A Copa que a velha mídia quis, mas não teve

As previsões catastróficas sobre a organização do Mundial contaminaram uma parcela da população e os veículos internacionais, mas, no fim das contas, não se concretizaram. O discurso precisou ser mudado de última hora, escancarando as fraquezas de uma cobertura que, até então, mostrava-se incisiva

Por Anna Beatriz Anjos

“2.038: Por critérios matemáticos, os estádios da Copa não ficarão prontos a tempo” (Revista Veja, maio de 2011). “O risco Copa – Confrontos em protestos, obras pela metade e custos que assustam turistas. O Mundial de 2014 enfrenta ameaças graves – e exige um esforço final que garanta uma festa cativante e segura” (Revista Época, janeiro de 2014). “Copa do Mundo tem risco de apagão de mão de obra” (Portal Ig, favereiro de 2014). “Black blocs prometem caos na Copa com ajuda do PCC” (O Estado de São Paulo, maio de 2014).

Esses são exemplos de capas, manchetes e chamadas publicadas, ao longo do último ano, por alguns dos maiores veículos de comunicação do país. Em comum, a pauta: Copa do Mundo. O que predomina: estádios e aeroportos inacabados, caos na segurança pública, alta nos preços – tanto das obras, quanto dos bens de consumo.

Todas as reportagens citadas abordaram aspectos perversos da realização do mundial da Fifa. Alguns deles que precisavam ser denunciados e apurados a fundo, como foram. Mas será que a alta dose de criticidade em relação à organização do Mundial no Brasil qualifica como satisfatória e abrangente a cobertura realizada  pela chamada mídia tradicional – os veículos que monopolizam as comunicações no país?

Capas da Revista Veja, em 2011 e 2014, durante a Copa (Foto: Reprodução)
Capas da Revista Veja, em 2011 e 2014, durante a Copa (Foto: Reprodução)

Seletividade

A cobertura dos preparativos para a Copa do Mundo está longe de ser completa e de ter captado os contrastes de todos os fatores envolvidos. Artigo publicado no último dia 23 pelo coletivo Intervozes, que trabalha pela efetivação do direito humano à comunicação no Brasil, elenca questões praticamente ignoradas pela grande imprensa brasileira. Uma delas é a Lei Geral da Copa (nº 12.663), sancionada em 2012 e que estabelece medidas relativas à Copa do Mundo e também à Copa das Confederações.

“Fazer uma crítica à Lei Geral da Copa significaria fazer uma crítica à Fifa. Então, a grande imprensa acabou optando por não fazê-la”, observa Beatriz Barbosa, jornalista e integrante da coordenação do Intervozes. Para ela, os veículos tradicionais foram seletivos na escolha de suas pautas. “Os estádios e os aeroportos estavam atrasados, grande parte das obras de mobilidade não foi concluída, então o problema não era falar que isso não estava acontecendo, porque de fato estava. O problema foi dar visibilidade somente a esse aspecto”, avalia.

Barbosa cita outro setor que deveria ter sido alvo de rigorosa apuração da imprensa durante a organização do torneio – as comunicações. Ela exemplifica: “Nunca foi divulgado o valor pago pela Globo pelos direitos de transmissão exclusivos dos jogos. E a gente chega num quadro em que as emissoras públicas brasileiras têm que pagar para a ela para ter o direito de transmitir os jogos.”

Segundo a jornalista, utilizar a “desculpa” de que a Fifa detém os direitos de transmissão e os comercializa com quem desejar não justifica o fato dos veículos estatais de informação – como a Rádio Nacional e a EBC – ficarem reféns da maior emissora privada do país. “No momento de votação da Lei Geral, poderia ter sido aberto algum tipo de exceção para que os canais públicos pudessem transmitir os jogos. A negociação teria sido possível caso houvesse, naquele momento, vontade política de enfrentar as imposições da Fifa. Mas mostrar esses problemas também não interessava à grande mídia, pois seria o mesmo que comprar uma briga com a Fifa”.

O também jornalista Laurindo Leal Filho, doutor em Ciências da Comunicação e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), concorda com o argumento da seletividade, e destaca: por trás das opções editorais, há interesses econômicos e políticos.  “A mídia tinha a clareza de que um evento bem sucedido, conquistado pelo governo Lula e implantado pelo governo Dilma, poderia criar um clima eleitoral favorável à situação nas eleições desse ano”, explica. “Ela centrou fogo no governo.”

Na análise de Leal, a abordagem de certos aspectos em detrimento de outros – ou de uma cobertura mais homogênea – acabou por construir um discurso catastrófico, de que a realização do mundial estaria comprometida por diversos problemas e de que o país seria incapaz de organizar um megaevento. “A mídia brasileira criou um clima negativo para a Copa do Mundo”, afirma.

A pesquisa “Brasil além da bola”, da TNS Brasil, empresa global de pesquisa de mercado e opinião, em parceria com a Lightspeed Research, comprova esse sentimento de pessimismo. Realizada em nove capitais nacionais entre os meses de maio e junho, ela indica que, a poucos dias do início da Copa, 53% dos brasileiros acreditavam que sediá-la havia sido uma decisão equivocada. Outros 52% consideravam que a imagem do Brasil sairia prejudicada após o campeonato.

“[A imprensa] impôs uma visão de incapacidade brasileira.  De tal modo que até seus jornalistas se julgaram na obrigação de serem pessimistas com relação a essa capacidade”, analisa Rita Freire, jornalista e editora da Ciranda Internacional de Comunicação Compartilhada. “Esse foi o lado que clamou pelo padrão Fifa em coisas que jamais podem ser tratadas como um negócio, como a saúde e a educação. Enfim, foi um desserviço. O  Brasil tem plenas condições de organizar qualquer coisa”, pontua.

A mudança

O coro negativo adotado por grande parte dos gigantes brasileiros da comunicação passou a emitir sinais de fraquejo desde o início da competição. A própria revista Veja, autora das mais catastróficas previsões, mudou significativamente o tom em sua última capa, na qual pode-se ver estampada a constatação: “Só alegria até agora”. O Estado de São Paulo, em 22 de junho, também admitiu o relativo sucesso do Mundial até o momento: “Apesar de problemas, Copa vence o caos”. Na reportagem, pode-se ler que “o Brasil não está fazendo tão feio” e que “nos pontos em que se temiam mais problemas, como os aeroportos, o transporte e a segurança pública, as coisas estão indo relativamente bem”.

No mesmo dia, a Folha de São Paulo destacou, em sua edição impressa: “Prenúncio de que a Copa seria ‘o fim do mundo’ não durou 3 dias”, referindo-se à boa repercussão internacional. O mesmo fez o Jornal Nacional, na última quinta-feira (26). “O fato é que, aos poucos, desde o início desse mundial, isso [críticas estrangeiras] tem mudado”, declarou o âncora William Bonner frente às câmeras.

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“Contra fatos não há argumentos. Eles não têm como negar essa realidade”, considera Laurindo Leal Filho, referindo-se ao bom andamento do evento, tanto em termos de organização, como no sentido esportivo. Prova disso é, por exemplo, a situação dos aeroportos: segundo informações da Secretaria de Aviação Civil, o índice de atraso de voos entre os dias 11 e 16 deste mês ficou na casa dos 4,2%. A media está abaixo do padrão internacional (15%) e do europeu (8,4%).

“Os problemas, apesar de terem sido resolvidos de última hora, foram resolvidos. Foi um risco que o país correu; a gente poderia estar vivendo agora uma situação de problemas nos aeroportos, na questão dos transportes, nos estádios, e felizmente nada disso está acontecendo”, diz Beatriz Barbosa. “Isso faz com que a grande imprensa tenha, necessariamente, que mudar o seu discurso. Senão fizer isso, vai ter que criar fatos, e aí já é demais.”

Como lembraram as reportagens do JN e da Folha de São Paulo, a mídia “gringa” também tem revisto seu posicionamento em relação à Copa do Mundo. Se na véspera do torneio insistiu na ideia de que as manifestações “ameaçariam” a agenda de jogos e haveria caos nos transportes, agora o consenso é de que, afinal, as coisas não saíram tão ruins assim.

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O periódico francês Le Monde afirma que “o milagre brasileiro”. Segundo o jornal, o Brasil “organiza um Mundial à sua maneira: desordenado e simpático, despreocupado e receptivo.” (Foto: Reprodução)

A virada começou com o periódico norte-americano The New York Times, que, do dia 17, veiculou artigo intitulado “At the World Cup, Doomsday Predictions Give Way to Smaller Hiccups in Brazil (em português, algo como “As previsões do juízo final dão lugar a soluços menores no Brasil”).  “Em geral, as condições para a maioria dos jogos têm sido excelentes. Em cidades como Natal e Salvador – onde os campos foram agredidos com chuva excepcionalmente fortes – foi comprovada a qualidade dos sistemas de drenagem”, diz um dos trechos.

Quatro dias depois, foi a vez do francês Le Monde afirmar que “o milagre brasileiro” aconteceu – devido ao não cumprimento daquela que, até então, era considerada uma tragédia anunciada. Segundo o jornal, o Brasil “organiza um Mundial à sua maneira: desordenado e simpático, despreocupado e receptivo.”

Boas notícias vieram também do britânico The Economist, que elogiou Salvador – “expectativas excedidas” -, Recife – “a cidade funciona bem” – e Brasília – “nenhuma escavadeira a vista” no caminho do aeroporto ao estádio Mané Garrincha, o que significa que as obras foram concluídas na cidade. Já o espanhol El País salienta que “o Mundial ocorre sem muitas complicações”, e que a onda de protestos e manifestações que “causavam temor por um campeonato conturbado desapareceram quase que completamente quando a bola começou a rolar”.

Para Rita Freire, as críticas anteriores à Copa do Mundo aconteceram porque a imprensa estrangeira é pautada pelos meios de comunicação nacionais. “Ainda estamos lidando com uma cultura midiática da cobertura internacional baseada em agências e em correspondentes, que estão atentos ao que a mídia local está falando”, esclarece. “Como a grande mídia não tem encontrado fatos para sustentar uma crítica aos problemas de organização da Copa, a  cobertura virou altamente festiva. Só jogos, comemorações, casas e ruas enfeitadas”, diz Barbosa.

Movimentos sociais entre dois destinos possíveis: criminalizar ou usufruir

Se, por um lado, a grande mídia pinçou, em meio a tantos aspectos, aqueles que desejava abordar, os movimentos sociais que se articularam, desde o início do ano, para contestar a realização do Mundial da Fifa no Brasil apresentaram um conjunto de reivindicações – e continuam a fazê-lo. “Eles nunca falaram só de uma questão específica, sempre denunciaram uma série de problemas que estava acontecendo em torno da organização da Copa”, relembra Beatriz Barbosa.

A jornalista destaca que a grande imprensa tentou se apropriar desses movimentos sociais conforme seus interesses. “A questão do gasto dos recursos públicos, isso sempre teve espaço na imprensa. Ela sempre mostrava nas manifestações cartazes dizendo que o país estava gastando muito recurso publico na Copa, e que precisava fazer o mesmo com a saúde, educação, transporte.”

“Foi também uma cobertura seletiva. Aqueles movimentos que têm mais potencialidade de desgastar o governo, sem mexer nos interesses da mídia, foram apoiados. Já aqueles que tocam em questões estruturais da sociedade brasileira, como é o caso do movimento por moradia, em defesa dos trabalhadores, esses são criminalizados”, avalia Laurindo Leal.

Em entrevista recente à Fórum, o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), Guilherme Boulos, declarou que a mídia tradicional tentou “seduzi-los”. “Ela viu no MTST, pela capacidade de mobilização e organização, uma oportunidade de repetir os aspectos negativos que junho de 2013 teve [na opinião pública em relação ao governo federal]. E aí fazer isso em ano eleitoral, a poucos meses da eleição, de modo a jogar uma pá de cal na Dilma”, afirmou. “E não conseguiu, porque o MTST se colocou de forma muito clara em relação ao seu discurso, que não é o discurso de ‘não vai ter Copa’, expressando que o nosso problema é outro”, afirmou, referindo-se aos efeitos colaterais do campeonato nos grandes centros urbanos, como o aumento da especulação imobiliária e a alta no preço dos alugueis (sobretudo em Itaquera, São Paulo, onde um dos estádios foi construído).

Projeção realizada em São Paulo durante um dos atos do coletivo "Se não tiver direitos, não vai ter copa". Os movimentos contrários ao Mundial receberam visibilidade da mídia tradicional, pois suas reivindicações lhes eram convenientes (Foto: Se não tiver direitos, não vai ter copa)
Projeção realizada em São Paulo durante um dos atos do coletivo “Se não tiver direitos, não vai ter copa”. Os movimentos contrários ao Mundial receberam visibilidade da mídia tradicional, pois suas reivindicações lhes eram convenientes (Foto: Se não tiver direitos, não vai ter copa)

Por conta disso, segundo Boulos, houve tamanha diferença de cobertura em relação aos últimos grandes atos de rua do MTST. “A visibilidade que tivemos quarta-feira passada [dia 4 de junho] ao botar 20 mil no Itaquerão não foi nem um terço da visibilidade que tivemos duas semanas antes ao botar 20 mil na Ponte Estaiada. Por que eles já haviam percebido que ali não valia a pena apostar. O MTST não vai cumprir esse papel que queriam que cumprisse, e começaram a tirar o pé do acelerador”, constatou.

Outras mobilizações ocorridas recentemente no país, como as greves dos garis, no Rio de Janeiro, dos motoristas e cobradores de ônibus, e, posteriormente, a dos metroviários, em São Paulo, foram alvo do processo inverso: em vez de ressaltadas as reivindicações da categoria, o que sobressaiu foram os transtornos causados à população pela interrupção dos serviços – lembrando que os encargos de uma greve nunca devem ser atribuídos somente aos trabalhadores, mas também aos patrões, que são igualmente responsáveis por ela. “Movimento sindical urbano, em greve, ou movimento rural em ocupação nunca tiveram tratamento respeitoso da mídia”,  exalta Rita Freire.

Da mesma maneira que fez com o MTST, os grandes veículos midiáticos “tiraram o pé do acelerador” em relação aos protestos que têm ocorrido durante o megaevento  (mesmo que os que não tem relação direta ao coletivo “Se não tiver direitos, não vai ter copa”). Nos noticiários, não há mais tanto espaço para as pautas dos movimentos: o que é posto em foco é, por exemplo, a ação dos adeptos da tática black bloc, o “quebra-quebra” – como é possível comprovar por meio das seguintes matérias do UOL, Terra, e Folha de São Paulo. “Por mais que os protestos sejam pequenos, e que naturalmente não tenham a mesma repercussão que tiveram no ano passado, as pessoas estão apanhando muito [da Polícia Militar], mas essa repressão não está sendo mostrada”, alega Barbosa.

Necessidade de democratizar

Em texto publicado no último dia 24, o jornalista Luiz Nassif não perdoou: escreveu que a mídia “diuturnamente contra o sucesso da competição e contra qualquer sentimento de autoestima nacional”. O chavão criado em torno do Mundial – “Imagina na Copa” –, embora cômico, não deixa de expressar a descrença do brasileiro em relação ao sucesso do evento.

Para Rita Freire, esse ceticismo se deve ao fato de que a questão envolveu algo além da vocação nacional para a logística e organização. “Ao ser catastrófica em relação à qualidade da Copa, e tentar fazer colar seus argumentos nos protestos, ela [imprensa tradicional] mexeu também com um dos poucos antídotos que o povo brasileiro teve durante muito tempo contra a baixa autoestima imposta pelos padrões colonizadores – da própria mídia –, que é o seu orgulho no futebol”, considera. “Foi uma agulha na ferida, para provocar dor mesmo.  Em reação, as redes sociais não propagaram críticas com algum embasamento, propagaram ódio, direcionado principalmente  contra o governo, por estar proporcionando isso ao Brasil.”

(Foto: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil)
“Os problemas, apesar de terem sido resolvidos de última hora, foram resolvidos. Foi um risco que o país correu; a gente poderia estar vivendo agora uma situação de problemas nos aeroportos, na questão dos transportes, nos estádios, e felizmente nada disso está acontecendo”, diz a jornalista Beatriz Barbosa (Foto: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil)

A mudança discursiva dos grandes jornais, revistas, portais e emissoras de TV foi acompanhada pela opinião pública. “A população brasileira ainda tem uma relação pouco autônoma em relação aos meios de comunicação de massa. Por eles operarem um discurso muito hegemônico, há uma parcela da população – que vem diminuindo, mas ainda é muito significativa – que ainda vai de acordo com o que pauta a imprensa”, analisa Beatriz Barbosa.

“Por mais que se consiga fazer algum tipo de contraponto pela internet, redes sociais ou mídia alternativa, para a grande massa da população brasileira, a formação de opinião está muito condicionada ao que dizem os grandes meios de comunicação, principalmente a televisão”, pontua a coordenadora do Intervozes. De fato, pesquisa divulgada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República em março deste ano aponta que 97% dos brasileiros elegem a TV como meio de se informar – destes, 65% o fazem diariamente.

Essa situação evidencia a necessidade de se democratizar a comunicação no país – o que Freire classifica como “desconcentrar, regionalizar, multiplicar e valorizar as mídias brasileiras”, no sentido de se criar mais narrativas e versões. “Qualquer cobertura monolítica é ruim para a diversidade, para a formação democrática da opinião pública. Não é preto no branco, não é que antes estava tudo ruim, e agora está tudo bem. Há diversos pontos que a imprensa não conseguiu mostrar nem lá atrás, e não consegue mostrar agora. Isso é ruim para a democracia”, finaliza Barbosa.

(Crédito da foto de capa: J.P.Engelbrecht/PCRJ)