume à questão da paridade. A resistência ao agronegócio, no combate à prática homogeneizadora do monocultivo, também é um ponto a ser abordado. “Resistir a esse modelo que padroniza os alimentos, da monocultura, que reduz a diversidade, não só genética, mas nutricional: as mulheres vêm nessa contramão”, explica Vanessa Schotzz, uma das secretárias gerais do GT de Mulheres ANA.

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Primeiro sobreviver, depois vender

A pluralidade na alimentação integra a ideia de soberania alimentar. Segundo a Via Campesina Internacional, o conceito corresponde ao “direito dos povos a definir suas próprias políticas e estratégias sustentáveis de produção, distribuição e consumo de alimentos, que garantam o direito à alimentação a toda a população, com base na pequena e média produção, respeitando suas próprias culturas e a diversidade dos modos camponeses de produção, de comercialização e de gestão, nos quais a mulher desempenha um papel fundamental”.

Por que a atuação feminina é determinante para que se garanta esse direito? Segundo Emma Siliprandi, é uma questão de construção social e cultural que transcende datas e localização geográfica. “Nos meios urbanos e também nos rurais, são as mulheres as encarregadas historicamente da alimentação. São elas que detêm os conhecimentos das receitas, das formas de preparo, da cultura alimentar. São quem repassa isso de mãe para filha, de avó para neta”, pontua.

Por terem sido incumbidas, ao longo da história, dos cuidados do lar, as mulheres possuem uma visão mais global da dinâmica familiar do que seus companheiros, a quem foi destinada a tarefa de prover o sustento a seus “dependentes”. “A mulher tem muito mais a preocupação da produção diversificada, saudável, para alimentar as pessoas que convivem com ela. Depois disso, se tem excedente, aí vende, ou distribui com as vizinhas, partilha. O que os homens normalmente não concebem. Para eles, é trabalhar e produzir aquilo que dá dinheiro”, argumenta Noemi Krefta.

A agricultora Ivone Maria Morais Brilhante do Santos, de 40 anos, confirma essa versão. Ela nasceu e vive no município de Apodi, no Rio Grande do Norte, com o companheiro e o filho. Sua sobrevivência depende da criação de caprinos, da produção do mel, por meio da apicultura, e de seu quintal, onde planta para aproveitamento próprio. “Nós trabalhamos pro nosso consumo, pra gente sobreviver, e pra questão do meio ambiente. Não trabalhamos pra exportar, pra grandes empresas. Não estamos vendo a questão de produção, e sim de qualidade de vida, de alimentação, de saúde”, conta Ivone, que tem papel ativo no Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Apodi.

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A camponesa Ivone Maria Morais Brilhante dos Santos e sua criação de caprinos, no município de Apodi, Rio Grande do Norte (Foto: Jackson Angell)

“A gente percebe que, quando as famílias praticam autoconsumo, se tem uma maior diversidade dessa alimentação, uma maior qualidade”, afirma Vanessa Schottz. Ela ainda destaca outra vantagem de se priorizar a própria subsistência: “Quando se produz pra isso, se deixa de gastar no mercado e se deixa de ter uma dependência grande desse mercado. É um exercício de autonomia muito importante”.

Durante seus 10 anos de existência, o GT de Mulheres da ANA já desenvolveu diversos debates e projetos para fomentar o empoderamento das camponesas. Uma dessas iniciativas é a Caderneta Agroecológica, criada para auxiliar no gerenciamento de toda a produção da propriedade. Nela, a mulher deve anotar todas as saídas, entradas, trocas e vendas do que é cultivado em sua chácara ou sítio. Assim, fica mais fácil mensurar a renda gerada pelos produtos, além da quantia que se deixa de gastar para adquirir alimentos de outras fontes.

“A caderneta tem mostrado pra gente que nem elas [as mulheres camponesas] têm consciência do que  produzem, do que deixam de gastar com isso”, aponta Elizabeth Cardoso, que, ao lado de Vanessa, compõe a secretaria geral do GT de Mulheres. Ela analisa, ainda, que a produção para autoconsumo não interfere somente no aspecto financeiro, mas na qualidade da alimentação da família. “Fruta, por exemplo, é uma coisa cara, que os agricultores com renda menor não compram, só comem quando tem no quintal.”

Elizabeth cita um caso que ilustra bem a situação. “Em Araponga, Minas Gerais, tinha uma mulher que fez o acompanhamento pela caderneta durante três meses e percebeu que tirava, por semana, 40 reais de alimentos do seu quintal – é o que gastaria se fosse comprar a comida no mercado”, narra.

As mulheres também se apropriam de outros dois papeis essenciais à agroecologia: o de guardar e escolher sementes e o de preservar plantas de uso medicinal. Em relação ao primeiro, mais uma vez aparece o aspecto da preocupação com o que vai à mesa da família. “A lógica das mulheres pra guardar e melhorar essas sementes é uma lógica que considera menos a produtividade e mais a qualidade do alimento para os familiares”, ressalta Vanessa.

De acordo com Emma, a relação das camponesas com as plantas medicinais estabelece uma nova visão de saúde, desvinculada do modelo industrial. “Esses produtos são uma forma gratuita de cuidado com a saúde, uma forma adaptada ao ambiente, de acordo com o clima, com cada região”, considera.  “Os xaropes, os unguentos, os chazinhos que as mulheres fazem são um patrimônio da humanidade, um conhecimento que é mantido por elas. Conheço alguns homens que trabalham com plantas medicinais, mas eles são francamente minoritários no conjunto do campesinato”, constata.

A luta continua

O fato de o protagonismo feminino alcançar tantas dimensões dentro da agroecologia não significa que se atingiu a igualdade entre homens e mulheres. Como indica Elizabeth Cardoso, “isso não é uma unanimidade. Ainda tem muitas lideranças e movimentos que não consideram a questão [do empoderamento das mulheres] como prioridade para a agroecologia.”

A opressão da sociedade patriarcal persiste. Noemi Krefta, que coordena reuniões para mulheres agricultoras em seu Estado, precisa utilizar alternativas – que ela chama de “portas de entrada” – para atrair suas colegas. “A gente não chama as mulheres abertamente pra discutir a violência, a gente  chama elas pro encontro que vai discutir plantas medicinais, ou pra oficina sobre sementes de hortaliças. Temos que ter ‘iscas’, porque, se ela diz em casa que vai pra um encontro onde vai aprender a fazer uma pomadinha, um elixir, é mais fácil de convencer [a família]. Se já está em uma situação de violência – e  a gente nunca sabe em que grau está -, é muito mais difícil de poder sair de casa”, relata.

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Vanessa Schottz, do GT de Mulheres da ANA, conduzindo a plenária das mulheres no ENA (Foto: Fábio Café)

Mas o machismo, culturalmente arraigado, não se restringe ao ambiente doméstico: está institucionalizado. Prova disso são as políticas públicas voltadas às populações rurais, por meio das quais podem financiar práticas agroecológicas. Exemplo é o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), criado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Para comprovarem sua condição de agricultores familiares e conseguirem acesso aos créditos, os beneficiários precisam obter a Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP). Isso, por vezes, representa um problema para as mulheres.

“Em muitos lugares, a DAP ainda é feita como se o homem fosse o chefe da família, embora as regras digam que não – nos documentos se diz que as pessoas adultas que tocam a propriedade podem ser titulares sem qualquer hierarquia. Mas os técnicos que trabalham nos bancos, nas instituições de extensão rural, nos sindicatos ainda veem a família como sendo formada por um chefe e os demais subordinados”, critica Emma Siliprandi.

Uma das maiores reivindicações das mulheres do campo diz respeito à divisão sexual do trabalho. A função social que lhes é delegada, de cuidar dos filhos, dos idosos, da casa – o encargo “reprodutivo”, como classifica Emma – muitas vezes as afasta das decisões importantes. “É uma violência as mulheres ficarem sobrecarregadas de trabalho. Isso a impede de crescer, de participar”, analisa.

Ao tentarem transpor essas barreiras, enfrentam ainda mais dificuldades. “Quando a gente começa a fazer as organizações com as mulheres, elas começam a participar dos encontros, a ampliar os horizontes. Tem as viagens, as reuniões, começam a sair de casa. E aí tem aquela coisa: quem vai cuidar das crianças, do quintal, quem vai fazer o trabalho que eu faço?”, descreve Camila Paula Silvestre.

Quanto mais relegadas aos serviços domésticos, mais distantes ficam as mulheres, inclusive, das finanças da casa, embora sejam responsáveis por grande parte do que é produzido na propriedade. “O homem vende a produção e coloca o dinheiro no bolso. As demais pessoas da família passam necessidade, porque ele acaba decidindo onde vai aplicar, não consegue escutar a mulher, não lhe dá o direito de dizer onde precisa ser gasto o dinheiro”, explica Noemi.

(Crédito da foto de capa: Bernardo Vaz)