Editorial – Crônica de uma mídia seletiva

O Jornal Nacional da última quinta-feira (26) exibiu uma curiosa reportagem na qual, em resumo, atribuía à imprensa internacional o pessimismo que cercava a realização da Copa do Mundo no Brasil. O que não mencionou era a parcela de sua própria responsabilidade nas perspectivas quase catastróficas em torno da realização do evento, assim como esqueceu o quanto a mídia tradicional nativa torceu pelo caos tal como uma organizada de clube brasileiro.

Obviamente, muitas das críticas tinham fundamento e é inegável que violações de direitos ocorreram na preparação da Copa. Mas não era isso que interessava à mídia e sua pauta nem de longe se assemelhava a dos movimentos sociais. Os ataques se davam pela seletividade de notícias e de informações, buscando minar mesmo a autoestima do brasileiro e tentando trazer de volta um complexo de vira-latas que durante muito tempo dominou o cenário nacional.

Na profusão da desinformação, em geral, os ataques eram feitos ao governo – entenda-se, federal – de forma genérica. Atrasos de estádios privados e de obras cuja responsabilidade direta era do poder público estadual e municipal, além de atitudes da Fifa, eram atribuídos à suposta leniência e incompetência da esfera federal. Trata-se não somente de má-fé, como de um exercício de didática perversa, algo comum na velha imprensa.

Com o êxito do Mundial, agora o discurso muda. A “culpa” do pessimismo é da imprensa de fora, embora alguns ressaltem que é melhor “aproveitar agora”, pois não haverá qualquer “legado duradouro” da Copa. A persistência no erro não é privilégio ou exclusividade de determinados veículos, mas têm se tornado quase uma marca registrada para alguns.