“Game of Thrones” no Iraque

O novo jogo de xadrez geopolítico no Iraque, impulsionado pela insurgência sunita, cria dilemas, forja “casamentos de conveniência” e coloca lado a lado antagonistas históricos

Por Vinicius Gomes

Havia se passado menos de dois meses desde que os EUA iniciaram a invasão do Iraque – com seus aviões de guerra lançando suas primeiras bombas no meio da madrugada de 19 de março de 2003 na capital Bagdá – quando o presidente George W. Bush fez um pouso à la Top Gun para anunciar que a missão havia sido cumprida.

Mais de dez anos, centenas de milhares de adultos e crianças mortas e dois trilhões de dólares depois, todas as conquistas da operação “Liberdade Iraquiana”, liderada pelos EUA e Reino Unido, parecem não ter feito o menor sentido. Em menos de uma semana, uma coalizão de insurgentes tomou o controle – completo ou parcial – de diversas cidades no norte do país e, com isso, uma nova crise  se engatilhou no Oriente Médio, conflito que envolve alguns dos principais atores internacionais e regionais.

Frente a frente ao avanço de pouco mais de mil insurgentes sunitas, aproximadamente 50 mil soldados do exército iraquiano – treinado e armado pelos EUA – largaram suas armas, tiraram seus uniformes e fugiram de cidades como Qaim, Rawah e Anah, além de Baji – que abriga a maior refinaria de petróleo do Iraque – e Mosul, a segunda maior cidade do país e próxima à fronteira com a Síria.

O Isis na Síria e Iraque: em vermelho as áreas já dominadas pelo grupo; em amarelo áreas com presença e em disputa (Wikimedia)
O Isis na Síria e Iraque: em vermelho, as áreas já dominadas pelo grupo; em amarelo, áreas com presença e em disputa (Wikimedia)

O Estado Islâmico do Iraque e da Síria (Isis, sigla em inglês) tem sido apontado como o principal nome da insurgência sunita. Conhecidos mundialmente pela brutalidade, até mesmo organizações como a Al-Qaeda consideram seus métodos extremos demais – se é que tal cenário é possível, considerando que para esses grupos o extremismo é encarado como norma do dia. Todavia, essas revoltas não foram criadas e nem são controladas pelos milhares de militantes do Isis. Elas também envolvem antigos membros do partido de Saddam Hussein, o Ba’ath, assim como milícias tribais e outros grupos armados.  Além de tudo, a insurgência é erroneamente taxada como “terrorista”.

Para o professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Reginaldo Nasser, isso não corresponderia à verdade: “Não tem sentido chamá-los de terroristas, pois terroristas não têm a capacidade de tomar a segunda maior cidade do Iraque”, afirma Nasser. “Eles são insurgentes que estão lutando contra um Estado formado pela ocupação militar. Até porque, mesmo tendo eleições, estas foram montadas pelos EUA/OTAN junto das elites xiitas”, explica o professor. Ele completa dizendo que, se eles conquistaram algumas das principais cidades do país, significa que contam com o apoio da população.

No entanto, a situação do Iraque traduz uma das maiores verdades quando se observa a movimentação de peças no tabuleiro de xadrez, que é como a geopolítica internacional é muitas vezes encarada, dos países da região e potências estrangeiras como os EUA e a Rússia. Se em 2012 e 2013 o jogo se deu na Síria, e no início de 2014 observamos o mesmo jogo na Ucrânia, a bola da vez agora é o Iraque.

Jogo de alianças e interesses

A situação no Iraque e as principais respostas para a atual crise residem dentro das próprias políticas iraquianas. O presidente Nouri al-Maliki perdeu o controle das regiões sunitas do país por conta de suas políticas autoritárias e sectárias, e também devido à sua recusa em dar mais espaço político à minoria sunita. Em fins de 2012, por exemplo, inúmeros protestos nessas áreas já demonstravam o descontentamento popular.

Entretanto, a taxação de “conflito étnico” também seria errônea, de acordo com o professor Nasser: “A fórmula do ‘conflito étnico’ é confortável para os países ocidentais e tem exemplos recentes como Líbia, Síria, Ucrânia e agora, o Iraque. Voltando ao tempo da ocupação, logo depois do término do regime de Saddam Hussein, quando George W. Bush anunciou a vitória no Iraque, devemos lembrar que as primeiras grandes resistências à ocupação militar vieram de xiitas no sul do país, notoriamente na cidade de Basra”, argumenta. “E mesmo assim, o principal movimento dos norte-americanos foi a cooptação de uma parte dos xiitas, ou seja, a elite xiita, imputando que não existe diferença organizacional dentro da etnia – é quase como dizer os ‘católicos do Brasil’ sem considerar diferença alguma nesse grupo”, explica o professor.

O Isis foi considerado "extremo demais" até para a organização terrorista Al-Qaeda (Raw Story)
O Isis foi considerado “extremo demais” até para a organização terrorista Al-Qaeda (Foto: Raw Story)

O caos ficou ainda mais exacerbado com a retirada total das tropas norte-americanas do país, em 2011, e a intervenção indireta de inúmeros países da região. O jogo de alianças começa a ser percebido pela série de dilemas que esses países passam a enfrentar com o avanço dos insurgentes e pelo crescimento da força do Isis.

O Isis nasceu na Síria e seus atos cruéis fizeram com que o grupo rebelde sírio, al Nusra, também os rejeitasse. Seu movimento sunita ambiciona criar um território onde a lei do Sharia impere, tanto em regiões da Síria, como no Iraque – o que os coloca em rota de colisão com o regime de Bashar Al-Assad, na Síria, e com o governo iraquiano do presidente Nouri Al-Maliki,  dominado pelos xiitas.

A situação para os EUA é complicada: enquanto os norte-americanos apoiam o presidente Maliki e seu governo xiita no Iraque – mesmo que agora digam que seria melhor ele sair -, os mesmos norte-americanos ainda exigem a derrubada de Bashar al-Assad e seu regime na Síria. Nesse último, o Isis é o principal grupo rebelde tentando derrubar o presidente Assad, tornando-se consequentemente, um “aliado” da administração Obama – algo como “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.

Outra questão é se os EUA devem ou não voltar a intervir militarmente no Iraque. Parece inacreditável, mas a terrível experiência norte-americana de poucos anos atrás aparentemente foi esquecida pelos neoconservadores em Washington, que novamente fazem pressão na Casa Branca para bombardeios “inteligentes” em áreas estratégicas, como método de contenção do avanço do Isis e outros grupos.  Daí o perigo na classificação do movimento como “terrorista”.

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Um relatório escrito por Kenneth Pollack, especialista em Oriente Médio, sobre a situação militar no Iraque, faz eco à avaliação do professor Reginaldo Nasser. Nele, argumenta-se que definir os militantes sunitas como terroristas implica que eles devem ser atacados imediatamente e diretamente pelos EUA e, que definir a crise iraquiana como étnica é falaciosa. De fato, o argumento de “conflito étnico” entre sunitas e xiitas iraquianos é apenas uma tentativa fácil de explicar uma situação complexa que data da Primeira Guerra Mundial, quando o Iraque foi “inventado” pelo Reino Unido, em um processo muito parecido com o que ocorreu com a partilha da África no final do século 19: um mapa, uma régua e fronteiras sendo estabelecidas sem considerar a divisão tribal que sempre existiu no território– mesmo que ao longo dos anos tenha sido criada uma unidade nacional, principalmente durante o regime do Partido Ba’ath, de Saddam Hussein.

O dilema da Arábia Saudita reside no fato de o país ser aliado dos EUA, e necessitar continuar assim. Isso os coloca em posição de antagonismo em relação ao governo iraquiano. Por isso, este alega que o Isis é fruto do reino vizinho, a Arábia Saudita. De maneira muito similar aos mujahideens afegãos – que se beneficiaram do apoio militar e financeiro dos EUA durante a guerra contra a União Soviética na década de 1980, só para mais tarde se voltarem contra o Ocidente na forma da Al-Qaeda -, o Isis só é o que é hoje por conta do apoio saudita e, exatamente como no Afeganistão, eles agora são uma perigosa ameaça para o reino, que nega apoiá-los, de maneira não muito convincente.

Outro país acusado de apoiar o Isis é o Qatar. Esse pequeno Estado do Golfo Pérsico, embora esteja em uma “crise de relacionamento” com a Arábia Saudita, também fez parte da “coalizão” para derrubar Assad na Síria, financiando os rebeldes oposicionistas. Entretanto, sua posição quanto aos insurgentes no Iraque ainda é desconhecida.

Mais ao norte encontra-se a Jordânia e a Turquia – ambos grandes aliados dos EUA no Oriente Médio, Em 2013, ocorreram denúncias de que a Jordânia teria abrigado uma base secreta do Isis em seu território, para que seus integrantes fossem treinados pelos EUA. Segundo o jornal alemão Der Spiegel, ao menos 200 norte-americanos estiveram no país árabe para treinar rebeldes sírios – mas não puderam confirmar se eram de fato militares regulares das forças armadas dos EUA ou soldados contratados.

Já o caso da Turquia é mais crítico: o país está sempre em constante alerta com o movimento de independência do Curdistão, ao sul de seu território, bem na fronteira com o Iraque. Com a ascensão do Isis na região, os curdos podem se sentir muito mais confiantes para novamente levantar sua bandeira de independência. Qualquer movimentação nesse sentido pode resultar em uma intervenção militar ativa do governo turco.

E então se chega a dois dos principais antagonistas históricos dos EUA: Irã e Rússia. Enquanto o segundo aparenta ainda estar esperando para ver o que acontece – emitindo apenas uma declaração de apoio ao presidente Maliki –, a atenção toda deve ser reservada ao primeiro.

De maneira indireta, o país persa – e maior país xiita no mundo – tornou-se subitamente o “melhor amigo” dos EUA na região, uma vez que o regime dos aiatolás também não tem interesse algum em assistir aos insurgentes sunitas dominando porções importantes do Iraque. Obviamente, a simples consideração de aliança Washington-Teerã já provocou irritação em Israel, fazendo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu dar declarações polêmicas, como aconselhar Obama a incitar os insurgentes sunitas na Síria e no Iraque a lutarem contra o Irã, e não o contrário: “Quando seus inimigos estão lutando entre si, não se deve fortalecer a nenhum deles, e sim, enfraquecer aos dois”, disse ele.

Ainda que a incerteza tome conta do que pode acontecer nas próximas semanas, um fato é inegável: o Isis e outros grupos insurgentes parecem estar conseguindo feitos inacreditáveis, como uma possível aliança entre EUA e Irã – e possivelmente até mesmo a Rússia, que tem projetos em campos de petróleo no Iraque –, além de unir novamente Israel e Arábia Saudita contra um inimigo comum.

(Crédito da foto de Capa: Reprodução/popularresistance.org)