Somos todas filhas da puta

A partir de depoimentos de amigos e parceiros de luta, documentário quer resgatar a história de Gabriela Leite, que batalhava pelos direitos das prostitutas e fundou a marca Daspu

Por Marcelo Hailer

No dia 10 de outubro de 2013, o Brasil acordava mais triste e careta ao saber que Gabriela Leite perdia a sua batalha contra a câncer, talvez a única que tenha, de fato, parado aquela que se tornaria internacionalmente conhecida por dar voz e defender politicamente as prostitutas ou apenas putas, como gostava de frisar. Gabriela Leite foi responsável por fundar a ONG DaVida e a grife Daspu. Mas a história de Gabriela Leite está sendo contada e gravada. Sua neta, Tatiany Leite, dirige o projeto Filhas de Gabriela, que está em fase de produção e conta com a parceria da produtora Máquinna e de Cleverton Santana.

O documentário visa, a partir de depoimentos de amigos e parceiros de luta, narrar a trajetória de Gabriela Leite e assim, quem sabe, influenciar novos personagens e incentivar outras pessoas a entrar na luta das putas. Este, como declarou Tatiany Leite, é um dos objetivos políticos do longa, que ainda não tem data de lançamento.

Tatiany Leite conta, em entrevista à Fórum, que o projeto nasceu a partir da realização de seu trabalho de conclusão do curso (TCC) – ela está finalizando a faculdade de jornalismo. “Eu buscava alguma maneira de fazer com que o trabalho da minha avó chegasse ao mundo efetivamente. Sentia uma grande necessidade de fazer isso e não sabia como. Quando surgiu essa coisa do meu TCC, eu tive essa ideia e comecei a ver que dava certo, que eu teria um acesso bom às pessoas e que ia ficar bonito, aí pensei, ‘vamos adaptar para um projeto grande’”, relata.

Além de todo o processo do documentário, Tatiany Leite fala também das intimidades com a sua avó. Revela ainda que, desde criança, conviveu com a questão da prostituição, e se lembra de quando vivia na casa de sua avó e acordava com as amigas prostitutas e travestis “que ficavam falando de sexo a toda hora, tranquilamente”.

A neta de Gabriela Leite também comenta que a avó gostaria de ser lembrada como uma “puta pessoa” e que seu principal legado é não ter medo de viver e “dar a cara a tapa”, coisa que fez a vida inteira, principalmente quando, nos anos 1980, foi travar uma luta pública em prol das putas. Confira a entrevista.

Fórum  De onde surgiu a ideia de fazer o documentário?

Tatiany Leite – O projeto surgiu a partir do meu TCC [trabalho de conclusão do curso – Jornalismo], e aí ele foi crescendo e nós fomos até a Máquinna [produtora] pra ver se eles não queriam fazer com a gente, começou assim. Mas eu já buscava alguma maneira de fazer com que o trabalho da minha avó chegasse ao mundo efetivamente. Sentia uma grande necessidade de fazer isso e não sabia como. Quando surgiu o TCC, tive essa ideia e comecei a ver que dava certo, que eu teria um acesso bom às pessoas e que ia ficar bonito, aí pensei, ‘vamos adaptar para um projeto grande’.

Fórum – E como está caminhando o projeto?

Leite – Nós já gravamos vários depoimentos e, na verdade, eu tenho a impressão de que esse projeto está sendo muito mais do que a gente esperava. Nós começamos a fazer e, quando vimos, tínhamos um material muito grande – isso porque a gente ainda não fez metade do que tinha proposto. E quando a gente sentou com a produtora e com o Cleverton [responsável pela produção] pra ver quem a gente ia entrevistar, quem era importante pra quê, quem ia falar e não ia, a nossa grade de entrevistados ficou um mapa gigantesco. A produtora disse que tinha que dar uma diminuída, pois estava no início e era muita coisa. Aí a gente ia tentar cortar e não conseguia, então chegamos à conclusão de que íamos colocar em bloco: bloco da militância, familiar… E nós ficamos inconformados, porque pelo que a gente já tem, já dá pra fazer um documentário.

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Cartaz de divulgação do documentário (Reprodução)

Fórum – Você conviveu com a Gabriela Leite?

Leite – A vida toda.

Fórum – E como foi essa convivência?

Leite – A relação com a minha avó sempre foi muito boa. E muito melhor do que a da minha mãe, por exemplo. Eu cresci com ela, passava os natais lá [Rio de Janeiro] e férias da escola. Ia pro Rio, porque eu sou de São Paulo e nos meus aniversários ela vinha pra cá. E com 15 anos, quando saí de casa pela primeira vez, a minha avó ia me adotar, porque a minha mãe, na época, foi pra Nova Zelândia e eu fiquei aqui no Brasil. A minha avó e o avô iam me adotar, a minha mãe passaria a minha guarda pra eles, e  por isso morei um mês com eles. Essa época, em que eu não era tão adulta, mas também nem tão pequena, acabei passando com eles. Ajudava ela no Da Vida, que é a organização e, inclusive, esse foi um dos intuitos de fazer o documentário, pelo fato de que eu tinha essa convivência e o bom relacionamento. Da família, eu fui a mais próxima. Aliás, ela cita isso em várias entrevistas.

Fórum – E quando você começou a compreender a vida política da sua avó?

Leite – Eu já compreendia, mesmo quando pequena. Não, eu não compreendia, eu entendia. Eu entendia que ela era uma visionária, mas não entendia o alcance político, qual era a dimensão de tudo isso. Desde que ela descobriu que estava com câncer, comecei a analisar melhor e ver nos rostos das pessoas a preocupação que elas tinham; ela ser convidada pra falar e não poder porque estava mal. Comecei a entender efetivamente: “poxa, ela está dando a cara a tapa até hoje e alcançou pessoas inestimáveis”.

Com a produção desse documentário, comecei a compreender de verdade, pois comecei a fazer parte e comecei a pesquisar em arquivo pessoal, a ver o histórico dela lá nos anos 1980, quando começou a militar. Comecei a ver os documentos da Rede Nacional de Prostitutas, e principalmente nos depoimentos, as pessoas falaram muito, se emocionaram muito também, até porque faz menos de um ano que ela morreu – ela faleceu em outubro.

A minha compreensão é totalmente diferente e ainda vai mudar muito.

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Fórum – Acredita que descobriu uma outra Gabriela Leite?

Leite – Sempre existiram várias Gabrielas e o nome real dela é Otília. Eu tinha a concepção da Otília que é a concepção que as irmãs têm dela, que a mãe tem dela, que a minha bisavó tem dela… A minha bisavó nunca chamou ela de Gabriela, mas sempre de Otília. Ela criou esse personagem que é a Gabriela, e mesmo este personagem não é uma coisa domesticada. São várias Gabrielas dentro de uma só. Inclusive, no primeiro livro dela [“Mulher da vida”], ela fala que a Gabriela é a mãe e que ela tem parido diversas mini-Gabrielas. É por isso que o documentário chama Filhas de Gabriela.

Eu sempre fui muito ligada a todas as concepções e sempre entendi essas concepções, essas diferentes personalidades. E agora com o documentário, tenho visto essas diferentes Gabrielas. A Gabriela prostituta, logo no comecinho na boca do lixo, eu entendi muito mais agora. Mas, mais do que isso…  Apesar de tudo isso, ela não era nem Gabriela e nem Otília. Pra mim, ela era a minha avó. Eu descobri uma Gabriela que é diferente da minha avó.

Tatiany Leite, neta e diretora do documentário sobre Gabriela Leite (Foto: Divulgação)
Tatiany Leite, neta e diretora do documentário sobre Gabriela Leite (Foto: Divulgação)

Fórum – Você descobriu o sujeito político da Gabriela.

Leite – Exatamente. As amizades também, eu sempre fui muito ligada às amigas dela e agora mais ainda, porque estou andando junto com a Daspu. Tenho tido uma convivência muito grande e tenho entendido e visto as Gabrielas que não são a minha avó.

Fórum – Qual é o papel político que o documentário pode exercer?

Leite – Eu acho – e isso é uma coisa que o Jean Wyllys (PSOL-RJ) vai defender muito -, que o papel político vai ser mostrar  o que ela sempre quis mostrar: que as prostitutas são mulheres como todas nós. Parar com esse discurso politicamente correto de quem não conhece, mas fala das putas; e também de quem conhece, paga puta todos os dias, mas mesmo assim fala coisas totalmente diferentes. O papel político desse documentário vai ser mudar a concepção que as pessoas têm. Como eu: mesmo não sendo puta, consigo entender as prostitutas como mulheres que estão trabalhando… E esse é o objetivo: que um dia todo mundo tenha orgulho e não tenha vergonha de falar “que filho da puta!”.

Fórum – Esse era um trabalho da Gabriela, que sempre utilizava a palavra puta e que dizia “eu sou puta”, justamente para quebrar a vergonha em torno da palavra.

Leite – Ela odiava qualquer outro tipo de definição. Quando saiu candidata a deputada pelo Partido Verde (PV-RJ), vivia dizendo: “Cara, vocês só ficam falando que eu sou socióloga, eu não sou nada disso, eu sou puta, uma puta aposentada”. E tem outra coisa que ela falava e que a gente tem usado no documentário: “a gente tem que pegar as palavras pelo chifre e tirar essas concepção da palavra que as pessoas têm.”

Fórum – Qual a sua posição em relação ao Projeto de Lei Gabriela Leite?

Leite – Essa é uma lei que tentou existir com a Gabeira ainda. Desde essa época, eu acompanho todas as nuances desse projeto e sou a favor. Ela lutou vida toda e, entrando especificamente na vida dela, eu tenho certeza de que é isso que precisa. Se o projeto for aprovado, a prostituta vai ter pra quem reclamar e vai ser reconhecida pelo trabalho dela – essa é a parte mais importante desse projeto. Se hoje a prostitua é espancada na rua, se hoje o cafetão bate e rouba o dinheiro dela, pra quem ela vai reclamar? Se o PL for aprovado, isso vai deixar de acontecer, e a prostituta vai poder falar e gerar um certo respeito.

Quando se fala de leis, as coisas pesam mais um pouco. Esses garotos que espancaram uma mulher porque acharam que era puta, sabe, que concepção babaca! Os memes da internet – principalmente com as travestis, que também estão na prostituição -, todo mundo leva pro lado do humor, porque a travesti foi na polícia reclamar que não recebeu o dinheiro. Não tem que levar pro lado do humor, a pessoa trabalhou. É por conta disso que fico junto com o PL, para as prostitutas serem reconhecidas como profissionais.

A ativista Gabriela Leite, morta no ano passado vítima de câncer (Foto: Arquivo pessoal)
A ativista Gabriela Leite, que morreu no ano passado vítima de câncer (Foto: Arquivo pessoal)

Fórum – E o que você pensa sobre a prostituição?

Leite – Quando eu era criança, convivia com todas as amigas da minha avó, que eram putas. Eu acordava e lá [casa da Gabriela Leite] tinha um monte de puta e travesti que ficavam falando de sexo a toda hora, tranquilamente. Eu cresci no meio dessa concepção e entendendo o que era ser, efetivamente, prostituta.

A minha concepção não mudou, mas talvez eu tenha ficado um pouco decepcionada com algumas prostitutas que não dão a cara a tapa. Todo mundo que se envolvia com a Gabriela entrava no projeto de um jeito ou de outro. E agora, ela morreu e tem puta que não quer dar a cara a tapa. Tem puta que tem vergonha, que não aprova o PL. Desde os anos 1980, a Gabriela dava a cara a tapa, era a puta que falava. Então, acho que rolou mais decepção do que qualquer outra coisa, com algumas prostitutas. Mas a minha concepção continua a mesma, pois eu cresci nesse meio.

Fórum – Como você acha que a Gabriela gostaria de ser lembrada?

Leite – Como uma puta pessoa. Eu tenho uma visão dela que talvez seja bem diferente da que têm as pessoas. Ela tinha uma coisa de não se importar com qual imagem deixaria. O que ela mais queria é que as coisas dessem certo. Que as coisas fossem e não só por causa dela, mas que as coisas fossem e acontecessem. Ela era um meio, ela não tinha essa coisa de “só eu vou falar”.

Fórum – Qual é o legado que a Gabriela Leite deixou?

Leite – Não tenha medo de viver. Se você não concorda, dá a cara a tapa e vai em frente.

(Crédito da foto de capa: Divulgação)