Drones, o jogo mortal EUA

De acordo com a New America Foundation (entidade especializada em computação vítimas), apenas 2% das vítimas de drones eram insurgentes da Al Qaeda ou outras organizações terroristas

Original em Rebelión, tradução de Ítalo Piva

Uma menina de 9 anos do noroeste do Paquistão, Nabila Rehman, foi ferida num ataque de drones americanos no vilarejo de Kala Ghundi. “Antes, eu não temia os drones, mas agora, quando os vejo voando, me pergunto: será que vou ser a próxima vítima?”, ela disse ao Congresso dos EUA. Seu irmão de 13 anos foi ferido, e sua avó, de 68 anos, morreu com o corpo estraçalhado pelo impacto de um míssil.

Este é um dos testemunhos gritantes que o jornalista Roberto Montoya documentou no livro “Drones. Morte por Controle Remoto”, da coleção “A Fundo “, organizada por Pascual Serrano, e que acaba de ser lançada. Além de jornalista especializado em notícias internacionais, Montoya é autor de obras como “Império Global” e “Impunidade Imperial.”

As palavras de Nabila não são apenas um testemunho vivo da realidade cruel e implacável que segue um ataque de drones. É também o registro de um modo de operação que se repete. O ataque teve as características habituais, primeiro um míssil, que, nesse caso, atingiu diretamente a avó das crianças, quando o piloto do zangão, sentado confortavelmente numa cadeira acolchoada a milhares de quilômetros de distância, nos Estados Unidos, imediatamente lançou um segundo míssil quando viu várias pessoas vindo ao socorro do “alvo”, explica Roberto Montoya. Nove crianças ficaram feridas.

Apesar da propaganda imperial e dos interesses da enorme indústria de guerra, Obama reconheceu, num discurso recente, que “às vezes mortes de civis ocorrem” neste videogame de guerra. Porém, “às vezes”, diz Roberto Montoya, na realidade é “frequentemente”, ou “quase sempre”, como evidenciado no Afeganistão, Paquistão, Iêmen, Somália e cada vez mais países. De acordo com a New America Foundation (entidade especializada em computação vítimas), apenas 2% das vítimas de drones eram insurgentes da Al Qaeda ou outras organizações terroristas. A maioria das vítimas pertencia à categoria de ativistas de base – funcionários, professores ou clérigos que apoiam a jihad. Os 15% restantes, são civis, crianças, mulheres e homens de todas as idades.

Além das estatísticas, o jornalista internacional, ex-correspondente em Londres, Roma e Paris revela uma conversa entre Obama e o vice-diretor da CIA, Steve Kappes, ilustrando a tragédia melhor do que mil imagens. “Sr. Presidente, nós identificamos nossos alvos quando podemos ver que em um determinado lugar há muitos homens de idade militar (16 anos), homens que seguramente estão relacionados com atividades terrorista, mas eu tenho que dizer que nem sempre se sabe quem eles são.” Os comentários foram divulgados no livro de Daniel Klaidman, “Matar ou Capturar”.

O livro “Drones. Morte por Controle Remoto “, desmascara Obama como progressista, Prêmio Nobel da Paz (poucos meses depois de se tornar presidente) e admirador de Martin Luther King. Montoya nos lembra, que durante os oito anos de Bush no poder, houveram 48 ataques com drones, enquanto durante o mandato de cinco anos de Obama, ele acrescentou mais de 390 ataques à lista, no Paquistão, Iraque, Afeganistão, Iêmen ou Somália, resultando na morte de 4 mil a 5 mil pessoas (muitos deles civis). A conclusão é sucinta: “Obama acredita que os drones são a fórmula ideal para a continuação da guerra contra o terror de Bush evitando a crescente rejeição doméstica às mortes de milhares de jovens soldados Americanos no Iraque e Afeganistão “.

Além disso, o conflito agora é impensável sem drones para o poder imperial. E estes são apenas uma parte da guerra robótica. Em 2001, os Estados Unidos gastaram $ 667 milhões do Orçamento Geral da União pra construir drones, um número que em 2013 subiu para 26.6 bilhões. Oficialmente, em 2014 os Estados Unidos têm 12.000 aviões de controle remoto. Como um curta metragem digital, mortes e assassinatos “seletivos” cometidos pela CIA, ou pelas forças armadas dos Estados Unidos ou a Grã-Bretanha, são monitorados desde uma base militar a 10.000 milhas de distância. Um piloto da Força Aérea dos EUA (USAF) admite, “matar pessoas através de uma tela e depois ir comer no restaurante da esquina, é um pouco surreal.”

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Robero Montoya insiste que, por parte do governo, é necessário esconder os fatos sobre os ataques imperialistas com drones, porque “Washington ignorou repetidamente as reivindicações dos governos do Paquistão, Afeganistão e Iraque para o fim dos assassinatos nesses países.” Mas esta é uma realidade da qual nem os cidadãos dos EUA escapam, como no caso do clérigo muçulmano Anwar al Awlaki, seu filho Abdulrahman al-Awlaki, de 16 anos, e Jude Mohammed Samir Khan, todos as vítimas de execuções extrajudiciais no exterior. Tanto os meios de comunicação norte-americanos quanto a família de Awlaki e organizações de direitos civis, questionaram a legalidade dos ataques, e denunciaram Obama, o diretor da CIA, e o secretário de Defesa no Tribunal Federal, pedindo para que tirassem os al-Awlaki e Khan de “Lista Negra”. Sem sucesso.

Outro elemento de análise que Montoya aborda é a cooperação institucional desenvolvida para que os assassinatos “seletivos” com drones sejam bem sucedidos. Um caso notório é o da NSA (Agência de Segurança Nacional, envolvido em práticas de espionagem em massa em todo o mundo). Como revelado no “The Intercept” Glenn Greenwald, o maior colaborador jornalístico de Edward Snowden, a NSA ajuda a CIA e o JSOC (Comando Unificado de Operações Especiais) na interceptação de chamadas telefônicas e localização de telefones celulares, através do programa “Geo celular”. O procedimento envolve a NSA localizando o cartão SIM do telefone de uma pessoa procurada, permitindo que os drones da CIA e JSOC programem as coordenadas adequadas. O risco, no entanto, é que o processo resulte em erros dramáticos, porque possivelmente não é o proprietário, mas um amigo ou parente que esteja perto do celular no momento de um ataque.

Os drones ocupam um lugar de destaque na nova guerra “inteligente”. É o que diz Roberto Montoya, “Os Estados Unidos, Israel, Reino Unido e Paquistão já incorporaram drones armados com mísseis como uma arma vital do dia a dia na luta contra seus oponentes”. Outros quarenta países implementaram modelos de aeronaves não tripuladas e armadas. “No comércio de armamentos, drones são as verdadeiras estrelas”, disse o jornalista. Na União Europeia, 20 estados (incluindo Espanha) desenvolveram 400 modelos diferentes de aeronaves não tripuladas. Em 2013, os 28 países membros da UE concordam em cooperar na produção de robôs aéreos, com o intuito de terminar a dependência dos Estados Unidos e Israel.

Para compreender a expansão dos drones é importante notar duas tendências. Em primeiro lugar, um cenário em que um novo tipo de guerra com armas “inteligentes” prevalece. De fato, em poucos anos, o Pentágono terá mais drones de combate e cada vez menos mão de obra humana (segundo o plano de redução que o Pentágono anunciou em fevereiro 2014, prevendo uma redução dos 570 mil soldados atuais para 450 mil). Ou seja, estão priorizando unidades de forças especiais com equipamentos sofisticados, para prover mais precisão nos ataques e na vigilância. Ao contrário do lobby tradicional do complexo militar-industrial, empresas que constroem armas de alto valor tecnológico estão sendo contratadas. “Libélulas” de 45 polegadas, mini-drones do tamanho de um inseto, armas inteligentes, robôs ou caminhões militares sem motorista são parte da nova realidade.

A segunda grande tendência observada por Roberto Montoya é a falta de cobertura legal que está ocorrendo no uso dos drones. Além disso, durante anos, organizações de direitos humanos denunciam o uso de drones pelos EUA, e também pelo Reino Unido e Israel. O relator da ONU sobre o assunto, Christof Heyns, chamou os veículos não tripulados de “robôs assassinos”. Se não fosse o suficiente, como os Estados Unidos não está formalmente em guerra com o Paquistão, Afeganistão, Iraque, Iêmen ou Somália, o grande poder imperial considera que não tem nenhuma razão pra respeitar as Convenções de Genebra, os Regulamentos de Haia (1907), ou qualquer outra estrutura que regule o combate. Não percebendo que os drones e a guerra robótica em geral, como Christof Heyns diz num relatório, “muitas vezes não pode discernir se a vítima é uma criança, uma mulher, um homem velho, ou mesmo se você tem um uniforme ou está se rendendo”. Um jogo de guerra digital, mais barato e com menos baixas, é também particularmente impune.